O zumbido constante das turbinas do Boeing 737 funcionava como uma canção de ninar irritante. Mathew encostou a testa contra a janela oval e fria, observando o mar de nuvens brancas lá fora. Ele odiava despedidas. Passar as férias na casa do pai era sempre uma transição barulhenta, cheia de cobranças e jantares desajeitados com uma nova madrasta. Agora, ele estava finalmente voltando para casa, para os braços acolhedores de sua mãe, Ravery. Tudo o que ele queria era enfiar os fones de ouvido, ignorar o resto do mundo e apagar até o pouso.
Mas o universo parecia ter outros planos para aquela viagem de duas horas.
O assento ao seu lado, o 12B, permanecera vazio durante quase todo o processo de embarque. Mathew já estava se parabenizando mentalmente pelo espaço extra quando a sombra de um homem bloqueou a luz do corredor.
— Licença — uma voz grave, aveludada e absurdamente firme ressoou acima dele.
Mathew piscou, recolhendo as pernas instintivamente enquanto o desconhecido se acomodava. No segundo em que o homem se sentou, o espaço na fileira pareceu encolher drasticamente. Ele exalava um perfume importado marcante, uma mistura amadeirada de couro e sândalo que invadiu o olfato de Mathew instantaneamente.
Disfarçadamente, Mathew virou o rosto na direção do homem, fingindo ajustar o cinto de segurança. Seus olhos começaram uma varredura involuntária, reparando em cada detalhe de cima a baixo. O homem era uma obra de arte perigosa. Tinha cabelos pretos perfeitamente alinhados, um maxilar marcado coberto por uma barba rala e bem aparada, e lábios finos que pareciam esculpidos em mármore. Ele vestia uma camisa social preta, com os primeiros botões abertos, revelando uma clavícula marcada e o início de um peito definido. As mangas estavam dobradas até os antebraços, expondo veias saltadas e uma musculatura imponente que indicava que ele não era apenas forte, mas alguém que gostava de impor respeito pela presença física.
Os olhos de Mathew continuaram descendo pela calça de alfaiataria escura, que se ajustava perfeitamente às coxas grossas do homem. E foi ali, na junção das pernas cruzadas do desconhecido, que o olhar de Mathew travou. O tecido tenso marcava um volume anatômico impressionante e intimidador, mesmo na posição de descanso. Um calor súbito subiu pelo pescoço de Mathew. Ele engoliu em seco, sentindo a própria boca secar. Quem diabos era aquele cara? E por que o simples ato de sentar ao lado dele estava fazendo o coração de Mathew martelar contra o peito daquela forma?
O homem, sem desviar os olhos do tablet que segurava com as mãos grandes e dedos longos, deu um meio sorriso quase imperceptível. Uma reação fria, de quem sabia exatamente o efeito que causava nas pessoas ao redor.
Zonzo com a própria audácia, Mathew virou o rosto rapidamente para a janela, sentindo as bochechas arderem. Ele colocou os fones de ouvido no volume máximo, fechou os olhos e tentou respirar fundo para afastar aqueles pensamentos absurdos. Ele nem conhecia o cara. Mas o perfume amadeirado continuava ali, cercando seus sentidos. Entre o cansaço do voo e a adrenalina inexplicável, a mente de Mathew começou a flutuar, caindo em um sono profundo e pesado.
No mundo dos sonhos, o ambiente do avião desapareceu, dando lugar a uma sala escura, iluminada apenas por uma luz vermelha difusa. Mathew estava preso. Seus pulsos pareciam amarrados a uma cabeceira de cama alta, e a sensação de impotência misturava medo e uma excitação avassaladora que ele nunca havia sentido antes.
Passos ecoaram pelo chão de madeira. Da penumbra, a silhueta do homem do avião emergiu. Ele não usava a camisa social; seu peito estava nu, revelando uma musculatura rígida e cicatrizes leves que pareciam contar histórias de noites intensas. Seus olhos não eram comuns; eram duas fendas escuras, frias e carregadas de um instinto predador que fez o corpo de Mathew arrepiar por inteiro.
— Você gosta de olhar, não é? — a voz do homem ecoou no sonho, sussurrada bem perto do ouvido de Mathew.
A mão grande e áspera do desconhecido desceu pelo pescoço de Mathew, apertando o lugar com força suficiente para tirar o seu fôlego, mas não para machucar. Era um aperto possessivo, um comando implícito de submissão. Mathew tentou se mover, mas o homem usou o próprio corpo para prendê-lo contra o colchão. O volume que Mathew havia encarado acordado agora pressionava contra sua coxa, quente e rígido.
O desconhecido sorriu de forma sádica, deliciando-se com o pânico e o desejo que emanavam de Mathew. Ele ergueu um chicote de tiras de couro macio, deslizando a ponta fria pelo abdômen de Mathew, descendo lentamente até a linha da calça.
— Eu vou te ensinar a não encarar o que não pode controlar — o homem ditou, a voz rouca cheia de uma autoridade sombria.
Mathew soltou um gemido sôfrego, o corpo inteiro arqueando em uma necessidade desesperada de ser tocado, de ser dominado por aquela força implacável...
O avião deu um solavanco violento quando os pneus tocaram a pista de pouso.
Mathew deu um pulo na poltrona, abrindo os olhos arregalados, o coração batendo na garganta. Ele estava arfando levemente, a testa coberta por uma fina camada de suor. Demorou alguns segundos para perceber que o pescoço dolorido era apenas o resultado de ter dormido de mau jeito contra a janela, e não dos dedos fortes do homem do seu sonho.
Olhou para o lado imediatamente. A poltrona 12B estava vazia. O tablet não estava mais lá. O homem já havia se levantado e estava no corredor, de costas, pegando uma mala de mão preta no compartimento superior. A postura imponente continuava a mesma.
Mathew levou a mão à testa, sentindo uma vergonha monumental. Meu Deus, eu tive um sonho erótico com um estranho no avião, pensou, cobrindo o rosto com as mãos. Ele esperou que o homem se afastasse pelo corredor antes de ter coragem de se levantar. Ele precisava esquecer aquilo o mais rápido possível. Era apenas uma fantasia boba de viagem.
Uma hora depois, o táxi estacionou em frente à casa de sua mãe. O bairro residencial era calmo, exatamente como Mathew se lembrava. Pegando sua mala, ele caminhou até a varanda e respirou o ar familiar. Antes mesmo que pudesse pegar a chave no bolso, a porta se abriu.
— Mathew! Meu filho! — Ravery surgiu com um sorriso radiante.
Sua mãe parecia mais jovem e feliz do que nunca. Os cabelos castanhos estavam bem arrumados e ela usava um vestido elegante, como se estivesse esperando uma ocasião especial. Ela o envolveu em um abraço apertado, com aquele cheiro de lavanda e bolo caseiro que sempre acalmava Mathew.
— Oi, mãe! Que saudade — Mathew sorriu, retribuindo o abraço com força.
— Entra, entra! Me conta como foi a viagem. Seu pai te alimentou direito? Você parece mais magro! — Ela o puxou para a sala de estar, que estava impecavelmente limpa e decorada com flores frescas.
— Foi tudo bem, mãe. O de sempre. Mas eu trouxe uma coisa para você — Mathew abriu a mochila e tirou uma caixinha embrulhada em papel de seda azul. — Um perfume artesanal daquela cidadezinha que você queria conhecer.
Ravery levou as mãos à boca, os olhos brilhando. — Ah, meu amor! Você lembrou! Muito obrigada, é lindo! — Ela o abraçou de novo, enchendo seu rosto de beijos. — Olha, o dia hoje está perfeito. Eu tenho uma surpresa para você também. Uma pessoa muito importante vai vir jantar com a gente. Eu finalmente vou te apresentar o...
Trimmm...
O som agudo da campainha interrompeu a fala de Ravery. O coração de Mathew, por algum motivo inexplicável, deu uma pequena falha.
— Deve ser ele! — Ravery deu um pulinho de animação, ajeitando o vestido. — Filho, faz as honras para a mamãe? Abre a porta enquanto eu coloco o perfume na cômoda.
— Claro, mãe — Mathew sorriu, deixando a mala no canto da sala.
Ele caminhou até a entrada, sem imaginar o que o esperava. Segurou a maçaneta de metal, girou-a e puxou a porta para trás.
O sorriso de Mathew congelou nos lábios. O ar sumiu de seus pulmões instantaneamente. Parado na varanda, sob a luz do fim de tarde, estava o homem da poltrona 12B. Devile.
Ele estava sem o paletó, vestindo apenas a mesma camisa social preta do voo, com as mangas dobradas, revelando os braços fortes que, no sonho de Mathew, o prendiam contra a cama. O perfume de couro e sândalo invadiu o ambiente, atingindo Mathew como um soco no estômago.
Mathew deu um passo para trás, os olhos arregalados, a voz saindo em um sussurro chocado:
— Você?!
Devile ergueu uma sobrancelha. Seus olhos escuros e analíticos percorreram o corpo de Mathew de cima a baixo com uma lentidão calculada, fixando-se por um segundo a mais nos lábios trêmulos do garoto. Um brilho divertido e perigosamente sádico passou por suas pupilas.
— Eu te conheço? — Devile perguntou, a voz grave e perfeitamente controlada, exatamente como na aeronave.
— O que... o que você está fazendo na minha casa? — Mathew gaguejou, sentindo o suor frio do sonho voltar a brotar em sua pele. A presença daquele homem ali parecia uma alucinação.Antes que Devile pudesse responder, a voz de Ravery ecoou animada do corredor dos quartos, quebrando o silêncio tenso:
— Pode entrar, amor! Filho, deixa ele passar! Esse é o Devile, o meu namorado!
O mundo de Mathew girou. As palavras da mãe ecoaram em sua mente como um eco infinito, misturando-se com as memórias nítidas, quentes e proibidas do chicote de couro e do toque dominador em seu pescoço.
Eu acabei de ter um sonho erótico com o namorado da minha mãe.
Fimm...
Vocês acham que eu devo continuar essa história??