Eu fiz de tudo pra passar despercebida. Sério. Cabelo preso, olhar baixo, sempre no meu canto… invisível. Era assim que eu gostava. Era assim que funcionava.
Até ele aparecer. Lucas. O tipo de cara que não combina com silêncio. Alto, confiante… o tipo de pessoa que entra num lugar e todo mundo percebe. Menos eu. Ou pelo menos… era o que eu achava.
— Você sempre finge que não me vê?
A voz veio de repente, perto demais.
Levantei o olhar… e lá estava ele. Me encarando. Direto. Sem vergonha nenhuma.
— Talvez eu só não esteja interessada — respondi, tentando soar firme.
Erro. Ele sorriu. Aquele sorriso calmo… como se eu tivesse acabado de dizer exatamente o que ele esperava.
— Engraçado — ele disse, se aproximando um pouco — porque você olha pra mim quando acha que eu não tô vendo.
Meu coração travou. Droga.
— Você se acha demais — falei, desviando o olhar.
— E você mente mal.
Eu devia ter ido embora ali. Mas fiquei. Sempre fico.
Nos dias seguintes, ficou pior. Muito pior. Porque agora eu sabia que ele estava me observando. E ele sabia que eu sabia. E aquilo virou um jogo. Olhares rápidos. Silêncios longos.
Proximidade demais… e distância de propósito. Até que, uma noite… eu perdi.
A festa estava cheia, barulhenta… gente demais, luzes demais. Eu precisava sair dali. Aquilo não era pra uma garota como eu. Fui até o corredor lateral, tentando respirar… tentando recuperar o controle que eu claramente já tinha perdido há dias.
E então—
— Fugindo de novo?
Fechei os olhos por um segundo. Claro que era ele.
— Você me segue? — perguntei, sem virar.
— Não — ele respondeu, agora mais perto — você que sempre acaba onde eu tô.
Meu coração acelerou. E eu odiei o quanto aquela frase fez sentido.
Quando virei, foi rápido demais. E ele já estava perto. Perto o suficiente pra acabar com qualquer tentativa de parecer indiferente.
— Você gosta disso, não gosta? — ele disse, baixo — dessa tensão… desse quase…
Engoli seco.
— Você tá imaginando coisas.
Ele inclinou a cabeça. Se aproximando mais. Sempre mais.
— Então por que você não vai embora?
Silêncio. Porque, de novo… eu não fui.
Ele levantou a mão devagar. Não encostou. Só parou perto do meu rosto. Esperando. Como se estivesse me dando escolha. E isso foi o pior. Porque eu podia recuar. Mas não recuei.
— Você é um problema… — murmurei.
— E você gosta de problemas — ele respondeu.
E antes que eu conseguisse responder…
ele encurtou a distância.
O primeiro toque foi leve. Quase nada.
Mas foi o suficiente. Meu corpo inteiro reagiu como se já estivesse esperando por aquilo há muito tempo.
Minhas mãos encontraram a camisa dele sem pensar… segurando, puxando, como se eu não quisesse que ele fosse embora.
E talvez eu não quisesse mesmo.
O beijo veio logo depois. Intenso. Sem aviso. Sem calma. Como se aquele momento estivesse atrasado. Como se a gente tivesse passado tempo demais fingindo que não queria.
Minha mente gritava pra parar. Mas meu corpo… não obedecia.
— Isso tá errado… — sussurrei contra ele.
— Então para — ele respondeu.
Mas não se afastou. E eu também não.
Por um segundo, eu me afastei. Respirando rápido. Tentando pensar.
— A gente nem se conhece direito…
Ele deu um passo mais perto. De novo. Sempre de novo.
— Então me deixa conhecer.
Meu coração disparou. E naquele momento…
eu soube. Eu já tinha perdido.
Ele segurou meu queixo de leve, inclinando meu rosto. Devagar. Sem pressa. Como se quisesse que eu sentisse cada segundo.
— Última chance — ele disse — você vai fugir… ou vai ficar?
Minha respiração falhou. Fechei os olhos. E dessa vez… eu não fugi. Ele se aproximou. Mais. Mais. Até que—
— Ei, você tá me ouvindo?
Abri os olhos. Confusa. A sala de aula.
O professor falando. O barulho normal. Tudo… normal. Meu coração ainda acelerado. Minha respiração descompassada. Um sonho. Só podia ser.
— Você tá bem? — uma voz disse, ao meu lado.
Virei devagar. E congelei. Porque era ele. Lucas.
Sentado ao meu lado. Com o mesmo olhar. O mesmo sorriso leve. Como se soubesse.
— Então… — ele murmurou — você sempre sonha comigo… ou foi só hoje?