TRÊS PESOS… TRÊS MEDIDAS
“Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" — Jesus Cristo, Marcos 8:36
Não é a curiosidade que traz os homens até aqui; é o desespero. O desespero é um
combustível que queima a capacidade de raciocínio, deixando apenas a fome pelo
resultado imediato. Como um Escriba do Ocaso, posso afirmar tal sentença. Artur, a
infeliz alma do meu registro, não buscou entender a mecânica da balança. Ele apenas
precisava que o peso de sua dívida fosse removido.
A humanidade possui uma falha de design trágica: o homem comum crê, com uma fé
quase patológica, que o sofrimento é um estado temporário e que o destino pode ser
subornado. Eles não compreendem que o universo não é um juiz que pode ser
persuadido, mas uma engrenagem que apenas gira. O desejo humano é apenas um
ruído irrelevante que se dissipa na entropia do sistema. Artur, em sua miopia, acreditava
que estava fazendo um acordo; eu, no entanto, apenas registrei uma transação contábil.
Ele não percebeu que, ao oferecer três medidas de sua própria identidade para garantir
três vitórias, ele não estava ganhando o futuro; estava apenas acelerando o seu próprio
esvaziamento. A conta, como sempre, foi calculada com precisão absoluta.
Ele era apenas mais um viciado em busca de uma luz no fim do túnel, sem entender
que, no meu arquivo, o fim do túnel é apenas a parede de concreto onde os
desesperados inevitavelmente colidem.
Artur era um homem comum, sua existência tão mundana e simplória que se tornava invisível
aos olhos do mundo — até que o vício em apostas começou a erodir as bordas de sua
realidade, tornando-o, finalmente, um alvo.
Ele se entregou ao Jogo do Bicho, uma prática tão enraizada na malha urbana quanto o esgoto
que corre sob as calçadas.
Era um sistema de simplicidade perversa: vinte e cinco animais, cada um associado a quatro
dezenas consecutivas, em uma escala de zero a noventa e nove. A promessa era matemática,
mas a execução era um exercício de humilhação. Artur passava horas fitando os cadernos de
resultados, buscando padrões no caos dos sorteios, acreditando que o Avestruz, a Borboleta
ou o Leão poderiam, em um golpe de sorte, reverter o curso de sua ruína financeira que sedia
a cada dia. Ele não apostava apenas dinheiro; ele apostava a crença de que a sorte ainda
possuía um endereço na sua vida.
Contudo, o sistema é desenhado para que a vitória seja apenas o isco que mantém o viciado
preso ao anzol. Artur ganhava o suficiente para continuar perdendo, e perdia o suficiente para
desejar que o próximo sorteio fosse a sua salvação. O processo de erosão de sua vida foi
sistêmico e implacável. Primeiro, a família — a esposa e o filho — afastou-se diante da
decomposição moral do marido e pai; eles não foram uma aposta direta, mas foram o saldo
final da falência de seu caráter. Enquanto observava o vazio que deixaram, Artur repetia para si mesmo, como um mantra vazio: Eu vou mudar o jogo, vou recuperá-los, vou jogar na cara
deles.
Foi uma prece vã. Em seguida, perdeu o emprego e, consequentemente, a dignidade. Artur
tornou-se uma bola de neve, ganhando massa e velocidade enquanto rolava de um pico de
esperança para o pé de uma montanha de ruínas. Sua mente, outrora racional, fragmentou-se;
cada sonho noturno era traduzido em animais e dezenas, num delírio que consumia o que
ainda lhe restava de sanidade. O dinheiro do empréstimo bancário evaporou-se em segundos,
forçando-o a buscar crédito no mercado cinza — o território dos agiotas, homens que não
negociam, apenas cobram.
A dinâmica com esses credores seguiu uma sequência previsível. Após duas cobranças que
Artur interpretou como benevolência, a terceira etapa da transação foi marcada pela violência
física. Humilhado no asfalto, Artur assistiu à apropriação de seu único ativo restante: a chave
do carro, que seria o último recurso para cobrir suas dívidas. O agiota foi sucinto, deixando
clara a métrica daquela negociação: Hoje, eu levo seu carro; na próxima, ou levo o dinheiro, ou
levo a sua vida.
A ameaça de morte não era um conceito abstrato; era um prazo de validade estampado na
testa de Artur. Ele buscou refúgio em um bar de categoria infame, um desses lugares onde a
luz nunca parece alcançar os cantos e o ar é denso como poeira de carvão. Ele bebia o que lhe
era permitido, acumulando uma conta que não tinha esperanças de quitar, valendo-se da
benevolência preguiçosa de um dono de bar que já não esperava pagamento algum de
ninguém ali. Artur tremia, o vício em apostas agora substituído pelo tremor da abstinência de
sorte.
Ele estava absorto em suas contas mentais, tentando converter o preço do álcool barata em
alguma probabilidade matemática, quando um homem se sentou ao seu lado. Não havia nada
de extraordinário em sua aparência — nada de enxofre ou chifres. Ele era um homem de uma
neutralidade impecável, como uma página em branco antes da escrita da sentença. Sem dizer
uma palavra, ele deslizou uma nota sobre o balcão, cobrindo o débito de Artur e solicitando
uma dose dupla para o arruinado.
O fim do prazo está próximo, Artur, pensou o homem, embora sua voz tenha permanecido
presa em um silêncio absoluto. O agiota quer sua vida, mas o universo aceita formas de
pagamento muito mais interessantes.
Artur olhou para o copo, depois para o estranho, sentindo uma vertigem que não vinha do
álcool, mas da predação. Aquele homem não estava ali para salvar o viciado; ele estava ali
para coletar a dívida que a humanidade sempre esquece de incluir no inventário.
Artur não possuía a resposta lógica para a origem daquele sujeito, mas sua biologia a detinha.
Cada célula do seu corpo vibrava com um alerta primitivo: aquele cavalheiro jamais percorrera
o mesmo ciclo de vida que os homens. A reação foi instintiva, um espasmo, o sinal da cruz
traçado com dedos trêmulos em busca de uma proteção que ele, há muito tempo, havia
abandonado em algum lugar entre as mesas de apostas e as dívidas impagáveis.
A vida é, de fato, um espetáculo curioso, registro eu, enquanto observo a cena. Quando
os desesperados ponderam sobre a natureza do mal, o imaginário popular ancora-se
em clichês: chifres, enxofre, patas de bode e peles escarlates. Mas a realidade é muito mais sóbria. Como registrou o apóstolo Paulo em sua segunda carta aos Coríntios,
capítulo 11, versículo 14: "Isso não é de admirar, pois o próprio Satanás se disfarça de
anjo de luz." Nunca vi tal afirmação ser mais precisa do que agora, observando este
sujeito.
Ele trajava roupas casuais, desprovidas de qualquer ostentação, mas a sua presença era
opressiva. Era uma autoridade que não precisava de gritos ou títulos; era imperativa, pesando
sobre o ar do bar como uma pressão barométrica prestes a destruir tudo o que estivesse ao
redor. Ele não parecia um invasor; parecia o dono do estabelecimento, da cidade, e talvez da
própria montanha de ruínas onde Artur tentava se equilibrar.
A atmosfera do bar, antes saturada pelo murmúrio banal de bêbados e o tilintar de garrafas,
sofreu um colapso repentino. O silêncio que se instalou não foi uma ausência de som, mas
uma imposição. O mundo lá fora, a rua, o movimento da cidade, pareceu ser subtraído da
existência, deixando apenas aquele balcão como o centro estático do universo.
O homem ajustou o colarinho da camisa casual. Seus movimentos eram econômicos,
desprovidos de qualquer hesitação. — Pode me chamar de Belchior — disse ele, com uma voz que possuía a textura aveludada de
um convite irrecusável.
Artur sentiu a garganta secar. O ar parecia rarefeito. Belchior começou a falar sobre a vida de
Artur, mas não como alguém que se informa, e sim como alguém que escreve o roteiro. Ele
narrou o fracasso escolar do filho, a amargura da esposa na última noite antes de partir, e o
valor exato, até o último centavo, das dívidas que Artur acumulava com os agiotas. Cada
palavra de Belchior era uma incisão precisa na couraça de negação que o viciado construíra. — Você não busca o dinheiro, Artur. Dinheiro é apenas um conceito volátil. Você busca o
esquecimento da sua própria insignificância — comentou Belchior, observando o reflexo de
Artur no balcão de madeira gasta. — E essa sua pressa... esse desespero em recuperar o que
já não existe. É fascinante quão rápido você se desfez.
Artur estava pasmo, paralisado. Como poderia um desconhecido ter acesso às entranhas de
sua ruína? O medo, que antes era uma reação física, tornou-se uma certeza existencial. — Eu não vim aqui por caridade — continuou Belchior, inclinando-se levemente, o que fez a
pressão sobre o peito de Artur aumentar. — Vim porque entendo a sua necessidade. A sua
dívida física com aqueles homens é trivial, mas a sua dívida com a realidade é absoluta. Eu
tenho um método para que você recupere tudo, vitória após vitória. Não há risco de erro. É uma
questão de medida.
Belchior deslizou um guardanapo de papel sobre o balcão. Estava em branco, exceto por uma
linha fina que o dividia ao meio. — Tá, então quer dizer que estou tão fodido que o próprio diabo veio me consolar... — Ele
disse, ironizando a vida decadente con o álcool ajudando a sua indagação sem filtros.
Belchior riu — Eu lhe garanto três vitórias definitivas. Você não perderá mais nenhum jogo. Em
troca, a balança requer uma compensação equivalente. A cada vitória, eu retiro uma medida do
que faz de você, você. Uma memória, uma capacidade, uma faceta da sua alma. Três vitórias
para restaurar o seu prestígio, três partes de você para alimentar a engrenagem. O que me
diz? A sua vida como ela é hoje, ou o poder de reescrever a sua sorte?
O silêncio do bar tornou-se insuportável, um peso que ameaçava esmagar o crânio de Artur.
Ele olhou para o guardanapo, para a mão de Belchior, e, pela primeira vez, entendeu que a sua
vontade nunca fora, de fato, sua. — Então... basicamente, você me dará três vitórias em troca de eu te dar três nomes? — a voz
de Artur era um fio tenso, uma oscilação entre a incredulidade e a cobiça. — Exatamente — respondeu Belchior, mantendo um sorriso fixo, uma geometria perfeita que
não chegava aos olhos. — A única condição é que não seja o seu próprio nome. — Mas... isso é o acordo mais idiota que já vi... — a coragem de Artur, infundida pelo álcool
barato, tentava em vão mascarar o tremor de suas mãos.
Belchior inclinou-se, sua presença expandindo-se como uma sombra que devora a luz do
ambiente. — Ora, senhor Artur, é uma chance de ouro, não acha? Três vitórias em troca de três
nomes... isso não lhe parece magnífico?
Artur vacilou, o cinismo sendo sua última linha de defesa. — Eu não sei. Quando a esmola é
demais, até o santo desconfia.
Belchior não insistiu. Ele se levantou com uma elegância que parecia deslocada naquela
imundície, ajustando o paletó. — Peço perdão por atrapalhar o seu tempo. Tenha uma boa
noite.
A frieza da partida foi o gatilho final. O medo da realidade — o agiota, a dívida, o vazio —
voltou a ser uma pressão física insuportável. Artur não suportou a possibilidade da porta se
fechar. — Espere! — Artur quase gritou, a palavra rompendo o silêncio opressivo do bar.
O cavalheiro parou, as costas voltadas para o viciado. Artur não pôde ver, mas o sorriso —
aquele sorriso arquitetado muito antes daquela noite — esticou-se em seu rosto, uma curva de
satisfação absoluta. O contrato, ainda que não assinado com tinta, estava selado pelo
desespero. O jogo, agora, possuía novas regras.
O cavalheiro retornou ao banco com a fluidez de um predador que não precisa se apressar.
Artur, a respiração entrecortada pelo desespero, buscava entender a mecânica daquela
transação absurda. — Então, como é isso? Você me dá três nomes de animais e em troca te dou três nomes
aleatórios, é isso? — Excelente perspicácia, senhor Artur, é exatamente isso! — respondeu o estranho, o tom de
voz tão aveludado quanto o veludo de um caixão.
Artur processou a proposta através do filtro da ruína. O que eram três nomes diante da
iminência da destruição? — Tá... Tá bom, eu aceito. Como é, tenho que vender minha alma ou algo assim? Fazer um
pacto de sangue? — Ah, Artur, claro que não — retrucou o cavalheiro, com uma condescendência estudada. —
Só precisamos formalizar um aperto de mão. Afinal, qual é a forma mais perfeita de fechar um
negócio? Simplesmente lhe dou três animais, você me dá três nomes, e o acordo está selado. — E se eu ouvir os nomes e simplesmente não fechar o trato? — Artur tentou, pela última vez,
exercer a astúcia de um homem que já perdera tudo. — Ah, meu querido, não é assim que funciona. Quando o pacto for verbalizado, ele já terá se
tornado a sua realidade.
Artur não pensou no custo, pensou apenas na saída. — Tudo bem, vamos fazer isso logo! — Ótimo — o homem inclinou-se, os olhos brilhando com uma antecipação cirúrgica,
levemente brilhantes como os olhos d dum felino sob a luz de uma lanterna. — Preste bem
atenção. Os animais são: Cobra, Cachorro e Borboleta. A vitória será definitiva; aposte o
máximo que puder, e será recompensado. Agora... os seus três nomes, por gentileza.
Sob o torpor do álcool e a névoa do desespero, Artur pronunciou três nomes aleatórios. Não
lhe importava o que dizia; o seu único desejo era que a engrenagem do Jogo do Bicho voltasse
a girar a seu favor. O estranho sorriu, uma expressão de sucesso absoluto, e estendeu a mão
direita. Artur notou o relógio de ouro em seu pulso — um objeto cujo valor eclipsava toda a sua
vida pregressa. Ele hesitou por uma fração de segundo, mas o desespero é um motor que não
admite paradas. Apertou a mão do cavalheiro. A sensação foi a de tocar algo que não pertencia
à escala térmica dos vivos: um frio absoluto, uma pressão de ferro. — Foi um prazer fazer negócios com o senhor, senhor Artur — disse o cavalheiro, soltando a
mão de Artur. — Aproveite sua segunda chance de vida. — Pera aí, sou burro, mas sei que você sempre tem uma cobrança de débito!
O cavalheiro parou, explicou calmamente:
Ah, Artur... Eu sou generoso, não um trapaceiro. O senhor só terá o débito cobrado sob a luz
do luar, em um lugar onde o nome da rua não pudesse ser lido nem por homens, nem por
deuses, por algo que não tem mais nada a perder...
Artur fez pouco caso, rindo daquele exagero poético.
O homem se retirou, deixando atrás de si apenas o vazio de uma promessa que, Artur logo
descobriria, tinha um preço escondido nas entrelinhas da própria identidade, ou mesmo tempo
que pensava no débito, uma condição tão ridícula que em outras palavras xdus vida estaria
feita de o pacto realmente fosse real. — Que coisa idiota... — pensou a respeito do débito.
O Pacto: O acordo foi selado não por sangue, mas por troca. Artur ofereceu "três
nomes" em troca de três vitórias. Ele simplesmente não compreendeu que, para o
cavalheiro , um nome não é apenas uma palavra; é o selo de uma existência.
Eu apenas observava, distante, neutro, não é meu trabalho intervir, seja algo ruim, algo
bom... O que foi definido a mim é somente o registro, e faço isso com maestria. Artur via
dua vida mudando, mas afinal... O sistema precisa que o indivíduo acredite plenamente
na própria onipotência antes de exigir o pagamento final, ele precisa acreditar que foi
um acordo idiota e que ele se deu bem por algo tão banal.
Artur retornou para casa envolto em um entorpecimento etílico, agarrando-se à ilusão de que o
álcool fora o único ganho daquela noite. Mas a mente, purgada do raciocínio lógico pelo
desespero, começou a maquinar. Ele sabia onde o próximo ciclo de sorte giraria: uma boate de
grande porte, um antro de apostas de alto volume.
Eu, por vezes, reflito sobre a natureza da audácia humana, registro eu, observando a
trajetória do sujeito. Como um homem que já habita o fundo do poço encontra
combustível para descer ainda mais? Devo admitir: é necessária uma forma peculiar de coragem, ou talvez de loucura, para abraçar o abismo com tanta convicção.
Dois dias se passaram. Artur preparou-se como se fosse a um julgamento, vestindo suas
melhores roupas para ocultar a miséria que ainda lhe habitava a alma. Seu coração era um
tambor ensandecido, o sangue latejando nas têmporas. Na modalidade "Corujinha", o
fechamento dos desesperados, ele se apresentou. Suas pernas traíam a firmeza que a voz
tentava simular. — Cachorro. Aposto o máximo disponível. — ele sentenciou.
Já sou um homem morto mesmo, que diferença fará?, pensou, enquanto os organizadores
hesitavam, pesando a infâmia de sua má sorte crônica contra o volume do capital apresentado.
Mas no fim, aceitaram. Artur retirou-se sem olhar para trás, certo de que aquela era sua última
dança, sua última ação antes de finalmente ser comido pela terra.
Quando o telefone tocou no sábado, o pânico foi a primeira reação. — "Alô, Artur?" — "A. Alô, isso mesmo, com quem eu falo?" — sua voz tremia, a sensação direta de que seria
a última ameaça antes do fim. — "Aqui é o Willian, um dos organizadores do Jogo do Bicho lá na Boate Sunset". — "Ah".... — Artur travou uns segundos antes de perguntar — "A-alguma boa notícia?" +
A voz de Willian ecoou como um veredito. A vitória havia chegado. — "Você venceu o prêmio máximo meu rapaz! Me informe os dados da sua conta para que eu
possa fazer a transferência." — "Sim, sim! Um momento!" — Artur estava afoito com aquela notícia, passou os dados da
conta bancária, e em poucos minutos, o TED caiu.
Artur pulava de alegria, estava atônito — era uma sequência de zeros que estancou a
hemorragia das dívidas bancárias e silenciou, momentaneamente, a ameaça dos agiotas.
A euforia foi o primeiro estágio da infecção. — Ainda faltam dois nomes — ele murmurou, e a ganância, como um câncer metastático,
ocupou o espaço que antes era do alívio.
Ele mirou em um local maior ainda, afinal: mais pessoas, mais apostas, mais dinheiro.
Apostou o segundo nome: Borboleta. Mais uma vez, apostando todo o teto disponível que ele
tinha e que não tinha.
A vitória repetiu-se com uma precisão matemática perturbadora. O novo depósito, ainda mais
volumoso, foi o gatilho da transformação externa. Artur não apenas pagou suas dívidas; ele
ascendeu. Casa nova, carro de luxo, vestimentas que exigiam respeito e a embriaguez do
poder. Ele vivia agora como um monarca em um reinado erguido sobre uma fundação que ele
próprio não sabia que estava desmoronando, festas, sexo, mulheres, carros, até mesmo
contatos importantes.
Apenas observa que a erosão não é apenas financeira ou social; é biológica. O preço começa
a ser cobrado na estrutura da própria cognição de Artur. O que ele justifica como um "pequeno
esquecimento" é, na verdade, a fundação de sua identidade sendo desmantelada tijolo por
tijolo.
A decadência começou de forma sutil, quase despercebida. Em um dia qualquer, Artur sentiu o
impulso de visitar um lugar que lhe era familiar, um refúgio de sua vida pregressa. Contudo, ao tentar evocar o nome do local, encontrou apenas um borrão. Por mais que se esforçasse, a
palavra permanecia inacessível, o local, borrado. Em um momento de desespero, solicitou que
alguém lhe dissesse o nome, dando pistas sobre o ambiente, mas quando a pessoa pronunciou
a palavra, o som saiu de tal forma distorcido que sua mente foi incapaz de processar o
significado. Foi então que o padrão se tornou evidente: para cada vitória, uma parcela de sua
identidade era confiscada.
Apesar da clareza da perda, Artur manteve sua apatia. O que é esquecer algumas coisas
quando se tem dinheiro para dar e vender?, pensou, reduzindo sua essência a um saldo
bancário.
Chegou o momento final. Sua última aposta. Desta vez, a consciência — ou talvez o que
restava do instinto de sobrevivência — falou mais alto. — Certo... Tenho mais um nome. Só vou apostar este e finalmente largar essa vida. Após esta
vitória, minha vida será mais que confortável até a morte.
Ele prometeu a si mesmo que aquele seria o último ato. No dia agendado, Artur dirigiu-se a
uma área de grande concentração, focando no prêmio máximo possível. Com a confiança de
quem ainda não percebeu que a engrenagem já havia parado de girar a seu favor, ele declarou
o último nome: Cobra.
Não desejava permanecer naquele ambiente. Imediatamente após a aposta, decidiu retirar-se,
sabendo que a vitória estava garantida. Seu carro estava estacionado do outro lado da via, e
um beco estreito, encravado entre dois edifícios, oferecia um atalho que cortava o caminho
pela metade. Sem hesitar, Artur embrenhou-se na escuridão do beco.
O esquecimento do nome do lugar é o prelúdio da anulação, especulo eu. Artur está trocando
o seu "eu" por dígitos em uma tela. Ele acredita que o jogo está prestes a terminar, sem
perceber que o credor nunca encerra o contrato antes de coletar o principal.
A cena no beco ,só posso dizer que não foi um crime de oportunidade; foi a conclusão
lógica de uma contabilidade que Artur nunca teve a capacidade de compreender.
Ao entrar no beco, a escuridão não estava vazia; ela possuía forma e intenção. Um
homem de feições cadavéricas, o rosto fundido pela química que lhe queimava o
sistema nervoso, bloqueou sua passagem. Uma faca de cozinha, longa e
desproporcional, surgiu como um dente de metal contra o peito de Artur.
— A sua carteira! Rápido, caralho! — a voz do agressor era um guincho de desespero.
Artur, paralisado pelo pânico, entregou o objeto com mãos que mal obedeciam aos comandos
cerebrais. A frase que tentou proferir — A-aqui, por favor, não me... — morreu no ar, vazia
como um arquivo corrompido, como uma palavra que o próprio universo apagou do dicionário
antes mesmo de ser pronunciada. O agressor não esperou; arrancou a carteira e, em um
movimento espasmódico, cravou a lâmina profundamente em seu abdômen. A vida de Artur
começou a vazar, quente e irrecuperável, sobre o concreto imundo, enquanto o assassino
corria sem olhar pra trás.
No desespero final, ele tentou o auxílio da civilização. O 190. Sua mão esvaindo as forças ao
segurar seu celular. — "S-Socorro! Eu fui esfaqueado! Estou... estou grave! Preciso de ajuda imediatamente!"
Do outro lado, a voz feminina seguia a coreografia robótica dos protocolos. Quando lhe foi
pedido o nome, o pânico travou suas sinapses. Quando lhe foi pedido o local, o horror se
tornou absoluto. Artur tentou forçar sua mente, mas a informação era apenas uma névoa
estática. Ao olhar para a placa verde na esquina, a revelação foi o golpe final: o nome da rua
estava ilegível, não por falta de luz, mas porque a própria palavra havia sido extraída de seu
inventário mental. Era o terceiro nome. A Cobra. A rua, o nome, a sua própria referência de
existência, haviam sido consumidos.
O celular tombou de sua mão. A escuridão do beco fundiu-se com a sua própria visão. Foi
então que os passos lentos, ritmados por uma elegância que não pertencia àquele cenário de
miséria, pararam ao seu lado. Uma figura se agachou, e o rosto do cavalheiro surgiu,
observando a agonia com uma curiosidade cirúrgica. — Você... V-você... me enganou... — sibilou Artur, o sangue borbulhando em seus lábios.
O cavalheiro inclinou a cabeça, mantendo aquele sorriso fixo que, agora, parecia a única coisa
sólida naquele mundo em dissolução. — Ah, senhor Artur... Eu não fiz nada. O senhor aceitou o acordo perfeitamente. Mas aqui vai
uma dica valiosa: sempre leia as letras miúdas. O senhor estava tão desesperado que sequer
parou para consultar o contrato. Eu não posso fazer nada... O senhor aceitou, o trato foi feito. — Mas... A cobrança... Houve um engano... Eu exijo um julgamento! — Ah, Artur... Não houve engano. O senhor apenas não levou a sério a cláusula de execução.
Quando apertamos as mãos, eu estipulei que a cobrança só ocorreria quando o senhor
estivesse sob a luz do luar, em um lugar onde o nome da rua não pudesse ser lido nem por
homens, nem por deuses por algo sem nada a perder. Parecia uma impossibilidade poética,
não é? Um cenário impossível de encontrar, e o que o senhor fez? Ridicularizou...
O cavalheiro levantou-se, afastando-se sem pressa, enquanto a luz de Artur se extinguia sob o
peso da dívida finalmente quitada. Mãos surgiram do solo, mãos grotescas agarrando o corpo
quase sem vida de Artur. Mas não puxou deu corpo, e sim, a alma... O grito de agonia do
homem era de gravar por semanas no cérebro causando pesadelo. Até que finalmente,
acabou. Seu brilho nos olhos ficaram foscos, o débito foi cobrado.
A história, quando vista do meu arquivo, não é uma sucessão de eventos aleatórios,
mas um jogo de espelhos onde o homem, em sua miopia, confunde a própria trajetória
com o livre-arbítrio. Artur acreditou que estava jogando contra o sistema, sem perceber
que ele próprio era a engrenagem que mantinha o mecanismo funcionando. O fim, para
aqueles como ele, não é um acidente de percurso; é a conclusão aritmética de uma
equação que ele começou a escrever no momento em que decidiu que a sua dignidade
tinha um preço de mercado.
A vida humana é uma narrativa construída sobre o medo da escassez, uma tentativa
frenética de preencher o vazio com símbolos, nomes e moedas. E, contudo, é irônico
observar como a mesma mão que agarra a vitória é a mão que, inadvertidamente, puxa
o gatilho da própria autodestruição. Ao final de todas as transações, sob a luz fria do
que resta da consciência, compreende-se a verdade absoluta que os desesperados
ignoram até o último suspiro: a ganância que te move é a mesma que te condena...