Ser autista é ouvir o mundo
com o volume além do normal.
É sentir a luz atravessando os olhos
como se cada brilho tivesse intenção.
É carregar universos inteiros
dentro de um silêncio confundido.
Enquanto tantos falam em linhas retas,
a mente dança em constelações.
Ser autista é detalhe.
A folha torta no canto da mesa,
o relógio respirando segundos,
o padrão escondido nas nuvens.
É amar profundamente
sem sempre encontrar o idioma exato.
Abraçar por dentro,
mesmo quando o corpo hesita.
Há dias em que o mundo pesa:
vozes, pressa, máscaras, expectativas.
Como andar descalço
sobre um chão feito de ruídos.
Mas também há beleza rara.
A honestidade sem enfeite.
A paixão intensa pelas pequenas coisas.
A coragem de existir diferente
num lugar que insiste em pedir cópias.
Ser autista não é ausência de sentir.
É sentir tanto
que às vezes transborda em silêncio.
E dentro desse silêncio
há galáxias inteiras acesas,
esperando alguém
que não queira consertá-las —
apenas enxergá-las.