Capítulo 1 — A Testemunha
Bellavere, Itália — 23h17.
A chuva caía sobre a cidade havia quase duas horas.
Luca Bellini apertou o casaco contra o corpo enquanto caminhava pela calçada, segurando um pequeno saco de papel com o jantar que comprara antes de fechar a floricultura. Estava cansado, com os pés doloridos e uma única vontade: chegar em casa, tomar um banho quente e dormir até tarde na manhã seguinte.
— Nunca mais aceito fazer inventário até depois das dez — resmungou para si mesmo.
Virou na rua estreita que costumava usar para encurtar o caminho.
Foi quando ouviu o primeiro barulho.
Um estrondo seco.
Luca parou.
Por um instante, pensou que fosse alguma coisa caindo dentro de um dos prédios antigos. Então ouviu uma voz masculina, baixa e furiosa, seguida pelo som de passos apressados.
O instinto lhe disse para continuar andando.
A curiosidade, infelizmente, foi mais rápida.
Escondendo-se atrás de um carro estacionado, Luca olhou para a entrada de um beco.
Havia dois homens ali.
Um deles vestia um sobretudo escuro e mantinha a mão pressionada contra o peito. O outro segurava uma arma.
— Você deveria ter ficado calado — disse o homem armado.
Luca sentiu o sangue gelar.
O homem ferido tentou responder, mas não teve tempo.
O segundo disparo ecoou pela rua.
Luca levou as mãos à boca.
O homem de sobretudo caiu, e o silêncio que se seguiu pareceu mais assustador do que o tiro.
Meu Deus.
Ele precisava ir embora.
Precisava sair dali, encontrar a polícia e esquecer que tinha visto aquilo.
Luca recuou um passo.
A sola de seu sapato esmagou um pedaço de vidro.
O ruído foi pequeno.
Mesmo assim, o homem armado virou a cabeça.
— Quem está aí?
Luca não esperou para descobrir o que aconteceria se fosse encontrado.
Correu.
Atravessou a rua sem olhar para trás, escorregou numa calçada molhada e quase caiu. Seu coração batia tão depressa que mal conseguia ouvir os próprios passos.
Atrás dele, uma porta se abriu.
— Peguem-no!
Luca sentiu o pânico tomar conta de seu corpo.
Virou a esquina e correu até uma avenida mais movimentada, procurando desesperadamente um lugar onde pudesse se esconder. Seus dedos tremiam enquanto tentava alcançar o telefone no bolso.
Não chegou a tirá-lo.
Um automóvel preto surgiu junto à calçada.
A porta traseira se abriu.
Dois homens de terno saíram do veículo.
— Senhor Bellini? — perguntou um deles.
Luca recuou.
— Como sabem meu nome?
O homem não respondeu.
O outro olhou para o fim da rua, onde duas silhuetas se aproximavam.
— Precisamos levá-lo. Agora.
— Eu não vou a lugar nenhum com vocês!
Luca tentou correr, mas um dos homens segurou seu braço. Ele se debateu, assustado, até que uma terceira pessoa saiu do carro.
Um homem alto, vestido inteiramente de preto.
Os cabelos escuros estavam perfeitamente arrumados apesar da chuva. Seus olhos cinzentos percorreram Luca com uma frieza que o fez esquecer, por um segundo, o que estava tentando dizer.
O desconhecido olhou para o homem que segurava o ômega.
— Solte-o.
A ordem foi imediata.
O homem obedeceu.
Luca puxou o braço contra o peito e se afastou alguns passos.
— Quem é você?
O desconhecido não respondeu imediatamente.
Seu olhar desceu até o saco de papel amassado que Luca ainda segurava. O jantar estava praticamente destruído.
Por algum motivo absurdo, foi aquilo que fez Luca perceber que estava tremendo.
— Dante Moretti — respondeu finalmente o homem. — E você acabou de se tornar a pessoa mais procurada desta cidade.
Luca piscou.
— O quê?
— Você viu o que aconteceu no beco.
Não era uma pergunta.
Luca sentiu o estômago afundar.
Dante aproximou-se um pouco, mas parou quando percebeu que o ômega recuava.
— Escute com atenção. O homem que você viu cometer aquele crime não pode permitir que você conte o que aconteceu.
— Então me leve à polícia!
Uma expressão quase imperceptível atravessou o rosto de Dante.
— Se a polícia fosse confiável, eu não precisaria estar aqui.
— Isso não faz sentido nenhum!
— Você terá tempo para discutir comigo depois. Agora, precisa sair desta rua.
Um motor rugiu ao longe.
Dante virou a cabeça. Seu semblante mudou imediatamente, tornando-se ainda mais frio.
— Dentro do carro, Luca.
Ouvir o próprio nome na boca daquele desconhecido provocou um arrepio desagradável.
— Não.
Os dois seguranças se entreolharam.
Dante voltou a encará-lo.
— Não vou repetir.
— E eu não vou entrar num carro com um homem que acabei de conhecer! — Luca rebateu, embora sua voz tenha saído menos firme do que gostaria. — Você pode ser tão perigoso quanto aquele sujeito!
Por um instante, ninguém disse nada.
Então Dante soltou uma respiração curta, quase um suspiro.
— Finalmente alguém nesta cidade que não confunde meu sobrenome com um convite para obedecer.
— Isso foi um elogio?
— Não se acostume.
Dante abriu a porta do automóvel e fez um gesto para que Luca entrasse.
— Você pode entrar sozinho ou posso mandar meus homens acompanhá-lo. A escolha é sua.
— Isso não é uma escolha!
— Não. — Dante sustentou seu olhar. — É a sua última oportunidade de fazer isso da maneira mais fácil.
Luca o odiou um pouco naquele instante.
Odiou ainda mais o fato de que, ao olhar para trás, viu um dos homens do beco surgindo na esquina.
Sem outra alternativa, entrou no carro.
Dante sentou-se ao seu lado.
A porta se fechou, e o automóvel partiu.
O interior do veículo cheirava a couro, madeira e alguma coisa quente, semelhante a cedro.
Luca permaneceu encostado à porta, tentando controlar a respiração. Seu aroma natural de jasmim tornara-se mais perceptível com o medo, e ele sentiu vergonha de não conseguir disfarçar o próprio nervosismo.
Dante, por outro lado, parecia perfeitamente tranquilo.
Tirou o telefone do bolso e fez uma ligação.
— Encontrem o homem que fugiu do beco. Quero saber quem deu a ordem e por que a segurança foi comprometida.
Uma pausa.
— Não. Não quero explicações por telefone. Resolva isso.
Desligou.
Luca olhou para ele.
— Você conhece o assassino?
— Conheço muita gente desagradável.
— Isso não responde à pergunta.
Dante virou lentamente o rosto.
— Você sempre faz tantas perguntas?
— Só quando sou sequestrado por estranhos.
Um dos seguranças tossiu discretamente no banco da frente.
Dante lançou-lhe um olhar pelo retrovisor, e o homem imediatamente voltou a encarar a estrada.
Luca teria achado aquilo engraçado em outras circunstâncias.
Naquele momento, porém, estava ocupado demais tentando descobrir se voltaria para casa naquela noite.
— Para onde estamos indo? — perguntou.
— Para minha residência.
— Eu não vou morar na sua casa.
— Não pedi que morasse nela.
— Ótimo. Então me deixe em casa.
— Não.
Luca virou-se para ele, indignado.
— Você é sempre assim?
— Assim como?
— Insuportável!
Dante ficou em silêncio por alguns segundos.
Então, para surpresa de Luca, um pequeno sorriso apareceu no canto de sua boca.
Não era um sorriso caloroso. Parecia mais o de alguém que acabara de encontrar um problema particularmente interessante.
— Você realmente não tem instinto de sobrevivência, não é?
— Tenho, sim. Ele está me dizendo que deveria ter corrido mais rápido.
Dessa vez, Dante quase riu.
Quase.
E Luca, que estava ocupado demais sentindo raiva, não percebeu que o alfa havia desviado o olhar para esconder a expressão.
A mansão Moretti ficava no alto de uma colina, cercada por muros altos, jardins impecáveis e câmeras de segurança.
Quando o carro atravessou os portões, Luca sentiu como se tivesse entrado em outro mundo.
A casa era enorme, iluminada por lustres dourados e cercada por funcionários que se movimentavam em silêncio. Tudo parecia caro, organizado e assustadoramente impessoal.
Dante saiu primeiro e esperou que Luca o acompanhasse.
— Quero meu telefone — disse o ômega assim que entrou no vestíbulo.
— Será devolvido depois de verificarmos se alguém pode rastreá-lo.
— É meu!
— Eu sei.
— Então me devolva!
Dante parou diante da escadaria.
— Luca.
A maneira como pronunciou seu nome fez o ômega se calar por um instante.
— Você presenciou um assassinato cometido por alguém que está disposto a matar para proteger seus segredos. Neste momento, não sei quem está envolvido, quantas pessoas estão trabalhando para ele ou até onde essa rede chega.
— E você acha que me trancar aqui vai resolver tudo?
— Acho que manter você vivo é um bom começo.
A resposta foi tão direta que Luca perdeu momentaneamente a vontade de discutir.
Dante chamou uma mulher de meia-idade que aguardava perto da escada.
— Teresa, prepare um quarto para o senhor Bellini. Algo confortável. E peça que tragam comida.
— Sim, senhor.
— Não estou com fome — Luca interrompeu.
Seu estômago escolheu aquele exato momento para roncar.
O silêncio foi absoluto.
Teresa desviou o rosto, claramente tentando não sorrir.
Dante olhou para o saco de papel amassado nas mãos do ômega.
— Imagino que seu jantar tenha sobrevivido à viagem tão bem quanto sua paciência.
Luca fechou os olhos por um segundo.
— Eu detesto você.
— Isso parece prematuro.
— Posso detestá-lo mais depois do jantar.
Dante ficou olhando para ele.
Então fez algo que Luca não esperava: soltou uma risada baixa, breve e genuína.
Foi tão inesperado que Luca esqueceu a resposta que estava preparando.
Por um instante, o homem diante dele pareceu menos uma ameaça e mais alguém da sua idade emocionalmente inacessível, escondido atrás de uma armadura cuidadosamente construída.
A impressão desapareceu quando Dante voltou a falar.
— Teresa vai acompanhá-lo ao quarto. Você poderá usar o telefone da casa para ligar à sua família amanhã.
— Amanhã? Por que não agora?
— Porque ainda precisamos verificar se seu telefone foi comprometido e se sua família está sendo observada.
Luca sentiu um frio percorrer a espinha.
— Minha irmã?
Dante percebeu a mudança imediata em seu rosto.
— Temos uma equipe verificando isso.
— Você não vai tocar nela.
— Não tenho interesse em machucar sua irmã.
— Não foi isso que eu disse. Se alguma coisa acontecer com ela por minha causa...
— Luca.
A voz de Dante ficou mais baixa.
— Ninguém vai usá-la para chegar até você enquanto eu puder impedir.
Havia uma firmeza naquela promessa que quase parecia sincera demais.
Luca queria acreditar nela.
Esse era o problema.
Ele queria acreditar porque estava assustado, porque não sabia em quem confiar e porque, apesar de tudo, aquele alfa parecia conhecer a gravidade da situação melhor do que qualquer outra pessoa.
Mas confiar em Dante seria como entregar a chave de uma porta a alguém que já havia decidido trancá-la.
— Eu quero ir para casa — murmurou.
Pela primeira vez naquela noite, Dante não respondeu imediatamente.
Seus olhos cinzentos permaneceram fixos no rosto de Luca. O aroma de jasmim e chuva pairava discretamente entre os dois, misturando-se ao cedro de Dante.
O alfa pareceu prestes a dizer alguma coisa.
Por um instante, sua expressão perdeu a dureza.
— Eu sei — respondeu finalmente.
E aquela resposta, tão simples e tão inesperadamente triste, fez Luca sentir uma pontada estranha no peito.
Dante se afastou.
— Teresa vai cuidar de você. Se precisar de alguma coisa, peça a ela.
— E se eu precisar sair?
O alfa parou no primeiro degrau.
Lentamente, virou a cabeça.
Toda a ternura momentânea desapareceu de seu rosto.
— Você não vai sair desta mansão sem minha autorização.
Luca ficou imóvel.
— Você não pode fazer isso.
— Posso.
— Eu não sou sua propriedade, Dante!
O nome escapou de sua boca com uma indignação que fez os seguranças prenderem a respiração.
Dante desceu um degrau.
— Não. Você é uma testemunha que está sob minha responsabilidade.
— Isso é apenas uma maneira bonita de dizer que estou preso!
Por alguns segundos, o alfa não respondeu.
Então seus olhos se estreitaram.
— Chame como quiser. A porta do seu quarto estará aberta, você terá tudo de que precisar e ninguém tocará em você sem sua permissão. Mas, até que eu tenha certeza de que o homem que você viu não representa mais uma ameaça, você permanecerá aqui.
— E se eu me recusar?
Dante sustentou seu olhar.
— Então teremos um problema.
— Você é um monstro.
A frase pareceu atingir alguma coisa dentro do alfa, embora ele não demonstrasse.
Dante virou-se para subir as escadas.
— Monstros costumam ser muito piores do que eu, Luca.
E desapareceu no corredor do andar superior.
Naquela noite, Luca recebeu um quarto enorme, uma refeição quente e roupas limpas.
Teresa foi gentil com ele. Explicou onde ficava o banheiro, mostrou-lhe o telefone interno e garantiu que poderia chamá-la se precisasse de alguma coisa.
Tudo era confortável.
Tudo era bonito.
E nada daquilo mudava o fato de que Luca não podia ir embora.
Depois que Teresa saiu, ele caminhou até a janela.
Lá embaixo, dois seguranças patrulhavam o jardim. Outros permaneciam perto dos portões. As câmeras acompanhavam cada movimento do lado de fora.
A mansão não era apenas uma residência.
Era uma fortaleza.
Luca encostou a testa no vidro frio e pensou na irmã, na floricultura e na vida simples que tivera até poucas horas antes.
Sentia falta até das coisas que costumava reclamar.
Seu telefone vibrou sobre a mesa.
Ele se virou depressa.
Não era o aparelho dele, que continuava retido. Era um telefone da casa, com uma única mensagem recebida.
Número desconhecido: Você viu o que não deveria. Se quiser continuar vivo, não confie em Moretti.
Luca leu a mensagem duas vezes.
Depois, ouviu uma batida na porta.
Seu corpo inteiro ficou tenso.
— Luca? — chamou uma voz masculina.
Dante.
O ômega guardou o telefone no bolso do casaco que ainda usava e abriu a porta apenas o suficiente para encará-lo.
O alfa estava sem o paletó, com as mangas da camisa dobradas até os antebraços. Parecia cansado, e havia uma pequena marca avermelhada em seus dedos, como se tivesse machucado a mão durante a noite.
Seus olhos passaram pelo rosto de Luca.
— Você recebeu alguma ligação?
— Não.
A resposta saiu depressa demais.
Dante percebeu.
Luca soube pelo modo como o alfa ficou imóvel, observando-o com uma atenção quase desconfortável.
— Está mentindo para mim?
— Você acabou de me prender numa mansão. Não acho que tenha conquistado o direito de exigir minha confiança.
Dante permaneceu em silêncio.
Então, surpreendentemente, não insistiu.
— Durma um pouco. Amanhã conversaremos sobre o que você viu.
Ele começou a se afastar.
— Dante?
O alfa parou.
Luca hesitou.
Queria mostrar a mensagem. Queria respostas. Queria alguém que pudesse lhe garantir que sua irmã estava segura.
Mas alguma coisa o impediu.
Talvez fosse o medo.
Talvez fosse a lembrança da advertência.
Não confie em Moretti.
— Se eu ficar aqui — perguntou Luca, baixinho —, você vai realmente me proteger?
Dante voltou o rosto para ele.
Por um instante, o homem perigoso, o chefe da organização e o alfa acostumado a dar ordens pareceram desaparecer.
Restou apenas alguém que compreendia perfeitamente o peso daquela pergunta.
— Sim — respondeu.
Não hesitou.
— Mesmo que você continue me odiando?
Dessa vez, Luca não soube o que dizer.
Dante sustentou seu olhar por mais alguns segundos e se afastou pelo corredor.
Luca fechou a porta devagar.
Do outro lado, o alfa permaneceu imóvel por um breve momento, ouvindo o clique da fechadura.
Ele sabia que Luca tinha medo dele.
Sabia que estava cometendo um erro ao mantê-lo ali contra a vontade do ômega.
E, ainda assim, quando imaginou aquele rapaz atravessando sozinho as ruas de Bellavere, vulnerável aos homens que o procuravam, o pensamento de deixá-lo partir provocou uma sensação que Dante não conseguia suportar.
Não era apenas responsabilidade.
Não era apenas instinto.
Era algo mais perigoso.
Algo que ele não pretendia nomear.
Porque Dante Moretti, que nunca temera perder dinheiro, poder ou a própria vida, acabara de descobrir uma coisa muito pior: a possibilidade de se importar com alguém que tinha todos os motivos para fugir dele.
E Luca, do outro lado da porta, segurava o telefone com a mensagem ainda aberta.
Duas pessoas.
Duas verdades incompletas.
E uma noite que mudaria tudo.
Continuar.