Dizem que a chuva daquela noite não caiu do céu ela subiu da terra, como se o próprio mundo estivesse chorando pelo homem que ali jazia, abandonado entre pedras, sangue e promessas quebradas.
Seu nome era Valen de Arkh, o mais leal cavaleiro do reino de Lorian. Durante anos, Valen carregou nas costas guerras que não eram suas, defendeu muralhas que mal conheciam seu nome e protegeu um rei que chamava de irmão. Sua espada, Lúmen, era famosa por refletir a luz do amanhecer como se guardasse um pedaço do sol em sua lâmina. Por onde passava, levava esperança. E por isso, muitos o chamavam de o Cavaleiro da Aurora.
Mas até a aurora pode ser engolida pela escuridão.
Na noite em que o rei convocou seus generais e cavaleiros para uma reunião secreta, Valen acreditava estar indo receber uma nova missão. O reino estava em paz havia meses, e ele imaginou que talvez fosse, enfim, descansar. Porém, ao entrar no salão subterrâneo do castelo, encontrou não conselheiros... mas espadas apontadas para seu peito.
No trono menor, abaixo do rei, estava Cedric, seu melhor amigo, o homem com quem treinara desde a infância, o irmão que a vida lhe dera. Foi Cedric quem desviou o olhar primeiro.
— Perdoe-me, Valen — disse ele, com a voz falhando. — O reino precisa de um culpado.
Valen não entendeu de imediato. Depois vieram as acusações: traição, conspiração, assassinato de nobres, pacto com forças sombrias. Crimes que jamais cometera. Crimes inventados para esconder a podridão de homens poderosos.
O rei não o defendeu.
Nenhum dos cavaleiros falou por ele.
E Cedric... Cedric permaneceu em silêncio.
Valen lutou como um homem encurralado entre a honra e a morte. Derrubou dez, feriu outros tantos, mas até o guerreiro mais lendário sangra quando é atacado pelas costas. Uma lança atravessou seu ombro. Uma espada cortou sua perna. E o golpe final veio de Cedric, que cravou a lâmina no peito do amigo.
Não fundo o bastante para matar. Mas fundo o bastante para condenar.
Seu corpo foi lançado em um desfiladeiro conhecido como Vale dos Esquecidos ou abismo, lugar para onde iam os traidores, os amaldiçoados e aqueles que o reino queria apagar da história.
Na escuridão do vale, Valen deveria ter morrido.
Mas a morte não o quis.
Durante dias ou talvez semanas ele vagou entre febres e delírios, ouvindo sussurros no nevoeiro. Vozes antigas chamavam por seu nome, não com piedade, mas com curiosidade. Em uma caverna oculta sob raízes negras, ele encontrou um lago imóvel como vidro. Ao tocar a água, viu seu reflexo... e o reflexo abriu os olhos antes dele.
— Você ainda busca justiça? — perguntou a imagem.
Valen, caído de joelhos, respondeu com a última força que lhe restava:
— Não.
Busco vingança.
O lago brilhou em azul profundo.
Daquelas águas surgiu uma nova espada, negra como noite sem lua, mas atravessada por finas rachaduras de luz dourada. Era uma arma estranha toda colorida como um cristal de prisma em sua lâmina, viva, como se respirasse em suas mãos. Uma voz ecoou dentro de sua mente:
“A vingança consome os fracos. Mas nos fortes, ela revela a verdade.”
Valen não sabia se aquilo era bênção ou maldição. Ainda assim, aceitou.
Quando deixou o vale, já não era o Cavaleiro da Aurora.
Seu cabelo, antes dourado, agora trazia mechas prateadas. Seus olhos haviam perdido o brilho calmo e carregavam algo mais profundo como se tivessem visto o fundo do mundo e voltado de lá com segredos que não deveriam existir. A cicatriz em seu peito ardia sempre que pensava em Cedric. E a cada noite, sonhava com o salão, com o silêncio do rei, com a lâmina do amigo atravessando sua carne.
Mas o ódio, sozinho, não o guiava.
Pelo caminho, Valen encontrou aldeias destruídas por soldados do próprio reino. Viu crianças passando fome enquanto nobres celebravam em banquetes. Descobriu que a paz de Lorian era uma mentira construída sobre cadáveres e pactos escondidos. O rei, que antes ele servira com devoção, estava vendendo terras sagradas e vidas inocentes para manter sua coroa. E Cedric... Cedric havia aceitado se tornar o novo comandante da guarda real.
A cada verdade revelada, a vingança de Valen deixava de ser apenas pessoal.
Ela se tornava um acerto com o próprio destino.
Mesmo assim, havia algo misterioso em sua jornada. Sempre que a lua ficava encoberta, figuras encapuzadas surgiam à distância observando seus passos. Corvos de olhos brancos pousavam perto de sua fogueira e desapareciam ao amanhecer. E em vilarejos antigos, idosos faziam o sinal da cruz ao vê-lo, murmurando um nome que Valen jamais ouvira:
“O Cavaleiro do Crepúsculo.”
Uma noite, em ruínas cobertas por hera, ele encontrou uma velha tapeçaria esquecida. Nela havia a imagem de um guerreiro usando uma armadura semelhante à sua, empunhando uma espada rachada de luz, diante de um trono em chamas.
Abaixo da imagem, palavras apagadas pelo tempo ainda podiam ser lidas:
“Quando a aurora for traída pela própria coroa, o crepúsculo se erguerá para decidir se o reino merece sobreviver.”
Valen ficou imóvel por longos minutos.
Seria ele parte de uma profecia?
Ou apenas mais uma peça em um jogo muito maior do que sua dor?
Não importava.
Naquela mesma noite, diante do fogo baixo, ele fez um juramento não aos deuses, nem aos reis, mas a si mesmo:
— Eu fui leal, e me chamaram de traidor.
Fui espada, e me usaram como ferramenta.
Fui irmão, e me apunhalaram pelas costas.Agora serei aquilo que eles mais temem,não por ódio apenas... mas porque alguém precisa lembrar este reino do preço da mentira.
E assim, Valen seguiu seu caminho.
Não como herói. Não como vilão.
Mas como um homem partido entre luz e trevas, carregando no peito a dor da traição e nas mãos a chance de mudar o destino de um reino corrupto.
Dizem que, onde ele passa, as fogueiras se apagam sozinhas e o vento sussurra nomes de homens condenados. Dizem que nobres começaram a desaparecer, um por um, sempre deixando para trás apenas uma marca: um risco de espada queimado nas paredes, brilhando por alguns segundos antes de sumir.
Alguns o chamam de monstro.
Outros, de justiça.
Mas, nas tavernas mais distantes, quando a noite está silenciosa e a chuva cai mansa sobre os telhados, ainda há quem conte sua história em voz baixa, como se temesse que ele pudesse ouvir.
A história de um cavaleiro que perdeu tudo. Que desceu ao abismo e voltou diferente. Que trocou a inocência pela verdade. E que agora cavalga rumo ao castelo onde um rei o vendeu... e um irmão o traiu.
Pois Valen aprendeu, tarde demais, que nem toda vingança nasce do mal.
Às vezes, ela nasce da última parte do coração que se recusa a morrer.