No espelho mora um silêncio estranho,
onde o olhar se perde antes de se achar,
e o corpo, às vezes, parece estranho
como se não soubesse onde se encaixar.
A insegurança sussurra baixinho,
comparando passos, pele, coração,
e a inveja veste o mesmo caminho
de querer ser outro, em outra versão.
A ansiedade bate sem bater na porta,
faz do pensamento um quarto apertado,
e tudo parece mais alto, mais torto,
mais difícil de ser respirado.
Mas então vem a música, leve, e encosta
como quem sabe exatamente onde dói,
e desfaz, pouco a pouco, a resposta
de tudo aquilo que a mente constrói.
Ela acalma o que em nós se desfaz,
não pede pressa, não cobra sentido,
só diz que existir já é ser capaz
de continuar mesmo em meio ao ruído.
E aos poucos o corpo deixa de guerra,
a mente aprende a desacelerar,
e a gente entende que até na terra
há flores que insistem em brotar.