Quando estava triste e sem saber o que fazer, sentada numa calçada brincando com uma pedrinha, uma senhora que passava me viu e perguntou:
_"Por que você tá aí de cabeça baixa tão borocoxô, minha jovem? Você é muito bonita pra tá triste assim com essa cara."_
Eu falei: _"Não sei por que, mas..."_ e desabafei com ela. Disse o seguinte:
_"Sabe, eu não sei o que fazer, não sei se o que faço é o que realmente quero. As pessoas ao meu redor dizem que tenho que saber aquilo, fazer aquilo, que tenho que ser assim e tal, e que eu seria melhor se eu fosse diferente. Só que como elas querem que eu seja, que agrada elas, não é o que eu realmente quero. Só que de tanto viver assim eu já não sei nem o que quero."_
A senhora olhou pra mim com um olhar de quem sentia e entendia minhas emoções e disse assim pra mim:
_"Sabe, a vida pede muito da gente. Tem pessoas que aprendem e se acostumam a viver assim, achando que é normal. Mas tem quem não consegue viver no mundo vendo tanta coisa que não parece certo nem normal. E por isso essas pessoas, o mundo tenta ao máximo calar elas. Mas aí é você que escolhe se vai ou não deixar ele te calar."_
Eu olhei pra ela com os olhos com lágrimas e falei:
_"Sabe, eu não sei qual tipo de pessoa quero ser nem sei como saber. Eu acho que se minha versão pequena de 8 anos me visse hoje como eu sou, ela iria se decepcionar comigo. Ela iria me odiar."_
Aí a senhora fala: _"Será mesmo que ela iria te odiar? Por que não fala com ela?"_
Eu enxuguei minhas lágrimas e falei pra ela: _"Não tem como voltar. Como eu falo com ela?"_ Sorri.
Aí a velha olha pra mim e fala: _"Será que não tem como falar com ela?"_ Ela fala isso com um sorrisinho no rosto e depois vai embora.
Depois disso fui pra casa. Chegando lá fui direto pro banheiro tomar um banho. Saindo de lá me joguei na cama só de roupão e sem perceber adormeci na cama.
Depois de adormecer comecei a sonhar. E no sonho tinha uma garotinha de vestidinho vermelho de costas pra mim. E quando ela virou, percebi que aquela garotinha era eu de 8 anos.
Depois ela veio andando na minha direção e falou: _"Oi, eu do futuro."_
Eu fiquei parada, congelada, sem falar nada, sem saber o que estava acontecendo. E depois me aproximei da menina e dei um abraço bem apertado nela e comecei a chorar e falar:
_"Me desculpa. Me desculpa."_ E chorei ainda mais.
A menina deu um tapinha nas minhas costas de leve pra me consolar e perguntou pra mim: _"Por que você tá chorando?"_
E eu falei: _"Desculpa por não ser boa o suficiente, por ter seguido um caminho diferente do que a gente queria e por ter esquecido quem nós éramos. Sinto muito por também ter fracassado em lutar pra realizar nossos sonhos. Me perdoa."_
A menina olhou nos meus olhos e com suas mãos enxugou minhas lágrimas e disse pra mim com voz doce e generosa: _"Eu não preciso te perdoar."_
E eu olho pra ela e falo: _"Tem razão. Eu não mereço seu perdão."_
Só que ela fala assim: _"Não é porque você não merece. É que você não fez nada de errado pra precisar de perdão. Você só fez isso tudo porque achou que assim sobreviveria nesse mundo de gigantes, onde quem é expressivo e feliz sendo você mesmo, sem fingir ser alguém pra agradar os outros, eles tentam derrubar pra que também viva como todo mundo. E você tentou seguir como todos. Mas você não é todo mundo. Você não consegue viver como eles porque você é única e diferente. Você esqueceu quem somos porque tentou botar na sua cabeça que você não era daquele jeito, era de outro. Mas você sempre vai voltar e se perguntar quem é você."_
Eu fiquei olhando pra ela. Pra mim. Aquele vestido vermelho era o mesmo que eu usava quando não tinha medo de correr descalça.
Ela segurou meu rosto com as duas mãos pequenas e quentes.
_"Você acha que me decepcionou porque não virou quem sonhava? Eu nunca sonhei com perfeição. Eu sonhava com liberdade. Com rir alto. Com ser eu."_
Eu solucei. _"Mas eu deixei eles me moldarem. Eu me apaguei pra caber no mundo deles."_
Ela sorriu. Aquele sorriso banguela que eu tinha perdido. _"Você não se apagou. Você só guardou sua luz. Igual semente debaixo da terra no inverno. Parece que morreu, mas tá só criando força pra brotar."_
_"Você lembra o que a gente prometeu quando era pequena?"_ ela perguntou. _"A gente prometeu que se um dia se perdesse, ia olhar pro céu e seguir a cor mais bonita. Não o caminho mais certo. O mais NOSSO."_
Eu fechei os olhos. Lembrei. Do quintal, do giz de cera, do cheiro de chuva.
_"Você não fracassou"_ ela continuou. _"Você só cansou de gritar num mundo que tapa o ouvido. Então você ficou quieta. Mas quieta não é morta. Quieta é só juntando ar pra gritar de novo."_
Eu respirei fundo. O roupão tava úmido de lágrima.
_"E agora?"_ eu sussurrei. _"O que eu faço agora?"_
Ela pegou minha mão e colocou no meu próprio peito. _"Escuta. Tá ouvindo? Esse barulho aqui dentro? Não é só coração. É vontade. É a menina que ainda quer desenhar, cantar, dançar sem pedir desculpa. É o dom que você tava buscando fora, mas sempre morou aqui."_
_"Mas eu não sei por onde começar"_ eu disse. _"Eu me perdi no meio do caminho."_
_"Então começa de onde você tá"_ ela falou, e deu risada. A risada que ecoava na casa da vó. _"Cansada, de roupão, na cama. Começa sendo você. Sem ensaio. Sem rascunho. Do jeito que der. Igual a gente fazia quando desenhava no chão."_
Ela chegou mais perto e sussurrou, igual segredo de criança:
_"A senhora da calçada tava certa. O mundo tenta calar a gente. Mas ele só cala quem esquece que tem voz. E eu tô aqui pra te lembrar dela. A gente não nasceu pra ser eco dos outros. A gente nasceu pra ser barulho próprio. Mesmo que seja barulho baixinho no começo."_
_"E se eu errar de novo?"_ perguntei, com medo.
_"Então a gente erra junto"_ ela respondeu. _"Prefiro mil vezes você tropeçando no seu caminho, do que andando reta no caminho delas. Porque no seu caminho, até a queda vira história. E história é a única coisa que ninguém pode tirar da gente."_
O sonho começou a ficar nublado. Ela tava indo embora. Eu segurei a barra do vestido vermelho dela, desesperada.
_"Não vai! Fica mais um pouco!"_
Ela ficou ali, me olhando de baixo pra cima, porque eu era a grande e ela era a pequena de 8 anos.
_"Eu não vou embora. Eu moro aqui"_ ela bateu no meu peito de novo. _"Toda vez que você escolher você. Toda vez que você disser 'não' pro que te apaga. Toda vez que você se permitir ser feliz sem motivo. Eu tô aqui. Eu sou você. E eu não te odeio. Eu sinto orgulho."_
_"De mim?"_ eu perguntei, incrédula.
_"De NÓS"_ ela corrigiu. _"Porque a gente aguentou. A gente chorou, se escondeu, mas não sumiu. A gente só tava esperando a hora certa de voltar."_
Ela me deu um beijo na testa. Tinha cheiro de giz de cera e terra molhada. Cheiro de infância. Cheiro de casa.
_"Acorda"_ ela falou. _"Tem um dia inteiro lá fora que não sabe quem você é de verdade. Vai lá e mostra pra ele."_
*Eu acordei.*
O roupão ainda tava no corpo. O travesseiro molhado de lágrima real. Mas o peito? O peito tava quente. Como se alguém tivesse acendido uma vela lá dentro.
Levantei. Fui até a janela. O mundo tava do mesmo jeito. Mas eu não.
Peguei um papel qualquer. Uma caneta. E escrevi só uma frase, bem no meio:
*"Eu escolho não me calar mais."*
Porque a velha da calçada me deu a pergunta.
A menina de 8 anos me deu a resposta.
*E agora a voz é minha.*
E a partir de hoje, se o mundo quiser me calar, vai ter que falar mais alto que eu.
*E eu descobri que eu sei me fazer ouvir, mesmo que seja em silêncio.*
*FIM.*