Protetor

Naquele instante em que ele me ajudou a levantar e eu ergui o rosto para olhá-lo direito, algo dentro de mim aconteceu de repente, como um raio que atravessa o céu em uma noite escura: buuum. Era isso. A sensação que eu sempre pensei que existia, mas que tinha começado a achar que nunca sentiria.

Seu olhar era forte, intenso, profundo; não era algo que me assustava, mas sim algo que me envolvia por completo, como se pudesse ver dentro de mim sem precisar de palavras. Era apaixonante, impossível de ignorar, e eu não conseguia desviar o meu olhar. Talvez fosse o fato de ele ter acabado de me salvar, de ter aparecido como uma força na hora em que eu mais precisei, mas havia algo mais ali: uma conexão que parecia vir de um lugar muito mais antigo, mais profundo.

— Muito obrigada mesmo — repeti, ainda sentindo as mãos um pouco trêmulas, enquanto ele me devolvia a bolsa.

Ele apenas fez um gesto com a cabeça, com um leve sorriso que suavizou um pouco a sua expressão séria. Aceitou o convite para um café sem pensar duas vezes; eu estava precisando de um lugar quente e seguro para recuperar o fôlego e também para ficar mais perto daquele homem que, em poucos minutos, já tinha virado a minha noite de cabeça para baixo.

A cafeteria era pequena, aconchegante, com mesas de madeira e janelas que embaçavam com o vapor da bebida. Quando nos sentamos e ele pediu um café preto forte, comecei a fazer as perguntas que a curiosidade pedia.

— Você fala francês muito bem, mas tem um sotaque diferente… De onde vem? — perguntei, inclinando-me um pouco para a frente.

Ele apoiou os braços sobre a mesa e olhou para mim com calma:

— Sou da Turquia. Meu nome é Malik Karadağ. Estou aqui em Paris por negócios; sou empresário.

Seus olhos brilharam um pouco ao mencionar a sua terra, e eu não pude deixar de sorrir com entusiasmo.

— A Turquia! Sempre quis conhecer! Admiro muito a cultura, a história, as paisagens… Vejo fotos e leio livros, parece um lugar onde o tempo tem outro ritmo. É um dos primeiros lugares que quero visitar quando conseguir viajar de verdade.

Ele ouvia com atenção, sem interromper, e parecia interessado em cada palavra. Depois foi a minha vez de me apresentar melhor:

— Eu sou dentista. Tenho o consultório a poucas ruas daqui. Gosto do que faço, de ajudar as pessoas, mas confesso que a minha rotina parece pequena demais para tudo o que ainda quero viver.

Ele deu um sorriso mais aberto dessa vez, um sorriso que fez o meu coração bater mais rápido:

— Então, quando eu precisar de um dentista, já sei a quem procurar. Vou adorar fazer uma consulta com você.

Ri, sentindo o rosto esquentar, e respondi:

— Ficarei muito à disposição, Malik.

A conversa estava fluindo tão bem, com uma leveza que eu não sentia há muito tempo, quando a porta da cafeteria se abriu com força e um vulto conhecido apareceu. Era Julien, o meu ex-namorado. Ele parou no meio do salão, olhou diretamente para a nossa mesa e o seu rosto ficou vermelho de raiva.

— Então é assim, Sara? — gritou ele, chamando a atenção de todos os presentes. — Em menos de dois meses, me trata como nada, já está com outro homem, se exibindo por aí? Não aprendeu nada, não é mesmo? Sempre procurando atenção!

Ele se aproximou rapidamente, com a intenção de chegar até mim, e eu senti um aperto no peito, lembrando de todas as vezes que ele me humilhou e me fez sentir pequena. Mas, antes que ele pudesse chegar mais perto, Malik se levantou de um salto, colocando-se inteiramente na minha frente, como um escudo.

A sua postura mudou completamente: a calma deu lugar a uma firmeza que impunha respeito, os ombros ficaram eretos e o olhar que lançou para Julien era tão duro que parecia capaz de cortar qualquer coisa.

— Ela não está se exibindo, e você não tem mais nada a ver com a vida dela — disse Malik, com a voz baixa, mas carregada de uma autoridade que não admitia discussão. — Saia daqui agora mesmo, antes que eu tenha que fazer você sair. Da última vez eu ajudei quem precisava; com você, não terei nenhuma piedade.

— Ela era minha noiva, e v... — ele tentou falar, mas Malik o cortou.

— Não importa mais nada, você disse "era", então vai logo.

Julien tentou manter a pose, mas, ao olhar para ele, percebeu que não teria vantagem nenhuma. Deu um passo para trás, ainda resmungando palavras ofensivas, mas acabou saindo pela porta, batendo-a com força.

O silêncio voltou à cafeteria, e Malik virou-se para mim de novo, com o olhar suave novamente, como se quisesse garantir que eu não me sentisse ameaçada.

— Você está bem? — perguntou ele, estendendo a mão e tocando de leve a minha.

Assenti, respirando fundo, mas com uma sensação completamente nova: não era medo, era uma segurança que eu não sentia há muito tempo. Ali, naquele momento, vi claramente: ele tinha um dom nato para proteger. Não era agressividade sem motivo, era a força de quem cuida, de quem defende o que considera valioso.

Olhei para ele de novo, e aquele sentimento do começo só aumentou. Ele tinha aparecido na minha vida para me salvar duas vezes na mesma noite: primeiro do perigo, depois da vergonha e da dor do passado.

— Estou… estou muito melhor agora — respondi, sorrindo com os olhos cheios de algo que eu ainda não sabia nomear direito, mas que já começava a crescer forte dentro de mim. — Muito melhor.

E ali, com o café esfriando na mesa e a calma voltando ao ambiente, eu entendi que o destino tinha cruzado os nossos caminhos por um motivo. E o meu coração, que tinha ficado fechado e desconfiado por tanto tempo, já começava a se abrir de novo, esperando o que esse novo encontro poderia trazer.

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Comments

Rosa Pinto

Rosa Pinto

Aí que lindo Malik e Sara 💞💞💞💞💞💘💘💘💘

2026-08-07

0

Lucia Santos

Lucia Santos

aí que fofo 🩷 Malik e Sara 🥰

2026-07-01

0

Marilia Carvalho Lima

Marilia Carvalho Lima

👏👏👏

2026-07-15

0

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