A casa ficava no fim de uma rua esquecida, onde nem os cachorros latiam à noite. Diziam que já tinha pertencido a uma família grande… mas ninguém sabia explicar por que, de repente, ela ficou vazia.
Quando Júlia se mudou pra lá, achou que eram só histórias de gente supersticiosa. No primeiro dia, tudo parecia normal. Poeira acumulada, móveis antigos, o típico cheiro de lugar fechado. Mas tinha uma coisa estranha: uma das paredes do quarto principal parecia… oca.
Ela bateu com os dedos.
Tum… tum… tum…
O som ecoou diferente, como se tivesse algo escondido ali dentro.
— Deve ser cano — ela murmurou, tentando ignorar o arrepio.
Naquela noite, enquanto tentava dormir, ouviu um barulho baixo.
Ras… ras… ras…
Como unhas arranhando madeira.
Júlia sentou na cama, o coração acelerando.
— Tem rato aqui — disse, mais pra se convencer do que por acreditar.
Mas o som parou. De repente.
Como se tivesse percebido que ela estava ouvindo.
No dia seguinte, ela decidiu investigar. Pegou uma faca da cozinha e começou a forçar a madeira da parede. Depois de alguns minutos, um pedaço cedeu.
Atrás… não havia cano. Nem rato. Havia um espaço vazio. Escuro demais. E frio.
Um frio estranho, que não parecia natural.
Ela aproximou o rosto, tentando enxergar melhor.
— Tem alguém aí? — perguntou, meio rindo.
Silêncio.
Então… um sussurro.
Tão baixo que parecia estar dentro da cabeça dela.
— Agora… tem.
Júlia caiu pra trás, assustada, respirando rápido.
— Não… não tem ninguém aí… isso não faz sentido…
Ela fechou o buraco com pressa, empurrando o pedaço de madeira de volta, como se aquilo pudesse impedir o que quer que estivesse ali dentro.
Naquela noite, o barulho voltou. Mas não era mais um arranhão. Eram batidas.
Tum… tum… tum…
Exatamente no mesmo ritmo que ela tinha feito de manhã.
Júlia ficou paralisada na cama.
As batidas continuaram. Mais fortes. Mais rápidas. Até que… pararam. Silêncio absoluto.
Ela prendeu a respiração.
E então ouviu… do outro lado da parede… a própria voz dela.
— Tem alguém aí?
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
— Não… não… isso não…
E a resposta veio, exatamente como antes. Mas mais clara. Mais próxima.
— Agora… tem.
A parede estremeceu.
E lentamente… começou a rachar de dentro pra fora. Como se alguma coisa estivesse tentando sair.
Na manhã seguinte, os vizinhos disseram que ninguém viu Júlia sair de casa.
Mas juraram que, durante a madrugada, ouviram duas vozes no quarto.
Conversando. Rindo. Iguais.
Hoje, a casa continua vazia.
Mas quem passa perto, às vezes escuta…
batidas.
Tum… tum… tum…
E um sussurro curioso, vindo das paredes:
— Tem alguém aí?
Depois do desaparecimento de Júlia, a casa ficou vazia de novo. Ou, pelo menos… era o que todo mundo achava.
Algumas semanas depois, um homem chamado Renato apareceu na rua. Ele trabalhava consertando casas antigas e tinha sido contratado pra avaliar o lugar antes de colocarem à venda. Ele não acreditava nessas histórias.
— Casa não engole gente — disse, rindo, enquanto abria a porta.
O ar lá dentro era pesado. Não era só cheiro de mofo… era como se o lugar estivesse respirando lento demais.
Cada passo dele fazia o chão ranger.
Mas o que chamou atenção foi o quarto principal. A parede. Agora, ela estava rachada. De cima a baixo. Como se algo tivesse forçado a saída… por dentro.
Renato se aproximou. Passou a mão na rachadura. Frio. Muito frio.
— Deve ter vazamento — murmurou.
Então ele ouviu.
Tum… tum… tum…
Ele congelou.
O som vinha… de dentro da parede.
— Tem alguém aí? — perguntou, meio irritado.
Silêncio. Ele deu um passo pra trás.
E então… a parede respondeu. Com a voz dele.
— Tem alguém aí?
O corpo inteiro dele travou.
— Que brincadeira é essa?
E a voz respondeu de novo.
Mas agora, com um leve atraso… como um eco que aprende.
— …brincadeira é essa?
Renato saiu do quarto na hora. Mas não foi embora. Porque algo dentro dele dizia que aquilo tinha explicação. Tinha que ter.
Ele voltou à noite. Levou ferramentas. E uma lanterna. A rua estava silenciosa demais, como se ninguém quisesse testemunhar o que ia acontecer.
Dentro do quarto, ele não perdeu tempo.
Começou a quebrar a parede. Cada martelada ecoava fundo. Tum. Tum. Tum.
Até que… abriu.
Um buraco grande o suficiente pra ele ver lá dentro.
Não era só um espaço vazio. Era um corredor. Estreito. Escuro.
E fundo demais pra existir dentro daquela casa. Renato engoliu seco.
— Isso não é possível…
Mas mesmo assim, entrou.
O ar lá dentro era gelado… e úmido.
As paredes eram de madeira antiga, mas não pareciam construídas. Pareciam… crescidas. Como se a casa tivesse criado aquilo sozinha.
Ele caminhou devagar. A lanterna tremendo na mão. E então viu marcas nas paredes. Arranhões. Muitos. Alguns profundos. Outros… organizados. Como se alguém tivesse tentado escrever algo.
Ele aproximou a luz. E conseguiu ler, mesmo deformado:
“NÃO RESPONDE.”
Um arrepio subiu pela espinha dele.
— Quem escreveu isso…?
Silêncio.
Então… um passo. Atrás dele.
Ele virou rápido. Nada.
Mas o corredor… parecia menor. Mais apertado. Como se estivesse se fechando.
A lanterna piscou. E apagou. Escuridão total.
Renato tentou respirar devagar.
— Isso é só um lugar fechado… só isso…
Então ouviu. Respiração. Não era a dele. Era mais lenta. Mais pesada. Bem perto. No escuro. E então… a voz. A voz dele. Mas… errada. Mais arrastada. Mais profunda.
— …só isso…
Renato começou a andar pra trás.
Mas bateu em algo. Uma parede.
Ele virou, desesperado. A entrada… tinha sumido.
— NÃO!
O ar ficou mais frio. E a voz agora estava em vários lugares. Repetindo. Aprendendo. Misturando.
— tem alguém aí
— agora tem
— não responde
— fica aqui
Renato caiu de joelhos. Tapou os ouvidos.
— PARA!
Silêncio. Por um segundo. Dois. Três.
Então… um toque.
No ombro dele. Lento. Frio.
Ele não queria virar. Mas virou.
E viu. Algo. Com o rosto dele. Mas não era ele.
O sorriso era largo demais. Os olhos… vazios demais. A pele… como se tivesse sido puxada errado. E a coisa falou.
Com todas as vozes que já tinha ouvido.
Misturadas.
— Você respondeu.
A escuridão engoliu tudo.
Dias depois, os vizinhos viram alguém sair da casa. Era Renato. Ou parecia.
Ele sorriu, acenou, entrou no carro e foi embora.
Mas uma vizinha comentou depois:
— Engraçado… ele não piscava.
A casa continua lá. Mas agora… às vezes, dá pra ver luz lá dentro. E ouvir duas pessoas conversando. Ou três. Ou mais.
Todas com vozes conhecidas.
E se alguém curioso bater na porta…
às vezes ela abre sozinha.
E lá do fundo… vem a pergunta.
— Tem alguém aí?
E antes mesmo que a pessoa responda…
algo dentro da casa já sussurra:
— Agora… tem.