Eu queria muito saber sobre o que a Manu tinha mentido para mim, mas, infelizmente, já tínhamos chegado na casa dela e, como sempre, ela fugiu do assunto. Fugir do assunto era uma especialidade dela, mas eu não ia deixar isso passar.
— Ainda vamos falar sobre isso. Não pense que eu vou me esquecer tão facilmente — avisei.
— Algum dia falaremos sobre isso — ela disse, sorrindo. — Mas não se preocupe, foram apenas mentiras piedosas.
Mentiras piedosas. Eu nunca entendi de fato o que isso significa. Claro que eu não sou a pessoa mais ética e sincera do mundo, mas nunca me escondi atrás da frase "foram apenas mentiras piedosas".
— Eu acho que mentiras piedosas são apenas desculpas que as pessoas usam para justificar seus atos — comentei, e ela me encarou.
— Você prefere contar uma mentira piedosa ou uma verdade cruel? — perguntou, sem desviar o olhar.
— Não sei... talvez exista uma maneira menos cruel de contar uma verdade — respondi, hesitante, e ela sorriu.
— "Talvez"? — ela insistiu.
— Percebe? Tudo depende das circunstâncias, e às vezes as circunstâncias nos obrigam a mentir — ela disse.
— Então você me contou uma mentira piedosa para que eu não me sentisse mal com uma verdade cruel? — questionei.
— Não, eu menti porque às vezes é mais fácil contar uma mentira do que confessar uma verdade. E você não pode me julgar porque você também está omitindo e escondendo coisas de mim — ela rebateu.
Contra fatos não há argumentos. Ela estava certa, e a discussão estava encerrada, ao menos momentaneamente.
— São duas coisas totalmente diferentes, mas não vejo motivos para continuar falando sobre isso — falei, tentando mudar de assunto.
— Você desistiu rápido demais, e isso só aumenta ainda mais minha curiosidade para descobrir seu segredo — ela disse.
Quem sabe um dia eu possa abrir meu coração e ser sincera com ela, deixando-a saber dos meus sentimentos que há tanto tempo guardo como um grande tesouro. Mas, por ora, minha cabeça está cheia de perguntas que ainda não consigo responder. É inevitável não se preocupar com o que as pessoas vão falar de você, e o que mais me dói é a incerteza de como a Manu reagiria diante de uma confissão dessas. Provavelmente, ela se afastaria de mim. Eu conheço a família dela e sei como ela foi criada. Para os pais dela, um relacionamento homoafetivo é algo abominável.
— Vamos entrar. Sua mãe já deve estar nos esperando — falei, tentando afastar os pensamentos negativos.
— Vamos — ela disse, abrindo a porta da casa e nos levando para dentro.
— MAMÃE! — Manu gritou, chamando a mãe.
Não demorou muito para a governanta da casa aparecer.
— Bom dia, Srta. Manuela. Sua mãe saiu, mas ela disse que não demora a voltar — Marta disse.
— Obrigada, Marta. A Kim e eu vamos subir para o meu quarto. Quando minha mãe chegar, avise, por favor — Manu respondeu de forma irônica.
— Avisarei, com licença — Marta disse, afastando-se. Às vezes, sinto que tenho o dom de ficar invisível.
— Ela me odeia — comentei, quando estávamos subindo.
— Todo mundo gosta de você. O problema é que a Marta é muito focada no serviço — Manu disse, puxando-me para o quarto dela.
Ela abriu a porta e jogou a bolsa na cama, tirou o tênis e se jogou em seguida.
— Fique à vontade — ela falou, e eu me sentei na cama.
— Você está ansiosa para a volta às aulas? — ela perguntou, animada.
Para ser sincera, eu não estava animada. Este seria nosso último ano estudando juntas. Ano que vem, ela estaria em outro país fazendo faculdade e, com certeza, conhecendo novos amigos e tendo muitos amores. Mas, como eu não queria ser a "estraga-prazer" e nem tampouco sei contar "mentira piedosa", usei o bom e velho deboche.
— Estou pulando de entusiasmo — falei, sarcástica.
Ela retrucou na mesma moeda.
— Nem sei porque te fiz uma pergunta tão tola. Percebe-se a quilômetros de distância o seu entusiasmo — ela disse, debochada, e me acertou com uma almofada.
Eu tentei puxar a almofada da mão dela e, não sei como, caímos no chão. Ela caiu por cima de mim e seu rosto ficou a poucos centímetros do meu. Não pude deixar de encarar seus lábios e, por um momento, ficamos nos olhando, até que esse clima estranho foi interrompido por batidas na porta.
Manuela se levantou rapidamente e foi atender a porta. Ela conversava com Marta, enquanto minha mente criava diversos cenários em que essa cena terminava em um beijo.
— Minha mãe chegou — Manu disse, claramente constrangida com a situação.
Para evitar maiores desconfortos, achei melhor sair de lá.
— Vou descer para cumprimentá-la e depois vou embora — falei.
Ela não pediu para que eu ficasse, nem falou nada comigo. Apenas concordou com a cabeça e se retirou do quarto. Fiz o mesmo.
— Bom dia, meninas. Desculpem por ter feito vocês esperarem — a Sra. Isabela falou.
— Bom dia, mamãe — Manu cumprimentou-a com um abraço e um beijo no rosto.
— Bom dia, Sra. Isabela. Não tem porque se desculpar. Na verdade, sou eu que tenho que me desculpar. Aceitei o convite para almoçar, mas houve um imprevisto e meu pai precisa falar comigo com urgência — menti, talvez pela primeira vez, percebendo que mentir pode ser uma excelente solução para alguns problemas.
— Lamento muito por isso. Espero que o imprevisto não seja algo muito sério e que possamos marcar outro almoço qualquer dia desses — ela disse, simpática.
— Qualquer dia desses combinamos. Agora eu realmente preciso ir — falei.
— Vá com Deus e dirija com cuidado — Sra. Isabela respondeu.
— Tchau, Kimberley. Nos vemos no colégio — Manu disse, o que significava que não nos veríamos mais durante o fim de semana.
— Tchau — falei, saindo de lá.
No conforto e na segurança do meu carro, me permiti refletir e analisar toda essa situação com calma. A verdade é que não consigo entender e nem quero tentar compreender nada disso. A única coisa que sei é que não posso mudar o que sinto, assim como sei que não posso obrigar Manu a corresponder meus sentimentos.
Com os pensamentos cada vez mais confusos, voltei para casa com o intuito de almoçar e desabafar com meu único confidente que me ouve sem julgamentos: meu diário, o único que poderia guardar meus segredos. Depois de escrever nele, optei por passar o resto do dia dormindo.
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Atualizado até capítulo 90
Comments
kimpandix
uma verdade cruel de machuca de uma vez e com o tempo cura, mas a mentira piedosa de fere em pequenas doses...
2025-03-30
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kimpandix
é ela tem um ponto!
2025-03-30
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kimpandix
são as piores.....
2025-03-30
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