Eu odeio o jeito que ele me olha. Sério.
Odeio como os olhos dele descem lentamente, como se estivessem me lendo… me despindo sem precisar encostar.
E odeio ainda mais o fato de que… meu corpo reage.
— Para de me encarar Gustavo — eu disse, cruzando os braços, tentando parecer firme.
Gustavo Godoy encostou na parede, tranquilo demais.
— Se isso te incomoda tanto… por que você não vai embora Tallita?
Meu coração apertou, porque eu podia ir, mas não fui. Droga.
— Porque eu não tenho medo de você — respondi, erguendo o queixo.
Ele sorriu, com aquele sorriso irritante, lento, seguro, como se já soubesse que tinha ganhado.
— Não… — ele deu um passo na minha direção — você tem medo de você mesma.
Meu corpo travou. Ele não podia estar certo, mas estava.
Tentei sair dali. Juro que tentei.
Mas no segundo em que passei por ele… senti os dedos dele segurando meu pulso.
Meu corpo inteiro arrepiou. Eu parei. Não porque quis, mas porque não consegui continuar.
— Solta — falei, baixo.
Mas minha voz não saiu firme como eu queria. Ele percebeu. Ah, é claro que percebeu. Ele sempre percebe.
— Se você realmente quisesse que eu soltasse… já teria ido embora — ele murmurou, se aproximando por trás.
A respiração dele tocou meu pescoço. E aquilo foi… um erro, um enorme erro.
Fechei os olhos por um segundo, só um.
Mas foi o suficiente pra perder o controle que eu estava tentando manter.
— Você gosta disso, não gosta? — ele disse, ainda mais perto — gosta quando eu chego assim… quando você não consegue pensar direito…
— Cala a boca… — eu sussurrei.
Mas não me afastei. E isso dizia tudo.
Quando ele me virou de frente, foi rápido.
E de repente… estávamos perto demais. Sabe aquele tipo de perto que faz o mundo desaparecer? Aquele tipo de perto que faz qualquer decisão parecer impossível? Era esse tipo de perto. Exatamente esse.
— Última chance — ele disse, olhando direto nos meus olhos — você vai fugir… ou vai parar de mentir?
Minha respiração falhou. Meu coração estava alto demais. E eu já estava cansada de fugir.
— Eu não tô mentindo Godoy — falei… mas nem eu acreditei.
Ele inclinou a cabeça, os olhos escurecendo.
— Então prova.
E aquilo… acabou comigo.
Eu não lembro quem se aproximou primeiro. Só sei que, quando percebi, já estava segurando a camisa dele, puxando ele pra mais perto… como se precisasse.
Como se já fosse tarde demais pra pensar.
O beijo não foi calmo. Não foi doce. Foi intenso, quase desesperado.
Como se tudo que a gente segurou tivesse explodido naquele momento.
Senti as mãos dele na minha cintura, firmes, me puxando contra ele, e meu corpo respondeu sem pedir permissão.
Eu devia parar. Eu sabia disso, mas não parei. Porque eu não queria.
— Você vai se arrepender… — eu murmurei entre um segundo e outro.
Ele encostou a testa na minha, respirando pesado.
— Você já tá arrependida?
Silêncio. Eu não consegui responder, porque a verdade era simples.
Eu nunca quis tanto alguma coisa errada.
Quando ele me puxou de novo, mais forte dessa vez, senti meu coração disparar ainda mais. Minhas mãos subiram sem pensar, segurando ele como se eu fosse cair… ou como se não quisesse que ele fosse embora. E talvez fosse isso mesmo.
Talvez eu já estivesse perdida, desde o começo.
E naquele momento… eu entendi:
Não era só atração, era pior.
Era o tipo de desejo que mistura raiva, orgulho… e vontade. O tipo que não deixa você ir embora, mesmo quando deveria.
Eu devia ter parado antes. Devia ter ido embora naquela primeira noite… quando ainda era só troca de olhares. Mas não fui. E agora… já era tarde demais.
— Isso não pode continuar — eu disse, tentando manter a voz firme.
Mas nem eu acreditei.
Gustavo ficou em silêncio por um segundo, me encarando como se estivesse tentando entender… ou talvez aceitando algo que já sabia.
— Então por que você tá tremendo Tallita? — ele perguntou, baixo.
Droga, eu estava mesmo.
— Porque eu sei que isso vai acabar mal.
Ele deu um passo na minha direção. E eu não recuei. Nunca recuava quando era com ele.
— Já acabou mal — ele disse.
Meu coração apertou, porque… isso era verdade.
Aquilo nunca foi certo. Nunca foi simples. E mesmo assim… foi real demais.
Eu respirei fundo, sentindo tudo pesar ao mesmo tempo.
— A gente precisa parar.
Dessa vez, eu falei sério, e ele percebeu. Vi no olhar dele, na forma como o maxilar travou levemente… como se ele estivesse segurando alguma coisa.
— Tá — ele respondeu.
Simples assim, sem discutir, sem tentar me impedir. E aquilo… doeu mais do que qualquer outra coisa.
— Só isso Godoy? — perguntei, quase sem querer.
Ele soltou um riso fraco, sem humor.
— Você quer que eu faça o quê? Te obrigue a ficar?
Silêncio.
Porque uma parte de mim… queria, mas eu não podia dizer isso.
Ele chegou mais perto uma última vez.
Mas dessa vez… não foi igual, não tinha provocação, não tinha jogo. Só… verdade.
— Você sabe que, se você ficar… eu não vou te deixar ir de novo — ele disse, olhando direto nos meus olhos.
Meu coração disparou. E por um segundo… eu quase disse “então não deixa”.
Quase. Mas eu me afastei.
Um passo, depois outro.
Sentindo como se cada movimento estivesse rasgando alguma coisa dentro de mim.
— É melhor assim — eu sussurrei.
Mentira. A maior de todas.
Eu virei as costas, e fui embora.
Sem olhar pra trás, porque eu sabia…Que se olhasse… Eu não iria conseguir ir.
Mas quando cheguei na porta… parei.
Minha mão ficou imóvel na maçaneta.
Meu coração… completamente fora de controle.
E então eu ouvi.
— Você ainda vai voltar.
A voz dele.
Baixa, segura, certa demais.
Fechei os olhos.
Respirei fundo.
E saí. Mas no fundo… eu sabia, ele estava certo.
Eu ainda penso: "Eu não devia ter parado." Mas parei.
Minha mão ainda estava na maçaneta… meu coração completamente descontrolado, como se soubesse que eu estava prestes a fazer a escolha errada.
Ou a certa.
Eu nem sabia mais.
E então eu ouvi passos, rápidos, decididos.
Antes que eu pudesse reagir, senti a mão dele puxando meu braço, me virando de volta com força suficiente pra tirar todo o ar dos meus pulmões.
— Eu falei que você ia voltar Tallita.
A voz dele estava diferente.
Mais baixa, mais intensa, mais… perigosa.
— Gustavo, eu—
Não consegui terminar, porque no segundo seguinte, minhas costas já estavam contra a parede.
E ele… perto demais. De novo.
Sempre perto demais.
Meu coração disparou como nunca.
— Você acha mesmo que vai sair assim? — ele murmurou, os olhos presos nos meus — depois de tudo isso Tallita?
Minha respiração falhou.
Minhas mãos subiram sem que eu mandasse, segurando a camisa dele como se eu estivesse tentando me manter de pé… ou puxar ele mais perto.
Eu não sabia mais.
Nada fazia sentido quando ele estava assim.
— A gente não pode… — eu tentei dizer.
Mas minha voz saiu fraca, quase um sussurro.
Ele inclinou a cabeça, se aproximando devagar… como se estivesse me dando tempo de recuar, mas eu não recuei. Eu nunca recuava.
— Então me impede — ele disse.
Meu coração quase parou.
Porque eu sabia… Eu não ia impedir.
Ele chegou mais perto. Mais.
Até que eu senti a respiração dele nos meus lábios.
Um segundo, só um.
O tipo de segundo que muda tudo.
Foi quando fechei os olhos, pronta.
Dessa vez… sem fugir.
E então—
Eu acordei.
Olhei para o teto do meu quarto, o silêncio, a respiração acelerada. E eu, sozinha.
Com o coração ainda disparado… e a sensação dele ainda viva demais pra ser só um sonho.
Levei a mão aos lábios.
Como se ainda pudesse sentir, como se aquilo tivesse sido real.
Mas não era, não podia ser.
Virei o rosto devagar… E congelei.
Porque, na porta…
encostado, me observando em silêncio…estava ele.
Gustavo.