*PRÓLOGO: A NOITE DAS ADAGAS* O veneno tinha gosto de mel e traição. Rainha Amara sentiu a garganta fechar no meio do brinde. O Rei Theron caiu primeiro, com a taça ainda na mão. O salão do banquete virou um caos de gritos e sangue. Morvana estava de pé, sorrindo. Não era mais a prima querida. Era uma serpente de seda roxa. "Me perdoa, prima. Mas o trono fica melhor em mim", ela sussurrou, enquanto os guardas comprados trancavam as portas. Amara não pensou no reino. Pensou no berço. Correu. Três anos. Yuma dormia com os punhos fechados, como quem já luta desde o útero. Os olhos da bebê se abriram com o barulho. Roxos. Brilhantes como gemas amaldiçoadas. A marca da Deusa. "Chronos", Amara chamou, caindo de joelhos. O ar tremeu. Um leão feito de areia e relógios quebrados surgiu do nada. O Leão do Tempo. "Três segundos, minha rainha. É tudo que posso lhe dar", ele rosnou. O tempo parou. Os gritos congelaram no ar. Amara entregou Yuma para Mira, sua aia, sua irmã de alma. "Leve ela. Esconda. A Marca não pode morrer. Só volte quando ela rugir sozinha." Colocou no pulso de Mira um bracelete de Guardiã. Falso, mas quem ia saber? Todos os Guardiões verdadeiros já estavam mortos no chão do salão. O tempo voltou. Amara beijou a testa da filha uma última vez. "Lembre, lembre da voz da sua mãe", mentiu, porque sabia que Yuma ia esquecer. Depois pegou a espada do marido morto e voltou pro salão. Se ia morrer, morreria de pé. Morvana a encontrou uma hora depois, com cinco facas no peito e um sorriso morto nos lábios. No berço de Yuma, só cinzas. "Tragédia", Morvana chorou pros ministros. "A linhagem acabou. Como parente mais próxima, cabe a mim o fardo de governar. Minha filha Selene, abençoada com os olhos roxos, será a esperança de Luminara." Ninguém viu as lentes de contato roxas que Selene, de quatro anos, usava desde que nasceu. *CAPÍTULO 1: A MENINA DO CAPUZ* "Yumi, seu demônio de olhos baixos!" Yuma, 15 anos, abaixou mais o capuz. Era melhor que as pedras. Melhor que os apelidos. Na Vila da Colheita, ela era a filha da parteira Mira. A menina esquisita que fazia as plantações crescerem tortas quando chorava. A menina que a água da bica fervia perto quando tinha pesadelo. "Não liga, filha", Mira dizia toda noite, passando pomada nos cortes da pedra. "Uns olhos são céu, outros são tempestade. Os seus só são... diferentes." Mentira. Yuma sabia que era maldição. Por isso, na noite de lua cheia do seu aniversário de 15 anos, ela fugiu pro Rio da Sereia. Se era pra ser amaldiçoada, que fosse longe de Mira. Enfiou as mãos na água pra lavar o rosto. E o mundo explodiu. Não pra fora. Pra dentro. Uma onda de poder subiu pelos braços, gelada e antiga, e acendeu cada osso do corpo. A água do rio se ergueu em forma de leoa. Azul, transparente, com juba de espuma e olhos de mar profundo. Maris. O Leão da Água. Yuma quis gritar, mas a voz não saiu. A leoa encostou a testa na dela. _Finalmente te achei, pequena deusa._ Atrás de Maris, o chão rachou. Fogo. Um leão de magma e fúria saiu de dentro da terra, secando a grama em volta. Ignis. O vento uivou. Um terceiro leão, feito de nuvens e penas, pousou sem fazer barulho. Aeris. A montanha gemeu. Um quarto, de pedra e raízes, se ergueu do vale. Terran. E o tempo parou. Um quinto, de areia e ponteiros, saiu da própria sombra de Yuma. Chronos. Cinco. Todos de joelhos. Pra ela. "Não", Yuma sussurrou. "Eu sou só a Yumi. Eu sou ninguém." Ignis riu, e o riso queimou as folhas. "Você é a última. E tá atrasada 15 anos." *CAPÍTULO 2: O PREÇO DO RUGIDO* Mira foi presa na manhã seguinte. "Procurem a bruxa de olhos roxos!", os soldados de Morvana gritavam, virando a vila de cabeça pra baixo. Mira só teve tempo de enfiar o bracelete no pulso de Yuma antes de ser arrastada. "Sua mãe era a Rainha Amara. Você é a Princesa Yuma. E hoje os leões te acharam porque chegou a hora. Encontre os outros. Se torne a Deusa. Ou morra tentando." Yuma negou. Negou até um soldado arrancar seu capuz na praça, na frente de toda a vila. Silêncio. Depois, o caos. "É ela! A bruxa da profecia! Matem!" O capitão ergueu a espada. Yuma fechou os olhos, esperando o corte. Veio o calor. Quando abriu, a praça era cratera. Ignis estava entre ela e o mundo, com uma pata de fogo do tamanho de uma casa esmagando o capitão. "ATRASADA, EU DISSE!", ele rugiu. "Agora corre, herdeira. Antes que eu te coma por incompetência." Yuma correu. E pela primeira vez, correr não pareceu fuga. Pareceu começo. Na floresta, Ignis explicou as regras enquanto queimava um coelho pro jantar. "Dois leões por dia, você aguenta. Três, desmaia. Quatro, sangra por dentro. Cinco... você vira lenda. E morre." "Cada vez que usa a gente, paga. Eu levo memória feliz. Maris leva lágrima de sangue. Aeris leva voz. Terran leva tempo de vida. Chronos... bom, Chronos leva o que você mais ama." Naquela noite, Yuma sonhou com Mira. Acordou sem lembrar do rosto dela. Ignis tinha cobrado o preço. *CAPÍTULO 3: IRMÃS DE SANGUE E MENTIRA* Selene não era má. Só era covarde. Desde os quatro anos, a mãe enfiava aquelas lentes roxas nos olhos dela e dizia: "Sorria, minha rainha. Ou eu arranco seus olhos de verdade e coloco estes no lugar." Aos 17, Selene tinha decorado a mentira. Era Princesa Herdeira. Ia ser coroada Rainha em uma semana. E morria de medo todas as noites. Foi ela quem liderou a caçada por Yuma. Não por querer. Por medo. Se encontraram na Floresta dos Sussurros. Yuma com Ignis e Maris. Selene com vinte soldados. A luta durou três minutos. Yuma não usou os leões pra matar. Usou Aeris pra desarmar, Terran pra prender os soldados em raízes. No fim, era só ela e Selene, espada contra espada. "Você não tem a marca!", Yuma gritou, vendo de perto. Os olhos de Selene eram castanhos, com um círculo roxo falso em volta da íris. Selene largou a espada e caiu de joelhos. "Eu sei! Eu sei que sou uma fraude! Mas se eu não fingir, ela me mata! Ela matou os meus pais de verdade, Yuma! Eu sou órfã que nem você!" Yuma baixou a espada. Pela primeira vez, viu a prima não como inimiga. Como vítima. "Minha mãe tem o Leão do Vazio", Selene chorou. "Ele come luz. Ele come marca. Ele ia comer a sua. Por favor, não volta pro castelo. Ela vai te destruir." Yuma a levantou do chão. "Então me ajuda a destruir ela primeiro." *CAPÍTULO 4: O DIA DA COROAÇÃO* O salão do trono estava lotado. Nobreza, povo, mentira. Morvana, Regente por 15 anos, ajeitou a coroa na cabeça de Selene. "Hoje, Luminara ganha sua Rainha eterna!" As portas se abriram. Yuma entrou descalça, de túnica simples, com o bracelete de Mira no pulso. Não precisou gritar. Os cinco leões andaram atrás dela, visíveis pra todo o reino. Fogo, Água, Ar, Terra e Tempo. Sólidos. Reais. Ajoelhados pra ela. O povo lembrou das lendas. Leões só seguem uma Deusa verdadeira. O salão virou silêncio. Depois, murmúrio. Depois, esperança. Morvana perdeu a cor. "Matem a impostora! Ela é uma bruxa!" Nenhum guarda se mexeu. Selene tirou as lentes roxas na frente de todos. Os olhos castanhos e assustados apareceram. "Eu não tenho a marca", ela disse, e a voz tremeu mas não quebrou. "Minha mãe mentiu. A verdadeira herdeira está aqui." Morvana surtou. Das sombras, ela puxou uma corrente negra. O Leão do Vazio se formou. Não tinha forma. Era uma ausência, um buraco no mundo que sugava luz e som. Ele avançou pra Yuma, direto nos olhos dela. Queria comer a Marca Roxa. Yuma não pensou. Usou três leões de uma vez. Terran ergueu uma parede de pedra. Aeris jogou Morvana longe. Chronos... Chronos parou o tempo por um segundo. Foi o suficiente pra salvar Selene, que entrou na frente da facada que era pra Yuma. Foi demais pra Yuma. Ela caiu. O corpo falhou. O coração quase parou. Pagar o preço de três leões era pedir pra morrer. No escuro, Chronos segurou a mão dela. "Escolha, pequena deusa. Sua vida, ou a memória do seu pai. Não posso te dar os dois." Yuma nem hesitou. "A vida. Eu escolho lutar." Quando acordou, não lembrava mais do rosto do Rei Theron. Mas estava viva. E Maris estava curando o ombro de Selene com água brilhante. Yuma se levantou. Seus olhos não eram mais roxos. Eram dois sóis. Morvana tentou correr. O povo não deixou. "Eu não te mato", Yuma disse pra tia. "O povo decide o que fazer com mentirosos." *CAPÍTULO 5: A DEUSA DOS LEÕES* No Templo dos Leões, no dia do seu 16º aniversário, Yuma sentiu. Os cinco leões rugiram em uníssono e viraram luz. A luz entrou nela. Não doeu. Foi como voltar pra casa. Quando abriu os olhos, era Deusa. O poder não cobrava mais preço. O poder era dela. Primeira ordem como Rainha: "Soltem Mira. De agora em diante, nenhuma criança vai se esconder por causa dos olhos que tem." Selene se ajoelhou. "Me pune. Eu menti a vida toda." Yuma tocou o ombro dela. Onde a facada de Morvana curou, uma marca roxa nova apareceu. Não nos olhos. No pulso. "Você sangrou pela verdade. Isso te faz Guardiã, Selene. A primeira que não precisa de sangue real. Só de coragem." Selene chorou. Pela primeira vez, não de medo. De alívio. Mira virou Conselheira-Mor. O reino curou. Os impostos baixaram. A comida voltou pra mesa do povo. Os leões viraram estátuas nos cinco portões de Luminara, acordando só quando o reino precisava. Na noite da coroação, Yuma ficou sozinha na sacada do quarto que foi da mãe. Chronos se formou da sombra dela. "Acabou, pequena deusa?", ele perguntou. "Acabou", Yuma mentiu. Chronos riu, um som de areia caindo. "O Leão do Vazio era só o filhote. Morvana libertou o 6º Leão antes de ser presa. Caos. O banido. O que não obedece Deusa nenhuma." Longe, no horizonte, o céu rachou. Não com trovão. Com silêncio. Um rugido que não tinha som. Yuma segurou o bracelete de Mira. Lembrou, lembrou da voz que não lembrava mais. E sorriu. Porque agora, ela não era mais a menina do capuz. Era a Deusa dos Leões. E Deusa não foge de briga.