_Por Olivia | Um conto sobre não ter resposta na hora_
*Prólogo: A Pergunta*
"Qual é o seu talento?"
A professora Ana perguntou isso como quem pergunta a cor favorita. Fácil. Leve.
Pra Júlia, foi fácil. "Eu danço balé."
Pra Pedro, foi fácil. "Eu vou ser médico. E Maria disse a eu canto super bem."
Pra mim, foi uma facada.
Porque quando chegou na minha vez, eu travei. A sala inteira olhou. O relógio da parede ficou mais alto. E a única coisa que saiu da minha boca foi um "não sei" que doeu mais que tapa.
Não saber na hora me fez sentir burra.
Cheguei em casa e fui direto pro quarto. Me joguei na cama como se o colchão pudesse me engolir.
Fiquei olhando pro teto pensando: "Do que eu gosto de fazer? Será que é desenho? Canto? Talvez dança?"
Peguei meu caderno espiral. O de capa azul, todo mordido nas pontas. Escrevi no topo da folha: "MEU DOM?"
A página ficou me encarando de volta. Em branco. Igual minha cabeça.
Decidi que pra descobrir, eu precisava me testar. Imaginar como seria se eu trabalhasse em cada uma das profissões do mundo.
*Teste 1: Médica.*
Me imaginei de jaleco, com seringa na mão. Aí lembrei que semana passada eu vi ketchup na mesa e achei que era sangue. Quase desmaiei.
Se eu visse uma gota de sangue de verdade, eu ia cair dura no chão do hospital. E se eu fosse dar vacina em alguém, ia tremer tanto que acabaria dando a vacina no lugar errado. Ou em mim mesma. KKK.
Risquei "médica" do caderno. Essa não era uma boa opção.
*Teste 2: Professora.*
Me imaginei na frente de uma sala. Trinta crianças. Todas gritando "tia, tia" ao mesmo tempo. Só de pensar, minha paciência acabou.
Eu não tenho paciência pra ensinar ninguém. Ia enlouquecer com um bocado de aluno me chamando pra lá e pra cá. E também não me dou bem com crianças.
Risquei "professora". Não era uma ideia boa também.
Fechei o caderno. Duas profissões testadas. Duas falhas. E um medo crescendo: "E se eu não servir pra nada?"
No dia seguinte, fui pro parque. Levei o caderno porque ele já virou parte de mim.
Sentei no banco e escrevi: "Acho que não dou pra nada. Talvez meu dom seja não ter dom."
Uma menina de uns 8 anos parou do meu lado.
"O que cê tá escrevendo?"
Fechei o caderno na hora. De vergonha.
"Nada não. Coisa boba."
Ela me olhou de um jeito esquisito.
"Parecia importante. Você tava com a cara franzida, assim ó." E imitou minha cara de preocupação.
Eu ri sem querer.
"Minha mãe fala que quando a gente escreve, a gente conversa com a leão que que mora dentro da gente. Cê tem leão?"
Leão.
Ninguém nunca tinha falado assim comigo.
"Não sei", respondi. "Acho que tô procurando ainda."
Ela deu de ombros. "Ah. Então continua escrevendo. Uma hora ele ruge." E saiu correndo.
Fiquei olhando pra ela. Depois olhei pro caderno.
Talvez meu dom não fosse balé. Nem medicina.
Talvez meu dom fosse... isso. Escrever.
Naquela noite, minha mãe entrou no quarto com um copo de leite. Me pegou escrevendo.
Tentei esconder, mas ela foi mais rápida. Pegou o caderno e leu por cima.
"KKK acaba dando a vacina em mim mesma"... Olivia, você tem que mostrar isso pra Professora Ana.
Entrei em pânico.
"Tá louca? Pra ela ver que eu não sei ser nada?"
Minha mãe sentou do meu lado na cama.
"Pra ela ver que você já sabe ser a coisa mais difícil do mundo, filha."
"Que coisa?"
Ela apontou pro caderno.
"Honesta."
No dia seguinte, levantei a mão na sala.
"Professora, eu pensei."
Fui até a frente, com o caderno tremendo na mão.
"Eu não sei meu talento ainda. E testei médica e professora e não deu. Mas eu descobri que eu sei escrever quando tô com medo. E que isso me ajudou a não me sentir burra. Então... acho que por enquanto, meu dom é esse. Escrever pra entender."
A sala ficou em silêncio.
Aí o Júlia, o do balé, falou: "Mano, isso é corajoso pra caramba."
E a Professora Ana bateu palmas. Devagar. Depois a sala inteira bateu.
Voltei pro meu lugar. Peguei o lápis.
Embaixo de "MEU DOM?", escrevi: "O Legado da Olivia. Capítulo 1."
Descobri que talento não é o que você responde na hora que te perguntam.
Talento é o que você faz quando ninguém tá olhando.
É o que te faz esquecer da hora.
É o que te faz pegar um caderno e transformar medo em história.
Se você tá lendo isso e também não soube responder na escola, respira.
Pega um caderno.
Escreve: "Eu não sei."
E continua escrevendo depois disso.
Uma hora, teu leão ruge.
O meu rugiu aqui.
Fim