"A frase 'O amor tudo suporta' é a que me apego para justificar por que ainda estou com o Lucas. Talvez eu nunca tenha interpretado corretamente o sentido dessa frase; talvez eu tenha romantizado demais a ideia de formarmos um par perfeito. Mas par perfeito não existe. A única coisa que existe são duas pessoas trabalhando juntas para fazer dar certo, e infelizmente esse não era o nosso caso.
— É isso que você quer? — Lucas me perguntou, sua voz carregada de irritação.
Isso me irrita. Ele sempre joga a responsabilidade em cima de mim.
— Não faz sentido insistir numa relação que está destinada ao fracasso. Todos os finais de semana temos a mesma discussão e, para ser sincera, eu não vou continuar remando contra a maré — falei, tentando manter a calma.
— Você tem outro? — ele perguntou com raiva, os olhos estreitados.
Que absurdo. Temos tantos problemas que podem justificar nosso término e ele vem com essa pergunta idiota.
— Não existe ninguém. O problema é entre a gente — respondi, sentindo a frustração aumentar.
— Então é por culpa daquela sua amiga que não gosta de mim — ele disse, desviando o foco.
— Não tem nada a ver com os outros, tem a ver única e exclusivamente com nós dois. Deixamos de ser um casal há muito tempo — falei, tentando ser firme.
— Você está com raiva. Você veio dormir comigo e, como eu disse que amanhã eu tenho compromisso, você ficou chateada e agora está fazendo drama — ele disse, acusador.
Não havia necessidade de continuar discutindo. Saí de lá levando apenas meu celular. Era de madrugada e, para piorar, estava chovendo. Não tinha para quem pedir ajuda, então liguei para a única pessoa que sempre me ajudava.
Liguei para Kimberley e, como sempre, ela veio me buscar. Ela me levou para sua casa e permitiu que eu dormisse lá. Fiquei envergonhada porque a Kim sempre fez questão de deixar claro que eu merecia alguém melhor. Confesso que muitas vezes imaginei que ela pudesse ter um certo interesse pelo Lucas, por isso insistia tanto que eu terminasse com ele. Se algum dia ela souber que pensei assim, tenho certeza que ela parará de conversar comigo. Nos conhecemos há tanto tempo e temos uma convivência tão legal que me recuso a imaginar que um dia ela possa sair da minha vida.
Uma das coisas que mais gosto na Kimberley é que, apesar de todos os problemas que aparecem no caminho, ela ainda sorri. Não conheço ninguém que suportaria metade das decepções que ela passou. Às vezes sinto que ela guarda um grande segredo e gostaria que confiasse em mim o suficiente para me contar.
Acordei e havia uma roupa e uma escova de dente lacrada em cima da cama para mim. Peguei e fui tomar banho. Assim que terminei de me arrumar, fui à procura da Kim. Passo tanto tempo aqui que já me acostumei com a casa. Fui até a cozinha e a encontrei tomando café da manhã enquanto lia um livro. Ela estava tão concentrada que nem notou minha presença.
— Bom dia — falei em um tom de voz um pouco mais alto. Ela se assustou e eu sorri com a cena.
— Bom dia. Dormiu bem? — ela perguntou e fez sinal para que eu me sentasse.
— Muito bem — respondi, e ela se levantou.
— Prefere café com leite ou suco? — ela perguntou.
— Suco — falei, e ela me serviu.
Peguei um pedaço de bolo que estava na mesa e comi.
— Sua mãe ligou — Kim me disse, com uma expressão levemente preocupada.
Agora estou ferrada. Eu disse à minha mãe que dormiria na casa da Kimberley, uma mentira que acabou se tornando verdade.
— O que ela queria? — perguntei, tentando soar despreocupada.
— Nada demais. Ela só queria confirmar se você realmente estava aqui — ela disse, sugestiva.
— Não é o que você está pensando — falei, e ela sorriu.
— Estou pensando que você tentou enganar sua mãe — Kim disse.
Era exatamente isso. Eu falei que ia passar a noite na casa da Kimberley e acabei passando a madrugada aqui.
— Uma mentira repetida várias vezes se torna uma verdade, e foi isso que aconteceu — argumentei, tentando aliviar a tensão.
— De qualquer forma, sua mãe quer que nós estejamos lá na hora do almoço — ela disse e fechou o livro.
— Posso te pedir um favor? — perguntei, torcendo para que ela dissesse sim.
— Que tipo de favor? — ela questionou.
— Minhas coisas ficaram na casa do Lucas. Tem como você me levar lá? — perguntei, e ela me olhou como se eu fosse fazer uma grande burrice.
— Vai ser rapidinho. Eu só vou pegar minhas coisas e sair de lá — falei, e ela concordou.
— Tá bom, mas se você demorar eu vou te deixar lá sozinha — ela falou.
— Obrigada — disse, abraçando-a.
Fomos até a casa do Lucas, e ela ficou me esperando no carro. Toquei a campainha e uma garota atendeu a porta.
— Bom dia, em que posso te ajudar? — ela perguntou.
— Bom dia. Vim pegar minhas coisas — falei, e ela me olhou assustada.
— Você é a namorada do Lucas? — ela perguntou.
— Não, sou ex-namorada dele e só vim pegar minhas coisas — falei e entrei para pegar minhas coisas.
Lucas saiu do quarto sem camisa e ficou assustado ao me ver.
— Manu, o que você faz aqui? — ele perguntou.
— Só vim pegar minhas coisas — falei, pegando minha bolsa.
— Já estou indo. Divirtam-se — falei, saindo.
— Espera, temos muito o que conversar — Lucas falou.
— Já não temos sobre o que conversar. O diálogo entre nós deixou de existir há muito tempo. Continue fazendo o que sempre fez, mas desta vez não precisa tentar se esconder. Agora você é solteiro e pode levar a vida sem compromisso que tanto deseja — falei, saindo de lá.
Engraçado, eu não me senti triste. Na verdade, fiquei aliviada por não estar mais em um relacionamento fracassado e sem respeito. Fui até o carro da Kim, que estava distraída ouvindo música. Aproximei-me e dei leves batidas no vidro, e ela levou um susto. Ri dela.
— Palhaça — ela falou.
— Vamos, Kimberley. Temos um almoço para ir e depois temos que comemorar o fim do meu namoro — falei.
— Pensei que ele ia conseguir te convencer de novo — ela falou.
Então era essa a visão que todos tinham de mim. É decepcionante perceber o tipo de mulher que me tornei em nome de um sentimento que nunca foi recíproco.
— Vou recuperar minha dignidade — falei mais para mim do que para Kimberley.
— Não quis te ofender. Desculpa — ela falou, começando a dirigir.
— Você é a única pessoa que sempre fala a verdade na minha cara, e isso é o que me faz gostar tanto de você — falei, e ela continuou olhando fixamente para a rua.
— Nem sempre somos 100% verdadeiros e sinceros — ela disse, me deixando intrigada.
— Você já mentiu para mim? — perguntei, e ela negou com a cabeça.
— Nunca menti para você. Às vezes só omito os fatos — ela disse, sorrindo.
— E você, já mentiu para mim? — ela questionou.
— Já — falei, sendo sincera. Ela me olhou incrédula e eu agradeci por termos chegado à minha casa.
— Chegamos — falei, saindo rapidamente do carro para que ela não me fizesse mais perguntas.
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Atualizado até capítulo 90
Comments
kimpandix
interesse ela tem mas não pelo Lucas de Chernobyl
2025-03-30
0
UsuárioMengo
Realmente, às pessoas romantizam demais essa frase
2025-01-26
0
kimpandix
e ela que tinha outro né!?
2025-03-30
0