O Morro do Horizonte acordava antes do sol. Antes mesmo do primeiro ônibus descer rangendo a ladeira, antes das crianças correrem atrás de bola descalças e antes das mães abrirem as janelas pra gritar o nome dos filhos, o morro já respirava medo.
As vielas estreitas cheiravam a café forte, cigarro barato e pólvora velha.
E no topo de tudo aquilo, sentado na laje mais alta da comunidade, estava Davi.
Vinte e sete anos. Braços fechados de tatuagem. Corrente grossa no pescoço. Um corte recente na sobrancelha esquerda e um olhar cansado demais pra alguém tão novo.
Ele segurava uma pistola como quem segura um vício.
Não era ameaça. Era costume.
— Tá amanhecendo — murmurou Vinícius, o parceiro que fazia vigia ao lado dele.
Davi não respondeu.
Ficou observando o céu clareando devagar enquanto tragava o cigarro. O silêncio entre eles era comum. No morro, homem que falava demais geralmente não envelhecia.
Lá embaixo, a música de um baile ainda ecoava distante. Gente bêbada. Casal brigando. Moto cortando giro. Vida normal.
Ou pelo menos o mais perto do normal que aquele lugar conhecia.
— A polícia subiu ontem pela entrada três — Vinícius comentou. — Pegaram o Juninho.
Davi soltou a fumaça devagar.
— Ele abriu a boca?
— Ainda não.
— Então tá vivo.
Aquilo era verdade suficiente.
Davi se levantou da cadeira de plástico e olhou o morro inteiro diante dele. Cada barraco parecia carregar uma história triste presa nas paredes mofadas.
Ali ninguém sonhava alto. Porque o morro ensinava cedo que queda grande machuca mais.
Quando desceu a viela principal, todo mundo abaixava a cabeça.
Alguns por respeito. Outros por medo.
A maioria pelos dois.
Uma senhora puxou o neto pro canto quando ele passou. Dois adolescentes interromperam a conversa. Um homem desligou o rádio imediatamente.
Davi odiava aquilo.
Mas o medo era a única coisa que mantinha o controle vivo.
No meio da descida, ele ouviu alguém gritar:
— Ei! Vai olhando por onde anda, caralho!
Uma garota tinha trombado nele carregando duas sacolas de mercado. As frutas rolaram pelo chão.
Ela levantou os olhos irritados.
E Davi estranhou imediatamente.
Porque ninguém olhava nos olhos dele daquele jeito.
A garota tinha cabelo cacheado preso num coque bagunçado, blusa larga do Flamengo e uma expressão de quem estava cansada do mundo inteiro.
— Foi mal — ela disse seca, pegando as maçãs do chão.
Davi se abaixou pra ajudar.
— Você mora aqui? — perguntou.
— Infelizmente.
Ela tomou as frutas da mão dele.
— Valeu.
Virou as costas e saiu.
Sem medo. Sem reverência. Sem nada.
Vinícius apareceu atrás segurando o riso.
— Essa aí é doida.
— Quem é?
— Lara. Mora perto da subida da caixa d’água. Trabalha numa padaria lá embaixo.
Davi observou ela desaparecer na viela.
E pela primeira vez em muito tempo, alguma coisa tirou ele do automático.
—
Lara odiava o morro.
Odiava os homens armados nas esquinas. Odiava o som de tiro no meio da madrugada. Odiava crescer aprendendo a diferenciar rojão de fuzil.
Mas principalmente…
Odiava como o medo parecia normal pra todo mundo ali.
Ela chegou em casa cansada.
A mãe dormia no sofá com a televisão ligada num volume baixo. O ventilador velho girava fazendo barulho de motor quebrado.
Lara deixou as compras na cozinha e foi direto pro banho.
Enquanto a água gelada caía, ela pensava no homem tatuado da viela.
Davi.
Todo mundo conhecia aquele nome.
Era o tipo de cara que mães usavam pra assustar criança.
“Dorme senão o Davi te pega.”
Mas olhando de perto…
Ele parecia cansado. Vazio.
E aquilo incomodou ela mais do que deveria.
—
Dois dias depois, começou o inferno.
A polícia subiu o morro às cinco da manhã.
Tiro pra todo lado. Helicóptero. Gente correndo.
Lara acordou assustada com a mãe gritando no corredor.
— DEITA NO CHÃO!
As janelas tremiam.
Uma criança chorava desesperada na casa ao lado.
Lara se jogou atrás do sofá enquanto escutava rajadas ecoando perto demais.
Ela odiava aquilo.
Odiava viver sem saber se ia morrer antes do café da manhã.
No alto do morro, Davi coordenava os homens armado.
— Fecha a entrada dois! — gritou.
O coração dele batia acelerado, mas o rosto permanecia frio.
Anos naquilo ensinaram uma coisa:
Desespero mata mais rápido que bala.
Vinícius apareceu sangrando no braço.
— Eles tão entrando pela escadaria!
Davi puxou o carregador da pistola e respirou fundo.
Mais uma guerra. Mais um dia.
E no meio daquele caos, tudo que ele conseguia pensar era no olhar irritado da garota da padaria.
Como se ainda existisse alguém naquele lugar incapaz de ter medo dele.
—
A operação terminou horas depois.
Dois mortos. Três presos. Um garoto de quinze anos atingido na perna.
O morro inteiro ficou em silêncio depois.
Silêncio de luto.
Lara desceu até a venda pra comprar remédio pra mãe. As ruas estavam vazias. Marcas de tiro nas paredes. Sangue seco perto da escadaria.
Ela sentia raiva. Muita raiva.
Quando virou a esquina, encontrou Davi sentado sozinho numa mureta.
Sem arma na mão dessa vez.
Só um cigarro apagado entre os dedos.
— Feliz agora? — ela disparou.
Ele ergueu os olhos lentamente.
— O quê?
— Isso tudo. Tiro. Criança chorando. Gente morrendo. Deve ser lindo pra vocês.
Davi ficou em silêncio.
Lara riu sem humor.
— Vocês destroem o lugar onde nasceram e fingem que são donos dele.
Ele levantou devagar.
— Você acha que eu queria isso?
— E eu tenho cara de quem acredita em bandido arrependido?
Aquilo bateu nele mais forte do que deveria.
Porque no fundo… ela tava certa.
Davi se aproximou.
Não agressivo. Só cansado.
— O morro não dá escolha pra todo mundo.
— Dá sim — ela rebateu. — Só que vocês escolhem o caminho mais fácil.
Ele riu fraco.
Um riso vazio.
— Fácil?
Pela primeira vez, Lara percebeu as olheiras profundas, o corte mal cicatrizado, o jeito tenso dele olhar pros lados a cada cinco segundos.
Como um homem esperando morrer.
— Você não faz ideia do que tá falando.
Ela sustentou o olhar dele.
— Então me explica.
Mas Davi apenas virou as costas.
Porque não existia explicação bonita pra homens como ele.
—
Naquela noite choveu forte.
A energia caiu em metade do morro.
Lara estava fechando as janelas quando ouviu batidas desesperadas na porta.
Abriu assustada.
Era Vinícius.
Molhado de chuva. Sangrando.
— O Davi tomou tiro.
O coração dela travou.
— O quê?
— Preciso esconder ele. A polícia tá subindo de novo.
Ela devia mandar embora.
Devia fechar a porta.
Mas quando viu Davi apoiado no ombro do amigo, quase desmaiando de dor…
Não conseguiu.
—
Ele ficou no quarto dela.
A bala atravessou de raspão o lado do abdômen. Lara limpava o ferimento enquanto Davi cerrava os dentes em silêncio.
— Vai precisar de ponto.
— Já tive pior.
— Imagino.
Ela costurava o corte com mãos trêmulas.
Davi observava o rosto dela concentrado.
— Por que tá ajudando?
— Porque eu não sou igual vocês.
Aquilo arrancou um sorriso pequeno dele.
O primeiro verdadeiro em anos.
A chuva continuava pesada lá fora.
No quarto apertado, o mundo parecia distante por alguns minutos.
— Você tem medo de mim? — ele perguntou baixo.
Lara pensou antes de responder.
— Acho que tenho medo do que você virou.
Ele desviou o olhar.
Porque ninguém nunca tinha separado as duas coisas.
O homem. E o monstro.
—
Os dias passaram estranhos depois disso.
Davi começou a aparecer mais vezes na padaria.
Sempre inventando desculpas idiotas.
“Vim comprar água.” “Vim buscar cigarro.” “Vinícius pediu pão.”
Lara fingia não perceber.
Mas percebia.
E odiava perceber.
Porque quanto mais conhecia ele… mais difícil ficava odiá-lo completamente.
Davi contava histórias da infância no morro. Falava da mãe costureira. Do pai alcoólatra. Do primeiro dinheiro fácil. Da primeira arma aos treze anos.
— Depois disso já era — disse ele certa noite.
Eles estavam sentados numa laje vendo a cidade iluminada ao longe.
— Sempre dá tempo de sair.
Davi riu baixo.
— Você acha mesmo?
— Acho.
Ele olhou pra ela.
— E ir pra onde?
Lara não soube responder.
Porque o morro prendia as pessoas de formas diferentes.
Uns pela violência. Outros pela falta de esperança.
—
Mas felicidade no Horizonte durava pouco.
Sempre.
Numa madrugada abafada, Vinícius invadiu a casa de Lara desesperado.
— Deu merda.
Davi levantou imediatamente.
— Fala.
— O Caio entregou teu nome pra polícia.
O silêncio ficou pesado.
Caio era da própria facção.
Traidor.
Davi passou a mão no rosto devagar.
Lara sentiu o ar ficar frio.
— O que você vai fazer?
Ele respondeu sem emoção:
— O que precisa ser feito.
Ela entendeu na hora.
— Não.
— Lara…
— NÃO.
Davi pegou a arma em cima da mesa.
— Se eu não resolver isso, amanhã sou eu morto.
— Então vai embora daqui!
— Você acha que existe saída pra mim?!
Ela segurou o braço dele.
Os olhos cheios de raiva.
E medo.
— Existe se você parar de agir como eles.
Por alguns segundos, Davi hesitou.
Foi pequeno. Quase nada.
Mas hesitou.
E naquele mundo, hesitação custava caro.
Do lado de fora começaram os tiros.
Muitos.
Vidros quebraram. Gente gritando.
Vinícius puxou a arma imediatamente.
— INVADIRAM!
O caos explodiu.
Davi empurrou Lara pro chão enquanto disparos atravessavam as paredes da casa.
A guerra tinha chegado até eles.
—
Tudo aconteceu rápido demais.
Homens correndo pelas vielas. Rajadas intermináveis. Fumaça.
O morro inteiro parecia desabar.
Davi segurava Lara escondida atrás de uma parede.
—