A primeira coisa que Theo odiou em Gael foi o jeito como ele sorria.
Não era um sorriso bonito — embora fosse ridiculamente bonito.
Era irritante.
Confiante demais.
Como se o mundo inteiro fosse uma piada interna que só ele entendia.
Theo percebeu isso numa terça-feira chuvosa, quando entrou atrasado na cafeteria onde trabalhava meio período e encontrou um desconhecido alto, de cabelos escuros bagunçados e um avental amarrado torto ocupando seu lugar atrás do balcão.
— Você tá no meu caixa — Theo disse, largando a mochila sobre a cadeira.
O garoto ergueu os olhos lentamente.
Calmos.
Divertidos.
Perigosamente bonitos.
— Ah — ele inclinou a cabeça — então você deve ser o Theo mal-humorado.
Theo estreitou os olhos.
— E você deve ser o inconveniente novo funcionário.
O sorriso surgiu.
Aquele sorriso.
Lento.
Provocador.
— Gael.
Como se estivesse oferecendo um desafio.
Theo não apertou sua mão.
Gael achou graça.
E foi ali que tudo começou.
Eles se odiaram por aproximadamente… três dias.
No quarto, Theo descobriu que Gael tinha mania de cantar enquanto fazia café.
Mal.
Muito mal.
Cantava alto, desafinado e ainda mudava as letras das músicas para irritá-lo.
— “Theo reclama do vento, Theo reclama do chão…”
— Cala a boca.
— “Theo reclama do pão…”
— EU JURO QUE TE JOGO NESSE EXPRESSO.
Gael ria.
Ria de verdade.
Daqueles risos fáceis, soltos.
E Theo começou a perceber algo terrível:
Ele gostava de ouvir.
Gostava do som.
Gostava da presença.
Gostava de como Gael sempre roubava os doces queimados porque dizia que “imperfeições têm personalidade”.
Gostava de como ele enrolava as mangas do uniforme.
Gostava do jeito como olhava diretamente nos olhos quando falava, como se ninguém mais existisse.
Era irritante.
Muito irritante.
Especialmente porque Gael parecia gostar de provocar.
— Você sempre franze a testa assim? — perguntou certa tarde.
Theo digitava pedidos no caixa.
— Assim como?
Gael se inclinou sobre o balcão.
Perto demais.
Muito perto.
— Como se quisesse me beijar ou me matar.
Theo travou.
Por exatos dois segundos.
— A segunda opção.
Gael sorriu daquele jeito de novo.
— Pena.
E saiu andando.
Theo ficou encarando o vazio por tempo demais.
A química entre eles virou assunto entre os colegas.
— Vocês brigam como casal — comentou uma funcionária.
— A gente nem se suporta — Theo respondeu rápido.
Gael, passando com uma bandeja, soltou:
— É o que todos dizem antes do namoro.
Theo quase derrubou um cappuccino.
Então veio a tempestade.
Literalmente.
Uma chuva absurda caiu sobre a cidade numa noite de fechamento. O gerente mandou todos embora cedo, mas Theo perdeu o ônibus.
Ficou parado na marquise da cafeteria, braços cruzados, irritado.
— Vai ficar aí fazendo pose de personagem triste? — Gael apareceu segurando um guarda-chuva.
Theo revirou os olhos.
— Não preciso de caridade.
— Não é caridade. Eu moro pro mesmo lado.
Mentira.
Theo sabia que era mentira.
Gael morava vinte minutos na direção oposta.
Ainda assim, lá estavam os dois, dividindo um guarda-chuva pequeno demais.
O ombro encostando.
As mãos roçando sem querer.
Ou querendo.
Theo não sabia.
Gael falava qualquer besteira sobre filmes ruins, e Theo fingia não rir.
Fingia muito mal.
A chuva aumentou.
O vento bagunçou o cabelo dos dois.
E então Theo tropeçou.
Só um passo errado.
Mas suficiente.
Gael segurou sua cintura no reflexo.
Firme.
Quente.
Perto.
Muito perto.
O mundo ficou silencioso.
Só chuva.
Respiração.
Olhos.
Theo odiou o quanto percebeu detalhes.
A pinta perto da boca.
Os cílios escuros.
O jeito como Gael olhava para ele sem brincadeira pela primeira vez.
Como se estivesse esperando.
Como se estivesse tentando não atravessar alguma linha invisível.
— Você tá me olhando estranho — Theo murmurou.
Gael soltou uma risada baixa.
— Você fala isso enquanto me encara há uns vinte segundos.
Theo abriu a boca.
Fechou.
Gael continuou segurando sua cintura.
Nenhum dos dois parecia com pressa de se afastar.
— Acho que eu devia te contar uma coisa — Gael falou.
— O quê?
Ele inclinou a cabeça.
O sorriso pequeno dessa vez.
Sem provocação.
Só honestidade.
— Você fica bonito quando para de fingir que me odeia.
Theo sentiu o coração tropeçar em si mesmo.
Idiota.
Bonito.
Ridículo.
A chuva escorria pelas laterais do guarda-chuva.
E Theo, pela primeira vez em muito tempo, não sabia o que dizer.
Então fez algo pior.
Algo impulsivo.
Algo completamente irresponsável.
Puxou a gola da jaqueta de Gael.
E beijou ele.
Foi rápido.
Desajeitado.
Cheio de surpresa.
Mas quente.
Intenso.
Daqueles beijos que parecem uma discussão mal resolvida.
Quando se afastou, Theo imediatamente quis cavar um buraco.
— Esquece isso.
Gael piscou.
Uma vez.
Duas.
E então soltou uma risada incrédula.
— Você me beija e manda esquecer?
Theo cruzou os braços.
— Talvez eu esteja arrependido.
Gael aproximou o rosto.
Perto de novo.
Tão perto que Theo sentiu a respiração dele.
— Mentiroso.
Silêncio.
Tensão.
Química.
Aquela coisa elétrica no ar.
E então Gael segurou o rosto dele com cuidado.
Como se perguntasse sem palavras.
Theo não se afastou.
Nem um centímetro.
O segundo beijo veio devagar.
Quente.
Demorado.
Cheio de algo que parecia inevitável.
Quando se separaram, Theo ainda parecia irritado.
Mas agora estava corado.
— Você continua irritante — ele murmurou.
Gael sorriu.
Aquele sorriso.
Mas dessa vez Theo não odiou.
Nem um pouco.
— E você continua parecendo bravo quando tá apaixonado.
Theo bufou.
— Cala a boca.
— Faz eu calar.
E, pela primeira vez, Theo riu antes de beijá-lo outra vez.
semana seguinte foi… estranha.
Boa.
Mas estranha.
Porque, aparentemente, depois de semanas implicando um com o outro e um beijo roubado na chuva, Theo e Gael agora precisavam descobrir como exatamente se fazia isso de gostar de alguém sem transformar tudo numa guerra verbal.
Spoiler: eles falharam miseravelmente.
— Você tá me encarando de novo.
Theo nem levantou os olhos do celular.
— Não tô.
Gael, apoiado no balcão da cafeteria, cruzou os braços.
— Tá sim.
— Convencido.
— Apaixonado.
Theo finalmente ergueu o olhar.
Gael estava sorrindo daquele jeito.
O mesmo sorriso insuportavelmente bonito.
Mas agora tinha algo diferente.
Uma leveza.
Uma intimidade recém-descoberta.
Como se existisse um segredo entre eles.
E existia.
Na noite anterior, Theo tinha passado quase quarenta minutos deitado no sofá do apartamento de Gael assistindo filme ruim enquanto fingia não gostar do jeito que ele ajeitava o cobertor nos ombros dele.
Como se fosse algo natural.
Como se cuidar de Theo fosse automático.
Theo odiava o quanto aquilo mexia com ele.
— Para de sorrir assim — murmurou.
— Assim como?
— Como se soubesse alguma coisa.
Gael se aproximou lentamente.
Perto o suficiente para Theo sentir cheiro de café e perfume barato.
— Mas eu sei.
Theo ergueu uma sobrancelha.
— Ah é?
Gael inclinou o rosto, voz baixa:
— Você gosta quando eu chego perto.
Theo quase derrubou o celular.
— Você é impossível.
— E você ainda tá aqui.
Maldito.
Eles não oficializaram nada no começo.
Não precisaram.
Foi acontecendo.
Gael esperando Theo depois do expediente.
Theo reclamando, mas entrando no carro mesmo assim.
Mensagens idiotas às duas da manhã.
“Você dormiu?”
“Não.”
“Pensei em você.”
“Infelizmente eu também.”
“Isso foi romântico.”
“Vai dormir.”
Cinco minutos depois:
“Boa noite, Theo ❤️”
E Theo ficava olhando a tela tempo demais antes de responder apenas:
“Boa.”
(mentiroso — ele sorria toda vez.)
O primeiro encontro “de verdade” aconteceu por acidente.
Ou quase.
Gael apareceu na porta do apartamento de Theo segurando uma sacola de comida e uma expressão absurdamente convencida.
— Vim te sequestrar.
— Não.
— Já comprei comida.
— Ainda não.
— Sobremesa também.
Theo hesitou.
— Você é manipulador.
— Você gosta.
Theo odiava o fato de gostar.
Acabaram num mirante simples, daqueles onde a cidade parecia um monte de luzes espalhadas no escuro.
Frio leve.
Silêncio confortável.
Uma caixa de batata frita dividida entre os dois.
Gael sentado perto demais.
De propósito.
— Então — ele falou depois de um tempo — isso aqui conta como encontro?
Theo mastigou devagar.
Pensou.
Tentou parecer indiferente.
Falhou.
— Talvez.
Gael sorriu.
— Legal.
Theo olhou de lado.
— Tá feliz demais.
— Porque você veio.
Aquilo acertou Theo desprevenido.
Direto.
Sem escudo.
Sem piada.
Gael dizia coisas simples como se fossem enormes.
E talvez fossem.
Theo desviou o olhar.
— Você fica estranho quando é fofo.
— Você fica bonito quando fica tímido.
— Eu vou embora.
Gael riu.
E então, sem fazer drama, apenas estendeu a mão.
Palma para cima.
Esperando.
Theo encarou.
— O que é isso?
— Sua mão?
— Ridículo.
Mas colocou a mão ali mesmo assim.
Os dedos se encaixaram.
Quentes.
Naturais.
Como se tivessem aprendido rápido demais o caminho um do outro.
Nenhum dos dois falou nada por alguns minutos.
Só ficaram olhando as luzes da cidade.
Até Gael quebrar o silêncio.
— Posso te pedir uma coisa?
Theo suspirou.
— Depende.
— Para de agir como se tudo entre a gente fosse acidente.
Theo virou o rosto.
Encontrou aqueles olhos atentos demais.
Gentis demais.
Sinceros demais.
Gael continuou, mais baixo:
— Eu gosto de você.
Simples assim.
Sem espetáculo.
Sem medo escondido em brincadeira.
Theo sentiu algo apertar no peito.
Porque era assustador.
Mas também… bom.
Ridiculamente bom.
— Você é muito direto — murmurou.
— E você foge muito.
Theo revirou os olhos.
Mas não soltou a mão dele.
Nem se afastou quando Gael encostou o ombro no dele.
Nem quando a cabeça dele repousou de leve contra sua.
Ficaram ali.
Silenciosos.
Até Theo falar quase num resmungo:
— Eu gosto de você também.
Gael virou tão rápido que quase tropeçou.
— Repete.
— Não.
— Theo—
— Cala a boca.
Gael começou a rir.
Aquele riso leve, feliz.
Então inclinou o rosto e deixou um beijo demorado na testa de Theo.
Calmo.
Carinhoso.
Sem pressa.
Theo congelou.
— Você acabou de me dar beijo de senhor de sessenta anos.
— Meu namorado reclamando já?
Theo travou.
Piscou.
— …namorado?
Gael ficou imóvel.
— Falei cedo demais?
Silêncio.
Theo olhou para as mãos ainda entrelaçadas.
Depois para ele.
Depois para o céu.
Depois bufou dramaticamente.
— Você é irritante.
Gael arregalou os olhos.
— Isso é um sim?
Theo puxou a gola do casaco dele, aproximando-o.
A testa encostando na dele.
— É um “para de me fazer repetir sentimentos”, idiota.
O sorriso de Gael ficou pequeno.
Suave.
Quente.
— Então você é meu?
Theo sentiu o rosto esquentar.
— Não fala assim.
— Então é sim.
Theo suspirou derrotado.
Mas não escondeu o sorriso dessa vez.
— Talvez um pouco.
E Gael parecia absurdamente feliz por causa de um “talvez”.
A porta do apartamento de Theo fechou com um clique baixo.
Silêncio.
O tipo confortável.
Novo.
Estranho.
Gael ainda estava encostado na parede da entrada, as mãos nos bolsos, aquele sorriso pequeno preso no rosto como se ainda estivesse processando alguma coisa.
Theo odiava admitir, mas estava nervoso.
Porque agora havia um nome.
Namorados.
A palavra parecia grande demais.
Pesada.
Íntima.
Bonita.
Assustadora.
E talvez fosse exatamente isso que o deixava inquieto.
Ele jogou a mochila no sofá, passou a mão no cabelo e tentou agir normalmente.
Falhou no segundo em que percebeu Gael olhando para ele de novo.
— Que foi? — perguntou.
Gael ergueu uma sobrancelha.
— Nada.
— Você tá olhando estranho.
— Tô olhando meu namorado.
Theo quase tropeçou no próprio pé.
— Para de falar assim.
Gael riu.
A risada baixa, leve.
Sem maldade.
Só diversão.
— Assim como?
— “Meu namorado.”
— Mas você é.
Theo apertou os olhos.
— Você gosta de me deixar desconfortável.
— Eu gosto de te ver corado.
Theo abriu a boca para retrucar.
Fechou.
Porque inferno.
Ele estava corado.
Idiota.
Gael se aproximou lentamente.
Sem invadir.
Sem aquela provocação exagerada de antes.
Só perto o bastante para existir ali.
Presença.
Calor.
Conforto.
Algo no peito de Theo relaxou sem pedir permissão.
— Ei — Gael disse, voz mais baixa. — Você tá pensando demais.
Theo suspirou.
— Talvez.
— Tá com medo?
A honestidade da pergunta desmontou qualquer defesa automática.
Theo desviou os olhos.
Olhou a cozinha.
A janela.
Qualquer coisa.
Menos ele.
— Não sei — admitiu por fim. — Acho que eu não sou muito bom nisso.
Gael inclinou levemente a cabeça.
— Nisso o quê?
— Gostar de alguém assim.
O silêncio que veio depois não foi pesado.
Foi calmo.
Gentil.
Gael apenas ficou ali.
Sem interromper.
Sem fazer piada.
Theo continuou antes de perder coragem.
— Tipo… eu não sou romântico. Não sei falar coisa bonita. Eu reclamo demais, fico irritado fácil e—
— Theo.
Ele ergueu os olhos.
Gael estava sorrindo.
Mas não daquele jeito debochado.
Era algo menor.
Mais quente.
Mais sincero.
— Você acha que eu gosto de você apesar disso?
Theo franziu a testa.
— O quê?
Gael deu um passo à frente.
Só um.
O suficiente.
— Eu gosto justamente disso.
Theo ficou quieto.
Gael continuou:
— Você acha que eu não percebo quando você me manda mensagem perguntando se cheguei em casa e finge que não tava preocupado?
Theo desviou o olhar.
— Ou quando você sempre separa o último brownie da cafeteria porque sabe que eu gosto?
Theo ficou vermelho instantaneamente.
— Ou quando você lembra exatamente como eu tomo café.
Silêncio.
Theo cruzou os braços.
Tentando recuperar algum orgulho.
— Tá, talvez eu seja minimamente suportável.
Gael soltou uma risada curta.
— Você é fofo.
— Não fala isso.
— Fofo.
— Gael.
— Muito fofo.
Theo empurrou o ombro dele.
Fraco.
Sem intenção real.
Gael segurou sua mão no meio do movimento.
Sem força.
Só segurou.
Como se fosse natural.
Os dedos quentes envolvendo os dele.
E pronto.
Lá estava aquela sensação outra vez.
A elétrica.
A silenciosa.
A que parecia acontecer mesmo quando ninguém fazia nada.
Só existia.
Entre eles.
Theo olhou para as mãos.
Depois para Gael.
E, num impulso, soltou:
— Você quer jantar?
Gael piscou.
— Isso foi um convite romântico?
— Não exagera.
— Theo me convidando pra jantar no apartamento dele…
— Cala a boca ou cancelo.
Gael sorriu imediatamente.
— Quero.
A cozinha virou um desastre em aproximadamente quinze minutos.
Theo cozinhava decentemente.
Gael não.
Gael era um problema.
Um caos.
Uma ameaça pública culinária.
— Você cortou tudo torto.
— Arte abstrata.
— Isso parece crime.
— Você é muito crítico.
Theo suspirou dramaticamente.
— Sai da frente antes que você mate a gente.
Gael não saiu.
Ao contrário.
Encostou no balcão.
Muito perto.
Observando.
— Você fica bonito cozinhando.
Theo continuou mexendo a panela.
— Você precisa urgentemente de um hobby.
— Tenho um.
— Qual?
— Você.
Theo virou tão rápido que quase derrubou a colher.
Gael estava sorrindo.
Mas o pior?
Parecia sério.
Theo odiava como aquilo mexia com ele.
Como qualquer frase simples dita por Gael parecia se instalar no peito e ficar ali.
Pesando.
Aquecendo.
Assustando.
Depois do jantar vieram pratos empilhados na pia, filme ruim na televisão e uma discussão absurdamente séria sobre qual sabor de sorvete era superior.
— Chocolate.
— Morango.
— Você tem gosto de criança.
— Você fala isso como se não colocasse cereal no sorvete.
Theo abriu a boca.
Fechou.
Gael apontou o dedo.
— AHA.
— Você me vigia?
— Eu presto atenção.
Aquilo.
De novo.
Sempre essas pequenas frases.
Pequenas demais.
Mas que acabavam enormes.
Porque Theo não lembrava da última vez que alguém prestou atenção.
De verdade.
Não o bastante para notar detalhes bobos.
Não o bastante para ficar.
A garganta apertou um pouco.
Talvez sem motivo.
Talvez com muitos.
Gael percebeu.
Claro que percebeu.
— Ei.
Theo piscou.
— O quê?
— Vem cá.
Ele não perguntou de novo.
Só abriu os braços.
Como se fosse óbvio.
Como se Theo já pertencesse ali.
Theo ficou alguns segundos parado.
Constrangido.
Desconfortável.
Mas cansado demais de fingir indiferença.
Então foi.
Devagar.
Sentando ao lado dele.
Gael imediatamente puxou Theo para perto.
Braço ao redor dos ombros.
Calor.
Cheiro de café e perfume.
Segurança.
Silêncio.
Theo tentou reclamar.
— Isso é meloso.
— Você não tá indo embora.
— Porque tô confortável.
— Então admite.
Theo bufou.
Mas não se afastou.
Nem quando a cabeça acabou encostando no ombro dele.
Nem quando Gael, distraidamente, começou a brincar com seus dedos.
Sem falar nada.
Só carinho silencioso.
E aquilo era talvez pior que qualquer provocação.
Porque Theo podia sobreviver à implicância.
Ao deboche.
Mas gentileza?
Gentileza desmontava ele.
A chuva começou do lado de fora.
Fraca.
Depois forte.
A cidade ficou abafada no som distante dos carros.
O filme continuava rodando sem atenção nenhuma.
Theo nem lembrava do enredo.
Porque em algum momento percebeu que Gael estava olhando para ele.
De novo.
Sempre olhando.
— Para.
— Você é bonito.
Theo revirou os olhos automaticamente.
Mas dessa vez sorriu sem querer.
— Você fala isso como se fosse uma descoberta científica.
— É observação diária.
Theo ficou em silêncio.
Então, mais baixo:
— Você também é bonito.
Gael congelou.
Literalmente.
— Espera.
— Não faz cena.
— Você me elogiou?
Theo já parecia arrependido.
— Eu retiro.
— Tarde demais.
Gael estava sorrindo como um idiota.
Um idiota feliz.
E aquilo…
Aquilo fez Theo rir.
De verdade.
Sem sarcasmo.
Sem defesa.
Uma risada leve.
Quente.
Gael ficou olhando como se tivesse encontrado alguma coisa rara.
— Você devia rir mais.
Theo estreitou os olhos.
— Você tá sentimental demais hoje.
— Culpa sua.
Silêncio outra vez.
Mas dessa vez diferente.
Mais íntimo.
Mais perto.
Gael ergueu a mão lentamente.
Esperou.
Theo não recuou.
Os dedos tocaram seu rosto de leve.
Afastando uma mecha bagunçada.
Devagar.
Cuidadoso.
Como se Theo fosse algo precioso e ele soubesse.
— Você sabe que eu gosto de você, né?
Theo engoliu seco.
Assentiu uma vez.
— Sei.
— Muito.
A garganta apertou outra vez.
Maldito.
Theo respirou fundo.
Olhou para ele.
E resolveu arriscar algo assustador.
Honesto.
— Acho que eu gosto muito de você também.
Gael ficou quieto por um segundo.
Dois.
Três.
Como se aquilo realmente tivesse acertado em cheio.
Então sorriu daquele jeito pequeno.
Quase vulnerável.
— Acho?
Theo revirou os olhos.
— Não estraga.
Gael riu baixinho.
Encostou a testa na dele.
Pertinho.
Sem pressa.
— Tá bom.
Ficaram assim.
Só respirando perto.
O mundo parecendo pequeno.
Seguro.
A chuva do lado de fora.
A luz baixa do apartamento.
As mãos entrelaçadas no sofá.
E Theo percebeu uma coisa assustadora:
Talvez estivesse feliz.
Feliz de um jeito simples.
Calmo.
Sem explosão.
Sem drama.
Só… certo.
Como chegar em casa depois de um dia ruim.
Como café quente em manhã fria.
Como alguém olhando para você e ficando.
Mesmo quando você era difícil.
Mesmo quando tinha medo.
Mesmo quando não sabia como dizer.
Gael quebrou o silêncio:
— Posso dormir aqui?
Theo olhou para ele.
Tentou parecer indiferente.
Falhou miseravelmente.
— Talvez.
Gael sorriu imediatamente.
— Isso quer dizer sim.
— Quer dizer que você roncar vai pra rua.
— Muito romântico.
— Não exagera.
Mas quando Gael entrelaçou os dedos nos dele outra vez, Theo não soltou.
Nem por um segundo.
Theo descobriu rapidamente uma coisa perigosa:
Gael era insuportavelmente doméstico.
Foi isso que percebeu às seis e quarenta da manhã, quando abriu os olhos ainda sonolento e encontrou um braço pesado atravessado na sua cintura.
Congelou.
Imóvel.
Confuso.
O cérebro funcionando devagar demais.
O quarto ainda estava meio escuro, a chuva da noite anterior deixara o ar frio, e Gael dormia profundamente ao lado dele como se tivesse pertencido ali desde sempre.
Cabelo bagunçado.
Respiração lenta.
Uma expressão tranquila que Theo nunca tinha visto.
Porque acordado, Gael estava sempre rindo, provocando, falando demais.
Dormindo…
Parecia vulnerável.
Bonito.
Ridiculamente bonito.
Theo fechou os olhos imediatamente.
Não.
Não.
Absolutamente não.
Ele não ia virar esse tipo de pessoa.
A pessoa que fica olhando alguém dormir.
Patético.
Virou para o lado.
Tentou voltar a dormir.
Falhou.
Porque Gael se mexeu.
E puxou Theo ainda mais para perto.
Como se fosse automático.
Instintivo.
A voz veio rouca, embolada de sono:
— Você tá quentinho…
Theo quase caiu da cama.
— Você tá acordado?!
Gael abriu um olho.
Só um.
Aparentemente sem vergonha nenhuma.
— Agora tô.
Silêncio.
Theo percebeu, tarde demais, a posição em que estavam.
Muito perto.
Pernas emboladas.
Respiração misturada.
O rosto de Gael perigosamente próximo.
— Você invade espaço pessoal dormindo — Theo murmurou.
Gael sorriu.
Ainda sonolento.
— Você não reclamou ontem.
Theo travou.
— Eu tava cansado.
— Você literalmente me puxou pelo moletom pra deitar mais perto.
Theo olhou para o teto.
— Vou fingir que você inventou isso.
Gael soltou uma risada baixa.
Aquela risada de quem estava feliz demais logo cedo.
E então, antes que Theo pudesse escapar, aproximou o rosto.
Muito perto.
Perto o bastante para o coração de Theo esquecer como funcionava.
— Bom dia, namorado.
Theo apertou os olhos imediatamente.
— Para de falar isso.
— Namorado?
— Esse tom.
— Ah…
Gael sorriu ainda mais.
— Bom dia, meu namorado rabugento.
Theo pegou um travesseiro.
Jogou na cara dele.
O problema foi que, depois disso, tudo começou a parecer perigosamente natural.
Natural demais.
Gael ficando depois do expediente.
Theo mandando mensagem quando ele demorava para responder.
Noites de filme ruim.
Discussões bobas sobre comida.
Braços roçando.
Mãos dadas sem perceber.
Uma intimidade construída sem anúncio.
Sem esforço.
Como água ocupando espaço.
Simplesmente aconteceu.
Na cafeteria, porém, virou um inferno.
Porque as pessoas perceberam.
Rápido.
Muito rápido.
— Então… — Clara, colega deles, apoiou os cotovelos no balcão — vocês finalmente pararam de fingir?
Theo quase derrubou uma xícara.
— Fingir o quê?
Ela apontou para Gael.
Que naquele exato momento chegava atrás de Theo, apoiando o queixo no ombro dele sem cerimônia.
— Isso.
Theo congelou.
Gael não.
Gael parecia absurdamente confortável.
— Bom dia, amor.
Theo virou lentamente.
— Você acabou de me chamar do quê?
— Amor?
— Na frente das pessoas?!
Gael piscou.
— Você prefere “razão da minha felicidade”?
Clara começou a rir tanto que precisou sair do balcão.
Theo sentiu o rosto esquentar.
Traidor.
Maldito rosto.
— Você tá fazendo isso de propósito.
Gael sorriu.
Sem culpa nenhuma.
— Cem por cento.
Naquela tarde, depois do expediente, Theo descobriu outra coisa.
Gael gostava de cuidar dele.
De formas pequenas.
Quase invisíveis.
Mas constantes.
Foi quando saíram da cafeteria e o vento frio bateu forte.
Antes mesmo de Theo reclamar, Gael já estava tirando o próprio casaco.
— Toma.
— Não preciso.
— Tá tremendo.
— Não tô.
Gael ergueu uma sobrancelha.
— Theo.
Silêncio.
Theo bufou dramaticamente.
— Você é irritante.
Mas vestiu o casaco.
Ainda quente.
Cheirando a café e perfume.
E alguma coisa apertou estranho dentro do peito.
Porque ninguém fazia essas coisas.
Ou talvez ninguém tivesse feito fazia tempo.
Gael percebeu o silêncio.
Claro que percebeu.
Sempre percebia.
— Ei.
Theo olhou.
— Você não precisa ficar desconfortável quando alguém cuida de você.
A frase veio calma.
Gentil.
Sem cobrança.
Sem pena.
Só verdade.
Theo ficou quieto.
Muito quieto.
Depois respondeu baixo:
— Ainda tô aprendendo.
Gael apenas segurou sua mão.
Entrelaçou os dedos.
Como se dissesse: tudo bem.
Sem precisar falar.
Na sexta-feira, aconteceu a primeira discussão.
Pequena.
Ridícula.
Mas real.
Porque Theo sumiu.
Não de propósito.
O celular descarregou, ele saiu direto para resolver um problema da faculdade e esqueceu completamente de avisar.
Quando chegou em casa, quase dez da noite, encontrou Gael sentado na escada do prédio.
Braços cruzados.
Expressão séria.
Séria de verdade.
Theo parou.
— O que você tá fazendo aqui?
Gael levantou imediatamente.
— Onde você tava?
A voz saiu baixa.
Mas tensa.
Theo franziu a testa.
— Resolvi umas coisas.
— Oito horas sem responder.
Silêncio.
Theo percebeu.
Ah.
Ele tava preocupado.
Muito.
Gael passou a mão no rosto, frustrado.
— Eu fui na cafeteria. Liguei. Mandei mensagem. Achei que tinha acontecido alguma coisa.
Theo abriu a boca.
Fechou.
Porque aquela preocupação parecia enorme.
Pesada.
Honesta.
— Meu celular morreu — disse enfim.
Gael respirou fundo.
Olhou para ele.
Ainda tenso.
— Você podia ter avisado depois.
Theo suspirou.
— Eu esqueci.
O silêncio ficou estranho.
Não agressivo.
Mas machucado.
Gael desviou os olhos.
— Tá.
Aquilo bateu errado.
Muito errado.
Porque Theo percebeu, de repente, que não queria ver aquela expressão nele.
Não queria.
Chegou mais perto.
Devagar.
— Ei.
Gael não respondeu.
Theo hesitou.
Então fez algo raro.
Algo difícil.
Segurou a mão dele primeiro.
— Desculpa.
Gael olhou surpreso.
Theo continuou:
— Eu não fiz por mal. Só… não pensei.
A tensão diminuiu um pouco.
Gael soltou o ar lentamente.
— Eu fiquei assustado.
Simples.
Cru.
Verdadeiro.
Theo engoliu seco.
— Desculpa por isso também.
Silêncio.
Depois Gael aproximou a testa da dele.
Cansado.
Baixo.
— Odeio me preocupar assim.
Theo respirou fundo.
Encostou o ombro no dele.
— Acho que isso significa que você gosta muito de mim.
Gael soltou uma risada pequena.
— Idiota.
— Mas você sorriu.
— Porque você é irritante.
Theo finalmente sorriu também.
Pequeno.
Quente.
E pela primeira vez em muito tempo, percebeu algo assustador:
Ele já estava começando a imaginar futuro.
Com alguém.
Com Gael.
E isso aterrorizava.
Mas também parecia… bom.
Ridiculamente bom.
Theo não percebeu exatamente quando aconteceu.
Talvez tivesse sido no dia em que começou a deixar uma escova de dentes extra no banheiro sem comentar nada.
Ou quando automaticamente comprava o café preferido de Gael no caminho para a cafeteria.
Ou talvez tivesse sido ainda antes.
No momento em que parou de estranhar uma mensagem de “chegou?” e passou a esperar por ela.
O problema era esse:
Gael estava se tornando rotina.
E Theo começava a suspeitar que rotina, às vezes, podia ser uma coisa perigosamente bonita.
Duas semanas depois do “namorado” oficialmente dito em voz alta, o apartamento de Theo já parecia dividido — ainda que ninguém tivesse decidido isso.
Havia um moletom preto enorme largado no sofá.
Uma caneca favorita misteriosamente ocupando espaço no armário.
Um carregador esquecido na tomada.
E Gael.
Sempre Gael.
Deitado atravessado na cama.
Falando alto na cozinha.
Cantando músicas horríveis enquanto fazia café.
— Você desafina de propósito? — Theo perguntou numa manhã, ainda meio sonolento.
Gael virou dramaticamente.
Mão no peito.
Ofendido.
— Meu talento é incompreendido.
— Seu talento é crime sonoro.
— Você ama meu crime sonoro.
Theo pegou a xícara.
— Infelizmente.
Gael congelou.
Theo percebeu tarde demais.
Merda.
Porque Gael ficou olhando para ele com aquela expressão insuportavelmente satisfeita.
— Você acabou de admitir afeto espontâneo.
— Não acostuma.
— Tarde demais.
Cinco segundos depois ele já estava abraçando Theo pela cintura na cozinha.
O rosto escondido no ombro.
Theo reclamando.
Sem realmente reclamar.
— Você tá muito grudento.
— Você tá muito confortável.
Theo odiava quando ele acertava.
A cafeteria virou território hostil.
Especialmente porque Clara havia transformado a relação dos dois em entretenimento diário.
— Apostei vinte reais que vocês iam ficar juntos — ela anunciou.
Theo quase engasgou com café.
— Você apostou o quê?
— Com metade da equipe.
Gael parecia encantado.
— Quanto tempo você deu pra gente?
— Três meses.
— Ela perdeu — Gael respondeu orgulhoso.
Theo esfregou o rosto.
— Isso é humilhante.
Clara apontou para os dois.
— Humilhante é vocês achando que escondiam alguma coisa. Vocês tinham química desde o primeiro dia.
Theo abriu a boca.
Gael sorriu.
— Eu sabia.
— Você sabia nada.
— Theo, você literalmente me encarava.
— Pra ver se você ia fazer besteira.
— Ah, então você observava bastante.
Clara saiu rindo antes que Theo jogasse alguma coisa em alguém.
Na sexta-feira, Gael apareceu no trabalho parecendo irritantemente bonito.
Mais do que o normal.
Jaqueta escura.
Cabelo bagunçado daquele jeito injusto.
Mangas dobradas.
Theo percebeu imediatamente.
Infelizmente.
Também percebeu outra coisa.
Uma cliente percebeu antes.
Ela sorriu para Gael.
Riu de algo que ele falou.
Encostou um pouco perto demais no balcão.
Theo observou da máquina de café.
Em silêncio.
Cinco minutos depois:
— Seu cappuccino.
Seco.
Curto.
A cliente piscou.
Gael olhou para Theo.
Depois para a cara fechada dele.
E começou a sorrir.
Aquele maldito sorriso.
Quando a mulher foi embora, ele se aproximou devagar.
Muito devagar.
Como alguém entrando num território perigosíssimo.
— Você tá bravo?
— Não.
— Tá parecendo bravo.
— Tô trabalhando.
Gael inclinou a cabeça.
Claramente se divertindo.
— Você ficou com ciúmes?
Theo quase derrubou um copo.
— O QUÊ?
Gael mordeu o lábio, segurando o riso.
— Você ficou.
— Não fiquei.
— Ficou sim.
Theo cruzou os braços.
— Vai trabalhar.
Gael aproximou o rosto.
Baixo.
Só para ele ouvir:
— Você sabe que eu gosto de você, né?
Theo congelou.
Idiota.
Maldito.
Gael continuou:
— Muito.
E saiu andando como se não tivesse acabado de bagunçar completamente o cérebro dele.
Naquela noite, Theo apareceu no apartamento de Gael sem avisar.
Sacola de comida na mão.
Cara fechada.
Gael abriu a porta confuso.
— Você invadiu minha casa?
— Trouxe jantar.
— Isso é pedido de desculpas pelo ciúmes?
Theo ficou imediatamente vermelho.
— EU NÃO TAVA COM CIÚMES.
Gael começou a rir.
Muito.
Demais.
Até precisar segurar na porta.
Theo empurrou o ombro dele.
— Para de rir!
— Você tá muito fofo bravo.
— Não me chama de fofo.
Gael segurou o rosto dele sem aviso.
Gentil.
Os polegares roçando de leve as bochechas quentes.
— Você é meu favorito, tá?
Silêncio.
Theo odiou o efeito da frase.
O peito apertando estranho.
Quente.
Ridículo.
— Você fala essas coisas do nada.
— Porque penso elas do nada.
Theo desviou os olhos.
Sempre fazia isso quando sentia demais.
Mas Gael já estava aprendendo.
Encostou a testa na dele.
Esperou.
Theo não fugiu.
Não dessa vez.
— Você também é meu favorito — murmurou baixinho.
Gael piscou.
Lentamente.
Como se estivesse absorvendo aquilo.
— Repete.
— Não exagera.
— Theo—
— Cala a boca.
Mas estava sorrindo.
E Gael viu.
Claro que viu.
Dias depois veio o primeiro encontro planejado de verdade.
Não improvisado.
Planejado.
Gael apareceu com uma expressão absurdamente orgulhosa.
— Tenho surpresa.
Theo imediatamente desconfiou.
— Odeio quando você fala isso.
— Confia.
— Nunca.
Ainda assim entrou no carro.
Quarenta minutos depois estavam numa praça alta da cidade, cheia de luzes pequenas penduradas entre árvores.
Música baixa ao longe.
Barracas de comida.
Ar frio.
Bonito.
Romântico demais.
Theo estreitou os olhos.
— Você pesquisou isso.
— Muito.
— Você é cafona.
— Você gosta.
Theo não respondeu.
Porque gostava.
Infelizmente.
Caminharam devagar.
Ombros encostando.
Dedos roçando até Gael simplesmente segurar sua mão como se fosse automático.
Nenhuma cerimônia.
Nenhuma pergunta.
Só naturalidade.
Em algum momento sentaram perto de um pequeno lago.
Silêncio confortável.
Gael olhando as luzes refletidas na água.
Theo olhando Gael.
Sem perceber.
— Você tá olhando de novo — Gael comentou sem virar.
Theo bufou.
— Convencido.
— Eu conheço essa cara.
— Que cara?
Gael finalmente olhou para ele.
Suave.
Pequeno sorriso.
— A cara de quando você gosta muito e tenta fingir normalidade.
O coração de Theo tropeçou.
Idiota.
Ele odiava como Gael enxergava demais.
— Você fala como se me conhecesse há anos.
— Acho que tô aprendendo rápido.
Silêncio.
Depois, mais baixo:
— Você fica quieto quando tá cansado. Mexe na manga do casaco quando tá nervoso. Finge que não gosta de carinho, mas sempre chega mais perto quando acha que ninguém percebe.
Theo ficou imóvel.
Porque—
Porque alguém estava prestando atenção.
De verdade.
Naquelas coisas pequenas.
Bobas.
Invisíveis.
E de repente aquilo parecia enorme.
Assustadoramente enorme.
— Você me observa muito — Theo murmurou.
Gael sorriu pequeno.
Quase tímido.
— Porque gosto de você.
Simples assim.
Sem peso.
Sem espetáculo.
Só verdade.
Theo olhou para o lago.
Respirou fundo.
Depois falou baixinho:
— Acho que ninguém nunca ficou tanto assim.
Gael franziu a testa.
— Ficou como?
Theo hesitou.
Difícil.
Mas falou mesmo assim.
— Prestando atenção.
A expressão de Gael mudou.
Ficou mais suave.
Mais cuidadosa.
Ele segurou a mão de Theo com um pouco mais de firmeza.
— Então vou continuar.
Theo olhou para ele.
A garganta apertando sem motivo justo.
Ou talvez com muitos.
Gael sorriu.
Pequeno.
Quente.
Seguro.
— Não pretendo ir embora tão cedo.
E, pela primeira vez, Theo acreditou em alguém quando dizia isso.