Eu estava saindo da escola, com aquela sensação constante de estar sendo observada. Não era novidade. Já fazia semanas.
As pessoas passavam por mim normalmente, rindo, conversando, vivendo como se nada estivesse errado. Mas alguma coisa estava. Eu sentia. Era como um zumbido no fundo da cabeça, baixo, irritante… impossível de ignorar.
Quando cheguei em casa, tudo parecia… normal demais.
Luz acesa. Silêncio controlado. Cheiro de comida.
Meu pai estava no laboratório.
Claro que estava.
A porta estava entreaberta, e de dentro vinha aquele som que eu odiava… algo entre arranhões e um estalar úmido. Ele trabalhava com coisas vivas. Coisas que não deveriam estar ali.
Insetos. Ratos. Lagartixas. Às vezes pássaros.
Às vezes… coisas que eu não conseguia identificar.
Segurei a respiração e passei direto.
Minha mãe estava na cozinha, mexendo uma panela com movimentos lentos demais, como se estivesse… pensando em cada gesto.
— Olá, querida — ela disse, sem olhar pra mim. — Venha se sentar e comer um pouco. Você está muito desnutrida e precisa se alimentar direito.
A voz dela era doce. Doce demais.
— Oi, mãe… já estou indo. Só preciso trocar de roupa pra ir pro trabalho depois.
— Ok, querida.
Subi as escadas.
Cada degrau rangia como se estivesse avisando alguém.
Meu quarto estava exatamente como eu deixei. Arrumado demais. Eu não lembrava de ter organizado a cama.
Fechei a porta.
Tranquei.
E só então respirei.