Existem três tipos de passageiros depois da meia-noite:
O bêbado emocionado.
O casal brigado.
E o homem misterioso que claramente matou alguém.
Adivinha qual entrou no meu táxi?
Exatamente.
O terceiro.
Eu tava parada tentando decidir se comprava um salgado murcho da padaria 24h ou se guardava o dinheiro pra pagar minhas dívidas igual uma cidadã minimamente responsável, quando um homem surgiu na frente do carro.
Do nada.
Alto. Roupa preta. Cara de quem não sorri nem em foto de documento.
E sangrando.
Muito.
Meu primeiro pensamento foi:
“Isso aí dá problema.”
O segundo foi:
“Infelizmente bonito.”
Porque Deus sabe que quando um homem é problema, ele vem com pacote premium.
O sujeito bateu no vidro.
Calmo.
Isso me irritou profundamente.
Gente inocente bate desesperada.
Criminoso bate tranquilo.
Abaixei só uma frestinha do vidro.
— Se for assalto, saiba que eu mesma tô precisando de dinheiro.
Os olhos escuros dele passaram pelo meu rosto devagar.
Sem expressão.
Credo. Parecia que tinha saído de um enterro milionário.
— Preciso de uma corrida.
Olhei pro sangue escorrendo da mão dele.
— E eu preciso de estabilidade emocional. Nem sempre a gente consegue o que quer.
Ele continuou me encarando.
Piscando devagar.
A calma desse homem tava me dando nos nervos.
— Abre a porta.
— Não.
— Por quê?
— Porque tu tá com cara de quem aparece no jornal borrado com a frase “suspeito perigoso”.
Silêncio.
A chuva caía pesada no para-brisa enquanto ele mantinha aquela cara de psicopata elegante.
Aí eu vi.
A arma na cintura dele.
Meu espírito saiu do corpo rapidinho, deu uma volta e voltou só pra sofrer mais.
— Ah. Tem uma pistola. Claro. Porque aparentemente o universo odeia minha paz.
— Você fala demais.
— E tu parece sequestrador de novela. Todo mundo tem defeito.
Do nada ele abriu a porta e entrou.
ENTROU.
Assim. Sem convite.
Fiquei indignada.
— Oxe? Isso aqui é um táxi, não adoção de criminoso perdido.
— Dirige.
Nossa.
Que vontade de jogar ele pra fora em movimento.
— Não gosto de homem mandão.
— Dirige.
— Não gosto de homem repetitivo também.
Ele fechou os olhos por um segundo, respirando fundo.
Cansado.
Bonito.
Irritantemente bonito.
Tipo homem que destrói teu psicológico e ainda sai da relação dizendo “você merece alguém melhor”.
Revirei os olhos e arranquei com o carro.
— Pra onde, assassino misterioso?
— Casa preta no fim da avenida.
— Nossa, super discreto. Só faltou dizer “leve-me ao covil da organização criminosa”.
Ele ignorou.
Claro que ignorou.
Homem bonito acha que silêncio é personalidade.
Olhei pelo retrovisor.
— Tá sendo perseguido?
— Sim.
— Perfeito. Era exatamente isso que faltava na minha rotina.
Dois carros apareceram atrás da gente.
Pretos.
Grandes.
Ameaçadores.
Meu Deus.
Minha mãe tava certa quando disse que eu precisava estudar pra concurso.
— Pisa fundo.
Olhei pra ele.
Depois pros carros.
Depois pra minha gasolina quase acabando.
— Querido, esse carro sofre pra subir ladeira. A única coisa que ele pisa fundo é no meu orçamento.
Os carros aceleraram.
Eu comecei a rir de nervoso.
Aquele tipo de riso que vem antes da pessoa enlouquecer.
— Sabe o que é pior?
— O quê?
— Eu tenho certeza absoluta que tu é problema… e mesmo assim tu continua bonito. Isso é falta de caráter da genética.
Pela primeira vez, o canto da boca dele subiu.
Um sorriso pequeno.
Frio.
Perigoso.
Infelizmente bonito de novo.
Ódio.
Muito ódio.