À noite, quando o mundo adormece
e o silêncio encosta na janela,
eu escuto um chamado pequeno,
feito sino distante e vela.
Algo em mim deseja o convento,
a paz das manhãs em oração,
o vestido simples, o passo lento,
uma vida entregue ao coração.
Mas tenho medo do desconhecido,
do corredor frio, da solidão,
de deixar para trás meu nome antigo
e aprender outra direção.
Tenho medo de não ser forte,
de sentir saudade da rua,
de olhar para Deus tão de perto
e me descobrir.
Porque o novo assusta em segredo.
Ele chega sem pedir licença,
arrancando da gente os costumes
e testando toda crença.
Ainda assim, quando rezo baixo,
há uma calma que insiste em ficar,
como se dentro do medo
existisse também um lar.
Talvez coragem não seja ausência
desse tremor dentro do peito,
talvez seja apenas seguir
mesmo sem tudo estar perfeito.
E entre o desejo e o receio,
vou caminhando devagar,
com o coração nas mãos, pedindo:
“Deus, se for teu, me faz ficar.”