O REENCONTRO
O vento de outono balançava as folhas secas na calçada de paralelepípedos. Luna parou em frente à velha livraria "Página Virada", ajustando o cachecol ao redor do pescoço. Há cinco anos ela jurara nunca mais pisar naquela cidade, muito menos naquele lugar. Mas a vida tem formas estranhas de nos trazer de volta ao passado.
Ao abrir a porta, um pequeno sino tocou. O cheiro de papel velho e café forte a invadiu, trazendo memórias que ela tentara apagar. E então, seus olhos encontraram os dele.
Elias estava atrás do balcão, exatamente como da última vez, mas com um ar mais sério, linhas de expressão profundas nos olhos castanhos. Ele congelou. A caneta que segurava caiu sobre o livro aberto.
— Luna? — sua voz era um sussurro, como se ele temesse que ela fosse uma miragem.
— Oi, Elias — ela disse, tentando soar calma, mas seu coração batia tão forte que doía no peito.
Eles foram o tipo de amor que os poetas escrevem: intenso, avassalador e, infelizmente, impossível. A diferença em seus sonhos e uma mágoa mal resolvida os separaram de forma dolorosa, sem despedidas adequadas. Agora, ali, o tempo parecia ter parado.
VELHAS CHAMAS
Nos dias que se seguiram, Luna não conseguiu evitar a livraria. Havia algo na calmaria daquele lugar e na presença de Elias que a fazia se sentir em casa, mesmo que doído. Eles começaram a conversar, primeiro sobre o tempo, sobre os livros, e depois, lentamente, sobre o que aconteceu.
Elias descobriu que ela se tornou uma pianista renomada, viajando pelo mundo, mas que sentia um vazio dentro de si. Luna descobriu que ele herdou a livraria do pai e que nunca conseguira se entregar a outro relacionamento.
— Eu esperei por você — confessou ele uma noite, enquanto fechavam a loja. A luz amarela do poste iluminava seu rosto. — Todos esses anos, eu esperei.
— Eu tinha medo, Elias. Medo de que o amor não fosse suficiente para manter nossos mundos diferentes juntos — admitiu ela, com os olhos cheios d'água.
O beijo que se seguiu não foi urgente ou desesperado como os de antes. Foi lento, doce e cheio de saudade. Era o reencontro de duas almas que pertenciam uma à outra.