Há alguns anos atrás, eu gostava de um garoto que se chama Gustavo.
Mas quando eu digo Godoy, parece que fica mais… perigoso.
Eu não sei exatamente quando comecei a notar ele daquele jeito. Só sei que, de repente, qualquer coisa que ele fazia parecia chamar minha atenção.
O jeito que ele encostava na carteira…
O olhar demorado…
O sorriso de canto, como se estivesse sempre escondendo alguma intenção.
E o pior?
Ele sabia.
Eu descobri isso no dia em que tudo mudou.
Tava calor, e mesmo assim eu tava de moletom. Mais por costume… e talvez um pouco por proteção.
Saí da sala depois da última aula, achando que o corredor já estaria vazio.
Erro meu.
— Tutty.
Só de ouvir, meu corpo reagiu.
Virei devagar… e lá estava ele. Encostado na parede, como se já estivesse me esperando.
— Você tá me evitando — ele disse, direto.
— Impressão sua, Godoy.
Mentira.
Ele deu um sorriso lento… e veio andando na minha direção.
Cada passo parecia calculado.
Eu deveria ter saído dali.
Mas não saí.
Quando percebi, ele já tava perto demais.
Perto o suficiente pra eu sentir o calor dele.
Perto o suficiente pra eu perder completamente o controle da situação.
— Engraçado… — ele murmurou, inclinando levemente o rosto — porque quando eu chego assim… você nem respira direito.
E ele tava certo.
Meu coração tava acelerado num nível absurdo.
— Talvez seja você que chega perto demais — respondi, tentando provocar de volta.
Ele soltou uma risada baixa.
— Então me afasta.
Silêncio.
Eu não me mexi.
Nem um centímetro.
O olhar dele desceu por um segundo… e voltou pros meus olhos. Mais intenso.
Mais… decidido.
Godoy levantou a mão devagar.
Dessa vez, ele não parou.
Os dedos dele tocaram levemente meu queixo, levantando meu rosto só o suficiente pra me fazer encarar ele completamente.
Aquilo foi como um choque.
Meu corpo inteiro reagiu.
— Tá vendo? — ele sussurrou — você não quer que eu pare.
Minhas mãos apertaram levemente o tecido do moletom.
Eu devia ter dito alguma coisa.
Devia ter empurrado ele.
Mas não fiz nada.
E foi aí que ele chegou ainda mais perto.
A respiração dele encostando na minha.
Os olhos indo pros meus lábios por um segundo… e voltando.
Lento.
Provocando.
— Última chance de me mandar embora, Tutty…
Ele não tava pedindo.
Tava desafiando.
E eu… perdi.
Não disse nada.
Só fiquei ali.
E isso foi resposta suficiente.
Godoy aproximou o rosto devagar… quase como se estivesse saboreando cada segundo.
O toque veio primeiro.
Leve.
Quase testando.
Mas quando aconteceu de verdade…
Não foi mais leve.
Foi intenso.
Calmo… mas carregado de tudo que a gente tinha segurado até ali.
Minha mão acabou indo parar na camisa dele sem eu perceber.
E naquele momento, nada mais importava.
Nem o corredor.
Nem a escola.
Nem o fato de que a gente nunca tinha nem conversado direito.
Quando ele se afastou, foi só o suficiente pra olhar pra mim de novo.
Com aquele mesmo sorriso… só que agora diferente.
— Então… você não tava me evitando.
Respirei fundo, ainda tentando voltar pro mundo real.
— Talvez eu só estivesse esperando você tomar coragem, Godoy.
Ele riu baixo.
E passou por mim… como se aquilo tivesse sido só o começo.
Mas eu sabia.
Sabia mesmo.
Depois daquele beijo…
Nada entre a gente ia voltar a ser tranquilo.