Em um dia comum, sentado em um chão sujo e mal iluminado, Daniel escrevia em um livro velho.
"Essa é a história da minha vida. Estou sendo forçado a me casar com alguém que não amo nem conheço."
Ele parou por um instante, encarando aquelas palavras. Mentira. Aquela não era a vida dele. Poderia ser… mas não era. Ainda assim, de alguma forma, era a única história que ele queria viver.
Na cidade de Valença, entre mansões iluminadas e a pobreza extrema, havia um romance proibido que ninguém conhecia.
Um amor escondido entre dois mundos completamente diferentes.
Foi em uma dessas noites silenciosas que Daniel a viu pela primeira vez.
Beatriz caminhava pelo jardim de uma das maiores mansões da cidade, iluminada pelas luzes suaves que refletiam em seus cabelos.
Ela parecia distante… como se não pertencesse àquele lugar, apesar de tudo ao seu redor indicar o contrário.
Daniel a observava de longe, escondido entre as sombras.
Ele não sabia exatamente quando aquilo começou.Talvez tivesse sido naquele instante… ou talvez muito antes.
Desde então, Beatriz passou a fazer parte dos seus dias — e, principalmente, das suas noites.
Eles conversavam em silêncio, trocavam olhares que pareciam dizer tudo…
Ou pelo menos era assim que Daniel lembrava.
Em uma noite mais escura que o normal, Daniel a encontrou novamente no jardim.
Beatriz estava ali, como sempre… silenciosa, quase como se o esperasse.
— Você veio — ele disse, com a voz baixa.
Ela não respondeu. Apenas o olhou. Mesmo assim, Daniel sentiu como se aquilo fosse o suficiente.
Ele se aproximou devagar, o coração acelerado, como se cada passo fosse proibido.
Por um instante, tudo ao redor pareceu desaparecer — a cidade, as luzes, o mundo. Restavam apenas os dois.
Quando finalmente esteve perto, ele tocou levemente o rosto dela, hesitando.
Beatriz não recuou.
E então, como se aquele momento já estivesse escrito em algum lugar, ele a beijou.
Foi rápido… quase leve demais para ser real.
Quando se afastou, ela ainda estava ali — imóvel, silenciosa.
Daniel sorriu, acreditando que, finalmente, aquilo era real.
Dias depois, enquanto caminhava pelas ruas da cidade, Daniel ouviu vozes animadas vindas da parte mais rica de Valença.
Curioso, aproximou-se o suficiente para escutar: falavam sobre um casamento.
O nome da noiva foi dito entre risos e comemorações: Beatriz.
O coração dele pareceu parar por um instante.
Diziam que seria um grande evento, que ela se casaria com alguém de uma família importante. Daniel ficou em silêncio. Aquilo não fazia sentido.
Naquela mesma noite, ele voltou ao jardim, esperando encontrá-la como sempre.
— Isso é verdade? É verdade que você vai se casar? — perguntou, assim que a viu.
Beatriz não respondeu. Apenas o olhou, em silêncio.
E, pela primeira vez, aquele silêncio pareceu diferente.
Daniel franziu a testa, confuso.
— Beatriz… responde.
Mas o silêncio continuou. E pela primeira vez, aquilo o incomodou de verdade.
As palavras que haviam dito mais cedo voltaram à sua mente. O casamento. As comemorações.
Ele deu um passo para trás.
— Você… nunca falou comigo, não é?
O olhar dela não mudou. E, de repente, tudo pareceu estranho. Distante. Irreal.
Beatriz se virou para ir embora. Daniel tentou impedi-la.
— Beatriz! Espera! Volta! Beatriz! — mas ela não escutava.
Daniel nunca mais viu ela. Beatriz desapareceu.
Dias depois, em um momento qualquer, Daniel folheava distraidamente algumas coisas antigas quando encontrou uma fotografia. Na foto, havia uma amiga de infância.
Ele parou. Havia algo estranho.
O rosto… os olhos…
Era ela. Beatriz.
Confuso, tentou lembrar de onde a conhecia.
Mas, quanto mais pensava, mais tudo parecia distante… embaralhado.
Até que uma última lembrança surgiu. Um comentário antigo. Um acidente. Ela morreu anos atrás. Daniel deixou a fotografia cair. Beatriz estava morta.
Então… quem ele havia encontrado todas aquelas noites?