*CAPÍTULO 1 - O DIA QUE TUDO DEU ERRADO*
A porta do quarto bateu com tanta força que o pôster da banda favorita da Olívia caiu no chão.
"VOCÊS NÃO MANDAM EM MIM!" Ela gritou pra escada, mesmo sabendo que os pais já tinham voltado pra sala. "Eu tenho DOZE anos! Doze!"
Silêncio. Só o som da TV lá embaixo, abafado. Ninguém ia subir. Ninguém ia pedir desculpa.
Era sempre assim.
_Tá na hora do jantar, Olívia._
_Já fez a lição, Olívia?_
_Desliga esse celular, Olívia._
_Você não pode sair com essa roupa, Olívia._
Olívia. Olívia. Olívia.
Como se ela fosse uma criança de cinco anos. Como se ela não soubesse de nada.
Ela chutou a mochila. A mochila bateu na janela. A janela tremeu e... abriu um pouquinho.
Uma brisa entrou. Estranha. Cheirando a noite e a algo doce, tipo açúcar queimado.
Olívia foi fechar. Congelou.
Em cima da sua almofada roxa favorita, a que ela ganhou da avó, tinha uma gata.
Preta. Inteira. Com olhos verdes que brilhavam no escuro do quarto como duas lanternas.
E ela não estava ali três segundos atrás. Olívia tinha certeza.
"Você..." Olívia apontou, com a voz falhando. "Como você entrou?"
A gata bocejou. Se espreguiçou toda, longa e preguiçosa, como se fosse dona do quarto. Como se fosse dona da almofada. Como se fosse dona da Olívia.
Depois, ela olhou bem pra Olívia. E falou.
Não com miau. Falou de verdade, com voz de menina debochada:
"Péssimo dia, né?"
Olívia deu dois passos pra trás e caiu sentada na cama. "Você... você fala?!"
"Eu faço muita coisa." A gata lambeu a pata. "Mas hoje tô a fim de ouvir. Porque você tá com aquela cara."
"Que cara?"
"Cara de quem ia dar TUDO pra sumir. Pra ser livre. Pra ninguém pegar no seu pé."
O coração da Olívia bateu mais rápido. Era EXATAMENTE isso.
"Como... como você sabe?"
A gata sorriu. Gatos não deviam conseguir sorrir, mas aquela sorriu. E o pingente de estrela no colar dela brilhou sozinho.
"Porque eu realizo desejos, Olívia. Desejos que vêm daqui." Ela bateu com a patinha no próprio peito. "Do coração."
Olívia engoliu seco. O quarto pareceu menor. O ar pareceu mais quente.
"E... qual é o preço?" Ela tinha visto filme demais pra cair nessa sem perguntar.
O sorriso da gata ficou maior. Travesso.
"Ah, garota. O preço você só descobre depois. Mas me diz..." Os olhos verdes prenderam os dela. "O que você quer mais que tudo hoje?"
Olívia pensou nos pais. Na TV lá embaixo. No _Olívia, faz isso. Olívia, faz aquilo._
Pensou em como seria bom sair e ninguém perguntar pra onde. Como seria bom dormir até tarde e ninguém mandar acordar. Como seria bom, só por um dia, não ter que dar satisfação pra ninguém.
Ela respirou fundo. E a frase saiu sozinha, pesada e verdadeira:
"Eu queria que meus pais parassem de pegar no meu pé. Queria ser livre de verdade!"
O pingente de estrela brilhou forte. Tão forte que Olívia teve que fechar os olhos.
Quando abriu, a gata tinha sumido.
A almofada roxa estava vazia. A janela estava fechada. O cheiro de açúcar queimado tinha sumido.
Só o silêncio.
Olívia esperou. Um segundo. Dois.
Nada aconteceu.
Ela riu, nervosa. "Lógico. Tô ficando maluca."
Ela desceu a escada devagar, pé ante pé, pronta pra outra briga.
O pai estava no sofá. A mãe estava na cozinha.
Olívia passou pela sala.
Ninguém olhou. Ninguém falou.
"Oi?" Ela tentou.
O pai trocou de canal. A mãe pegou um copo d’água e saiu da cozinha, passando reto por Olívia como se ela fosse um fantasma.
Como se ela fosse invisível.
O celular da Olívia vibrou no bolso. Era a mãe: _Jantar tá no micro-ondas._
Mas a mãe tinha acabado de sair da cozinha. Tinha passado por ela.
Olívia olhou pro celular. Olhou pra escada vazia.
E aí ela entendeu.
O desejo tinha se realizado.
E aquele, ela percebeu com um bolo na garganta, foi o dia que tudo deu errado.
*CAPÍTULO 2 - A LUA DE MEL DA LIBERDADE*
No começo, foi incrível.
Olívia acordou às 11h da manhã. Onze. Nem um alarme, nem um "Olívia, já tá na hora" batendo na porta.
Ela desceu de pijama, cabelo amassado, e pegou o último pedaço de bolo da geladeira. A mãe estava na mesa, lendo o jornal. Olívia passou na frente dela, de propósito.
Nada.
A mãe virou a página. Tomou o café. Como se a filha fosse ar.
_Liberdade_, pensou Olívia, com a boca cheia de bolo. _É isso aí._
Na escola, foi melhor ainda.
"Cadê sua lição, Olívia?" A professora perguntou.
"Não fiz." Olívia deu de ombros, esperando a bronca.
A professora só anotou alguma coisa e passou pro próximo aluno. Nenhum bilhete pra casa. Nenhum "quero falar com seus pais".
Na hora do recreio, ela contou pra Júlia e pra Mari.
"Minhas férias começaram mais cedo. Meus pais tavam pegando muito no meu pé, aí eu... sei lá. Pedi pra parar. E parou."
Júlia franziu a testa. "Que estranho. Sua mãe me mandou mensagem ontem perguntando se você tava bem."
O bolo na boca da Olívia virou pedra. "Minha mãe?"
"É. Falou que você tava quieta. Eu disse que você tava normal."
Olívia olhou pro celular. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação perdida.
_Elas não tão falando comigo. Mas tão falando de mim._
Naquela tarde, ela testou.
Chegou em casa às 8 da noite, depois da escola. Normalmente seria o fim do mundo. _Onde você tava, Olívia? Por que não avisou? Tá de castigo!_
Ela abriu a porta.
O pai tava vendo futebol. A mãe tava fazendo jantar.
Ninguém virou. Ninguém perguntou.
O cheiro de arroz e frango encheu a cozinha. A barriga da Olívia roncou.
Ela foi até o fogão. O frango tava dourado, do jeito que ela gostava.
"Pai, que horas a gente janta?" Ela tentou, a voz mais alta.
O pai aumentou o volume da TV. Gol do time dele. Ele comemorou sozinho.
Olívia ficou parada no meio da cozinha. Invisível.
Ela pegou um prato. Se serviu. Comeu na bancada, sozinha, olhando pra mãe que lavava a louça a dois passos dela.
A mãe secou as mãos. Desligou a luz da cozinha.
E saiu.
Deixando Olívia no escuro.
No quarto, mais tarde, ela ligou pra avó. A pessoa que sempre ligava quando ela sumia.
"Vó?"
"Oi, minha flor!" A voz da avó veio quentinha. "Tava com saudade. Sua mãe disse que você tá naquela fase, né? Mais quietinha."
Fase. É assim que eles tavam chamando.
"Vó... cê me enxerga?"
A avó riu. "Que pergunta, menina. Lógico que enxergo. Mesmo de longe. Cê é minha neta preferida."
_Preferida._ Uma palavra que doeu e curou ao mesmo tempo.
Depois que desligou, Olívia abriu a janela. O vento da noite entrou. Cheiro de açúcar queimado.
"Você tá aí?" Ela sussurrou pra almofada roxa.
Silêncio.
Só o seu reflexo no vidro. Uma menina de 12 anos, sozinha num quarto grande demais.
Pela primeira vez em dois dias, ser livre não parecia tão bom.
Parecia só... vazio.
Ela se encolheu na cama, abraçando a almofada roxa.
E, sem querer, pensou: _Eu não queria sumir. Eu só queria que eles confiassem em mim._
Lá fora, na sombra da árvore, dois olhos verdes brilharam. E se fecharam, satisfeitos.
A lua de mel tinha acabado.
*CAPÍTULO 3 - O ARREPENDIMENTO*
O terceiro dia foi o pior.
Olívia acordou cedo. Não porque alguém mandou. Acordou porque não conseguiu dormir.
Sonhou que gritava na sala de casa e ninguém ouvia. Sonhou que abraçava a mãe e atravessava ela, como fumaça.
Desceu a escada com o coração na mão. _Hoje vai ser diferente_, ela pensou. _Hoje eles vão me ver._
O pai tava na mesa, lendo no tablet. A mãe colocava a cafeteira pra fazer.
"Bom dia." Olívia tentou. A voz saiu pequena.
O pai passou o dedo na tela. A mãe pegou duas xícaras do armário. Duas.
Olívia contou. Uma pro pai. Uma pra ela.
A mãe serviu o café. Nas duas xícaras. Colocou uma na frente do pai.
A outra... deixou na mesa. No lugar de sempre da Olívia.
Mas não olhou pra ela. Não chamou.
Era um hábito. Um fantasma de hábito. Como se o corpo da mãe lembrasse, mas os olhos não.
Olívia puxou a cadeira. Devagar. Sentou. O café tava quente. Cheirava igual sempre.
"Mãe," ela sussurrou.
A mãe pegou a bolsa. "Vou me atrasar," disse pro pai, e saiu pela porta.
A porta bateu.
Olívia ficou olhando pro café. Sozinha. Intacto. Intocável.
Foi aí que quebrou.
Não foi um choro bonito de filme. Foi um soluço feio, preso na garganta, que saiu como um grito baixo.
"EU TÔ AQUI!" Ela bateu com as duas mãos na mesa. A xícara tremeu. "EU TÔ AQUI, DROGA!"
O pai nem piscou. Pegou a xícara dele e foi pra sala ver o jornal.
Olívia correu pro quarto. Trancou a porta. Abriu a janela com tanta força que quase quebrou o vidro.
"GATA!" Ela gritou pra noite, pro vento, pra almofada roxa vazia. "APARECE AGORA!"
Silêncio.
"Você disse que era do coração! Você disse!" As lágrimas desciam quentes, de raiva. "Eu não queria ISSO! Eu não queria sumir! Eu só queria... eu só queria que eles confiassem em mim! Que me ouvissem! Que..."
_Que me amassem do jeito que eu sou_, ela completou na cabeça, mas não conseguiu falar.
O cheiro de açúcar queimado invadiu o quarto.
E a gata apareceu. Não na almofada. No parapeito da janela, com o corpo todo na sombra, só os olhos verdes acesos.
"Ah, garota," a voz veio debochada, mas mais baixa. "Demorou pra chorar."
"Cancela," Olívia mandou, apontando o dedo, tremendo. "Cancela agora. Desfaz. Eu não quero mais."
A gata pulou pra dentro. Andou até a cama, sem pressa. Sentou bem no meio da almofada roxa.
"Desejo do coração não tem botão de voltar, Olívia." Ela lambeu a pata. "Tem consequência. Você pediu pra ser livre. Você tá livre."
"ISSO NÃO É LIBERDADE! ISSO É..." Olívia engasgou. "...é ser nada."
Os olhos verdes da gata ficaram sérios pela primeira vez. "Exato. Agora você entendeu a diferença."
Olívia caiu de joelhos no chão. "Por favor. Me ajuda. Me diz o que eu faço. Eu conserto. Eu peço desculpa. Eu..."
"Shhh." A gata levantou uma pata. O pingente de estrela no colar dela brilhou fraco. "Eu posso te ajudar. Mas desejo arrependido... é perigoso. Ele grita. E tem gente que escuta grito."
Um vento gelado entrou pela janela. Não era vento. Era sombra. Sombra que se mexeu na parede, se esticou, se soltou.
E riu.
Uma risada baixa, de mulher, que parecia vir de todos os cantos do quarto.
A gata arrepiou o pelo todo. Pela primeira vez, ela pareceu... com medo.
"Tarde demais," a gata sibilou. "Ela sentiu."
As sombras no quarto engrossaram. Se juntaram no meio do ar, formando uma capa longa, líquida, que não parava quieta. De dentro da capa, dois olhos brilharam. Não verdes. Amarelos. Doentes.
"Bela gata," a voz veio das sombras. "E belo desejo arrependido. O mais raro. O mais poderoso."
Olívia se arrastou pra trás até bater na parede. "Quem... quem é você?"
A sombra riu de novo. E uma mão, feita de fumaça escura, saiu da capa e agarrou a gata pelo cangote.
A gata miou. Um miado de verdade, de dor. O pingente de estrela piscou, desesperado.
"Eu sou Brunilda," a sombra disse, trazendo a gata pra perto do rosto que não existia. "E você, criança tola, acabou de me dar o que eu queria há cem anos."
Olívia tentou correr. Tentou gritar.
As sombras foram mais rápidas. Enrolaram na gata, cobriram ela inteira.
E quando se dissiparam, um segundo depois, o quarto tava vazio.
Sem gata. Sem Brunilda.
Só a almofada roxa, amassada. E um único fio de pelo preto boiando no ar.
Olívia ficou sozinha.
De verdade, dessa vez.
*CAPÍTULO 4 - O COVIL DE SOMBRAS*
Por um minuto inteiro, Olívia não respirou.
O quarto estava vazio. Silencioso demais. Só a almofada roxa amassada, como se alguém tivesse arrancado a gata dela.
E aquele fio de pelo preto, boiando no ar, descendo devagar.
_Não. Não. Não._
O desespero veio primeiro. Quis gritar, chamar os pais. Mas lembrou: eles não iam ouvir.
Ela estava sozinha.
Sozinha de verdade.
Aí veio a raiva.
Raiva da gata por sumir. Raiva da Brunilda por levar ela. Raiva dela mesma por ter desejado aquela estupidez.
Olívia pegou o fio de pelo preto entre os dedos. Ainda tava quente.
"Eu trouxe você pra isso," ela sussurrou pra almofada vazia. "Então eu vou te buscar."
Não sabia como. Não sabia onde. Só sabia que não ia deixar a gata, a única que enxergou ela de verdade, nas mãos daquela coisa de sombra.
Ela abriu a janela. A noite lá fora tava mais escura que o normal. Sem lua. Sem estrelas.
Como se alguém tivesse puxado um cobertor preto em cima do céu.
O fio de pelo na mão dela se mexeu. Sozinho. Apontou. Como uma bússola.
Pro outro lado da rua. Pro Beco do Relojoeiro, aquele que a mãe sempre mandava ela nunca, nunca entrar porque era "mal frequentado".
Olívia engoliu seco. Vestiu o primeiro moletom que achou. Enfiou o celular no bolso. Não ia chamar a polícia. Ia adiantar? "Oi, uma bruxa de sombra sequestrou minha gata mágica"?
Ela desceu a escada na ponta do pé. Passou pela sala. O pai roncava no sofá.
Por um segundo, ela parou. Quis sacudir ele. _Pai, acorda! Eu preciso de você!_
Mas o pai só se virou pro outro lado.
Olívia mordeu o lábio até doer. E saiu.
A rua tava deserta. O fio de pelo puxava, puxava, brilhando fraco na escuridão.
O Beco do Relojoeiro era pior de perto. Sem luz. Cheiro de umidade e ferrugem. As paredes eram cobertas de pichações que pareciam se mexer quando ela não olhava direto.
No fim do beco, tinha uma porta. Não era uma porta normal. Era feita de sombra sólida, que ondulava como água.
E sussurrava.
_Volta, menininha..._
_Você não é nada..._
_Ninguém sente sua falta..._
As palavras favoritas da Brunilda.
Olívia fechou os olhos. Lembrou do café intocado na mesa. Lembrou da mãe saindo sem olhar. Lembrou do vazio.
E lembrou do que disse pra gata: _Eu só queria que eles confiassem em mim._
_Então prova que é confiável_, uma voz disse na cabeça dela. Parecia a voz da avó. _Mesmo com medo._
Olívia abriu os olhos. Respirou fundo.
E empurrou a porta de sombra.
Foi como mergulhar em água gelada. O ar sumiu do pulmão. Por um segundo, ela não viu nada.
Depois, os olhos se acostumaram.
Era um galpão enorme. Sem teto. Só o céu sem estrelas em cima.
E no meio, amarrada por correntes feitas de sombra, estava a gata.
O pelo preto tava arrepiado. O pingente de estrela no colar dela tava apagado, sem brilho. Ela miava, baixo, fraco.
"Gata!" Olívia correu, sem pensar.
"PARENTE." A voz da Brunilda ecoou do alto.
Olívia travou.
Brunilda desceu flutuando, como se nadar nas sombras fosse normal. A capa dela era um mar escuro vivo. Os olhos amarelos brilhavam, doentes, famintos. Ela não tinha pés. Não tinha rosto direito. Só aquele sorriso cortado na escuridão.
"Olha só," Brunilda cantarolou. "A criança vazia veio buscar a gata. Que tocante."
"Solta ela!" Olívia gritou, e a própria voz saiu mais corajosa do que ela se sentia. "Ela é minha!"
"É?" Brunilda riu, e o galpão inteiro tremeu. "Ela não é de ninguém, tolinha. Ela é poder. Puro. E seu desejo arrependido... ah, seu desejo foi o tempero que faltava."
Brunilda estendeu a mão de fumaça pro colar da gata. "Com um desejo desse, eu não vou só controlar sombras. Eu vou SER a noite. Ninguém mais vai me ver. Ninguém mais vai poder me parar."
O pingente de estrela começou a piscar. Fraco. Como um coração quase parando.
A gata olhou pra Olívia. E, mesmo amarrada, mesmo com medo, ela piscou devagar.
_Confia_, os olhos verdes diziam. _Igual você quer que confiem em você._
Olívia entendeu.
Não era com força que ia ganhar. Brunilda era sombra. Era medo. Era vazio.
E Olívia conhecia vazio. Viveu nele por três dias.
Ela deu um passo pra frente. Depois outro. Parou bem no meio do galpão, entre Brunilda e a gata.
"Você tá errada," Olívia disse. A voz não tremeu. "Liberdade sem ninguém pra voltar... não é poder. É só solidão. E você vai ficar sozinha pra sempre."
Brunilda parou. O sorriso de sombra vacilou por um segundo.
"Eu não tô sozinha," Olívia continuou. "Eu tenho ela." Apontou pra gata. "E eu vou provar que mereço ela de volta. Não com desejo. Com escolha."
Ela estendeu a mão pro fio de pelo preto que ainda segurava. E soprou.
O fio voou, brilhando, e pousou bem em cima do pingente de estrela da gata.
O galpão inteiro ficou em silêncio.
E o pingente... acendeu.
*CAPÍTULO 5 - O CLÍMAX*
O pingente de estrela acendeu.
Não foi uma luz bonita. Foi uma explosão. Branca, quente, que varreu o galpão e fez as sombras da Brunilda guincharem como se tivessem sido queimadas.
Brunilda berrou. Um som que não era humano. "NÃO! AINDA NÃO!"
As correntes de sombra que prendiam a gata racharam. Não quebraram. RACHARAM, como vidro prestes a estourar.
A gata ergueu a cabeça. Os olhos verdes, antes apagados, agora queimavam. "Olívia," ela disse, e a voz veio forte pela primeira vez. "Lembra. Desejo do coração não se desfaz. Se transforma."
"Eu tô pronta," Olívia respondeu. E estava. Pela primeira vez em 12 anos, ela estava 100% inteira no que ia fazer.
Brunilda se refez no ar. Maior. Mais escura. A capa dela agora engolia as paredes do galpão. "Você não entende, garota! Eu vou te dar o que você quer! Liberdade eterna! Você e sua gata, sozinhas, poderosas, sem ninguém pra mandar em vocês!"
"E sem ninguém pra sentir nossa falta," Olívia rebateu. Deu um passo pra frente. As sombras no chão tentaram agarrar o tornozelo dela. Ela não parou. "Eu já vivi isso, Brunilda. Três dias. É um lixo."
Brunilda atacou.
Uma lança de sombra voou direto pro peito da Olívia. Rápida demais pra desviar.
Mas a gata foi mais rápida.
Ela se soltou das correntes com um estalo e pulou na frente da Olívia. A lança bateu no pingente de estrela.
E ricocheteou.
A sombra explodiu contra a parede e virou poeira.
A gata caiu no chão, ofegante. O pingente tava trincado.
"Gata!" Olívia se ajoelhou do lado dela.
"Você tem que fazer o novo desejo agora," a gata arquejou. "É a única coisa que quebra ela. Desejo arrependido só é vencido por desejo verdadeiro."
"Mas eu não tenho o colar! Não tenho nada!"
"Tem sim." A gata olhou fundo nos olhos dela. "Tem você. O desejo sempre foi seu. Eu só realizo. Fala. Do coração. Do de verdade, dessa vez."
Brunilda riu, se recompondo no ar. "Fala, criança. Pede pra sumir de vez. É o que vocês todas querem no final."
Olívia levantou. Pegou a gata no colo. A gata pesava quase nada, mas parecia o mundo inteiro.
Ela olhou pra Brunilda. Pro vazio naqueles olhos amarelos. E entendeu.
Brunilda não queria poder. Queria companhia. Mas do jeito errado. Do jeito egoísta.
"Eu não vou pedir pra sumir," Olívia disse. Alto. Claro. Pro galpão inteiro ouvir. Pra ela mesma ouvir. "Eu não vou pedir pra ser livre."
Ela respirou fundo. E a verdade saiu, sem medo:
"Eu desejo que meus pais confiem em mim. E eu vou provar, todo dia, que eu mereço essa confiança. Eu desejo conexão, não solidão. Eu desejo voltar pra casa."
O pingente de estrela na coleira da gata TRINCOU de vez.
E explodiu em luz.
Não foi uma luz que cegou. Foi uma luz que aqueceu. Que lembrou cheiro de café de manhã. Que lembrou bronca por amor. Que lembrou "tô aqui" mesmo quando a gente briga.
A luz bateu em Brunilda.
E Brunilda GRITOU.
Não de dor. De perda.
As sombras dela começaram a derreter. A capa líquida virou fumaça. O sorriso de escuridão se desfez.
"Não..." Brunilda sussurrou, já quase transparente. "A noite... é minha..."
"Não," Olívia disse, com pena e com força. "A noite é de todo mundo. Até sua. Se você quiser dividir."
Brunilda olhou pra ela uma última vez. E sumiu. Não explodiu. Não morreu. Só... se dissolveu, como névoa no sol.
Com um sussurro final: "A noite... é longa, gata..."
E silêncio.
O galpão desabou. Não as paredes. A escuridão. O teto voltou a mostrar estrelas. De verdade. Milhares delas.
A gata no colo da Olívia suspirou. O pingente, agora, era só um pedaço de metal comum. Sem brilho. Sem magia.
"Acabou?" Olívia perguntou, com a voz falhando.
"Acabou," a gata respondeu. E lambeu a mão da Olívia. "Você fez. Sem truque. Sem atalho. Só com o coração."
Olívia riu. Um riso molhado, de alívio. "E agora? Você vai sumir?"
A gata se aninhou mais no colo dela. "Eu? Sumir? E perder a chance de ver você lavar a louça que vai deixar pra trás? Nem morta."
Ela bocejou. "Leva eu pra casa, Olívia. Tá na hora do jantar. E, pelo amor das estrelas, dessa vez eu quero que alguém brigue comigo se eu subir na mesa."
Olívia abraçou a gata forte. E saiu andando do galpão, com as estrelas em cima e a casa esperando.
Quando ela abriu a porta de casa, o pai tava na sala. A mãe tava na cozinha.
Os dois olharam.
E viram ela.
"Olívia?" A mãe largou a colher. "Onde você tava, menina? A gente ficou preocupado!"
O pai veio correndo. "Você sumiu! Seu celular tava fora de área!"
Olívia largou a gata no chão. E, pela primeira vez em dias, correu e abraçou os dois ao mesmo tempo. Forte.
"Desculpa," ela chorou no ombro da mãe. "Eu fui teimosa. Eu achei que..."
"Shhh," o pai fez cafuné. "A gente também foi. A gente tá aqui, filha. Sempre."
A gata se enroscou nas pernas dos três, ronronando alto.
E, pela primeira vez, a casa não pareceu prisão.
Pareceu lar.
*FIM*
*EPÍLOGO - UMA SEMANA DEPOIS*
Sábado. 10h da manhã.
"OLÍVIA! A GATA TÁ EM CIMA DA MESA DE NOVO!"
A voz da mãe veio da cozinha, mas dessa vez não era grito de brava. Era grito de _eu te avisei_ com risada no fundo.
Olívia pausou o filme e correu. A gata, batizada oficialmente de Estrela pela avó, tava lá. Sentada em cima da mesa, com a pata bem no meio do pote de pipoca.
"Estrela!" Olívia tentou fazer voz firme. Falhou. "Desce já!"
A gata pegou uma pipoca com a boca e mastigou, lenta, olhando pra Olívia. _Tenta me tirar_, os olhos verdes diziam.
O pai apareceu na porta, rindo. "Ela já ganhou. Aceita, filha. Sua mãe tá brigando há 10 minutos."
"Eu não tô brigando," a mãe apareceu com o pano de prato na mão. "Tô negociando. Com uma criminosa." Ela apontou pra Estrela. "Você, mocinha, vai pra sua caminha se quiser um pedacinho de frango mais tarde."
Estrela bocejou. Pulou da mesa com elegância ofensiva e foi se aninhar na almofada roxa, que agora morava no sofá da sala. Lugar de honra.
Olívia voltou pro filme. A mãe sentou do lado dela com a tigela de pipoca salva. O pai sentou do outro, já roubando um punhado.
"Posso pausar rapidinho?" Olívia perguntou.
"Pausa, ué," o pai disse. "A gente manda na nossa pipoca."
Olívia sorriu. Fazia uma semana que ela ouvia isso. _A gente_. Não _eu mando_. Não _você obedece_. A gente.
"É que... eu queria falar uma coisa." Ela coçou a nuca. "Lembram que eu sumi naquele dia?"
O clima ficou sério por um segundo. A mãe largou a pipoca.
"Lembro," a mãe disse, baixo. "A gente surtou. Seu pai rodou o bairro de carro."
"Eu não sumi porque tava com raiva de vocês," Olívia falou rápido. "Eu sumi porque... eu achei que vocês não confiavam em mim. E eu também não tava confiando em mim."
O pai passou o braço por cima do ombro dela. "E agora?"
"Agora eu acho que a gente tá aprendendo." Olívia olhou pra Estrela, que fingia dormir, mas tinha uma orelha em pé. "Tipo... vocês me deixam ir no shopping com a Júlia e a Mari hoje, sozinha. E eu prometo voltar no horário e mandar mensagem se atrasar."
A mãe e o pai se olharam. Aquela conversa de olhar que pai e mãe têm.
"Tá," a mãe disse, por fim. "Mas 18h em ponto. E nada de ir no Beco do Relojoeiro."
Olívia congelou. "Como... como vocês sabem desse beco?"
"Todo mundo sabe desse beco, filha," o pai riu. "É mal frequentado desde que eu era criança. Dizem que tem até... bruxa."
Estrela abriu um olho. Depois fechou, entediada.
"Sem bruxa," Olívia garantiu. "Só shopping. E pipoca de lá também."
"Leva um casaco," a mãe disse, automático. "E leva a Estrela junto não, pelo amor. Da última vez ela tentou caçar o peixe do aquário da loja."
As três riram. Até a Estrela, que ronronou alto.
Mais tarde, quando Olívia já tava na porta, de mochila e casaco, a mãe chamou:
"Filha?"
"Oi?"
A mãe foi até ela e ajeitou a gola do casaco. "A gente confia em você, tá? Mesmo quando a gente briga. Mesmo quando a gente pega no seu pé. É porque... a gente te ama pra caramba."
Olívia sentiu o bolo na garganta. Daquele bom. "Eu também amo vocês. Pra caramba."
Ela saiu. A porta fechou.
Dentro de casa, o pai olhou pra Estrela na almofada. "Viu só? Deu tudo certo no final."
Estrela se espreguiçou. E, por um segundo, o pingente de metal comum no pescoço dela... brilhou. Fraquinho. Só um piscar.
Como uma estrela dizendo _por enquanto_.
O pai piscou. "Você viu isso?"
"Ver o quê?" A mãe perguntou, catando pipoca do sofá.
"Nada," o pai riu. "Deve ser pelo no olho."
Lá fora, a noite começava a cair.
E, bem no fundo do Beco do Relojoeiro, uma sombra se mexeu sozinha.
E riu, baixinho.
_A noite é longa, gata..._