A Deusa da Ansiedade acordou com o pulso frio.
Não o coração. O pulso. No braço esquerdo, onde a pele encontra o osso. Frio e vazio. Como se alguém tivesse aberto uma janela dentro dela.
Ela abriu os olhos. O teto do palácio estava lá. As colunas tortas. O mosaico quebrado no chão. Tudo no lugar dos últimos trezentos anos.
A mão esquerda dela estava transparente.
Ela levou a mão direita para tocar a esquerda. A mão passou pelos dedos. Atravessou.
Ah, ela disse.
Não foi um grito. Foi o som de alguém que entende uma conta que não fechava há séculos.
Ela levantou devagar. Os pés tocaram o chão frio. O palácio ecoou o barulho. Ninguém mais estava ali. Ninguém nunca estava.
Ela atravessou o salão principal. As paredes eram altas e descascadas. No lugar do trono, uma cadeira de madeira que ela mesma tinha achado num desmanche celestial há duzentos anos.
Na mesa, um prato vazio. Sempre vazio. Nenhuma oferta. Nenhuma vela acesa em seu nome. Nenhuma reza. Só aquelas que vinham sem querer, nos segundos de insônia ou no aperto no peito antes de uma prova. Ninguém falava o nome dela. Ninguém sabia que existia um nome para aquilo.
Ansiedade, ela murmurou. Soava como um diagnóstico. Não como uma deusa.
Ela fechou a mão transparente. A mão fechou. Mas ela não sentiu a palma tocando os dedos. Era como segurar ar.
Alguém bateu na porta.
Ela se virou. Ninguém batia na porta dela. Ninguém sabia onde ela morava. Ninguém queria saber.
A porta se abriu sozinha.
No batente, um homem alto. Roupas douradas. Pele que brilhava como se tivesse saído de um banho de luz. Ele nem entrou. Só inclinou a cabeça, como quem visita um cômodo que vai ser demolido.
Ahanix, ele disse.
Kael, ela respondeu.
Kael era o Deus da Certeza. Um dos grandes. Palácio de mármore. Fila de fiéis do lado de fora do céu só para deixar uma vela.
Você está sumindo, ele disse. Não era uma pergunta.
Eu percebi.
Sabe o que acontece quando um deus desaparece?
Some. Todo mundo esquece. Até eu mesma.
Não exatamente. Ele deu um passo para dentro. O chão rangeu. Quando um deus some, o conceito que ele carrega não desaparece. Fica órfão. Vira um fantasma. As pessoas continuam sentindo, mas não sabem o que é. Não conseguem nomear. Não conseguem lutar contra.
A ansiedade viraria um fantasma?
Viraria um monstro. Kael olhou para a cadeira de madeira. Para o prato vazio. Para a mão transparente dela. Sem ninguém para regular, ela cresceria sem freio. As pessoas começariam a morrer de medo do nada. O coração para. O cérebro trava. E ninguém saberia explicar por quê.
Por que você está me contando isso? Você nunca veio aqui antes.
Porque você é a única que pode impedir isso. Se sumir, todo mundo perde. Até nós.
Vocês nunca se importaram comigo.
Não. Mas nos importamos com o caos que vai sobrar.
Ahanix riu. Foi um riso seco e curto. O som ecoou nas paredes vazias.
Você quer que eu me salve para salvar vocês do trabalho.
Quero que você desça à Terra e consiga um fiel.
Ela piscou.
Um fiel.
Um. Só um. Não precisa ser uma multidão. Uma pessoa que reze para você pelo seu nome. Que entenda o que você é. Que escolha você. Ele tirou uma moeda cinza do bolso. Isso é um despertador de fé. Quando alguém rezar para você de verdade, a moeda esquenta. Quando esquentar, você volta. E não vai mais sumir.
E se eu não conseguir?
Você vai saber.
Ele colocou a moeda na mesa, ao lado do prato vazio. Depois saiu. A porta se fechou sozinha.
Ahanix ficou olhando a moeda por um longo tempo.
Ela nunca tinha descido à Terra. Quer dizer, já tinha descido. Mas não como alguém. Sempre como um sopro. Um arrepio na espinha. Um pensamento intrusivo. Ela era sentida, não vista.
Dessa vez, ela teria que ser vista.
Ela tocou a moeda. Estava fria.
Ahanix olhou para a própria mão transparente. Cinco dedos que ela mal sentia. O pulso vazio.
Um, ela sussurrou. Só preciso de um.
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Ela escolheu descer pelo Caminho dos Esquecidos.
Não era bonito. Não era confortável. Era uma fenda no céu onde a luz não chegava. Um corredor úmido que cheirava a terra molhada e tempo parado. Outros deuses usavam portais de luz. Ela não tinha portal de nada.
A queda durou três segundos. O impacto, zero.
Quando abriu os olhos, estava numa calçada.
Chovia fino. Um poste piscava do lado esquerdo. Do lado direito, uma placa enferrujada. Rua dos Afogados, 114.
Ninguém na rua. Ninguém nas janelas. Só o som da água descendo pela calha e o zumbido do poste.
Ela olhou para as próprias mãos. Estavam sólidas. Carne, osso, pele. Respirou fundo. O ar tinha gosto de concreto e gasolina.
Estou aqui, ela disse em voz alta.
Ninguém respondeu.
Ela começou a andar. A moeda no bolso continuava fria.
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Ela caminhou por quarenta minutos até encontrar o primeiro ser humano.
Foi num ponto de ônibus. Uma mulher encostada no poste. Mochila nas costas. Olhar perdido no meio da rua. Cabelo preso de qualquer jeito. A blusa amassada.
Ahanix parou a dois metros de distância.
Oi, Ahanix tentou.
Nada.
Eu sou a Deusa da Ansiedade.
A mulher continuou olhando para a rua.
Ahanix deu um passo mais perto. Nada. Outro passo. A mulher fungou, virou o rosto para o lado oposto e espirrou.
Saúde, disse Ahanix.
A mulher nem piscou.
Foi aí que ela entendeu. Humanos não podiam ver deuses. Não assim, em pé na calçada. Eles só sentiam. Só percebiam o efeito.
Ela suspirou. Fechou os olhos.
Se não podia ser vista, podia pelo menos ser sentida.
Ela se aproximou mais um passo. Encostou a ponta dos dedos na nuca da mulher.
Nada aconteceu.
A mulher pegou o celular, abriu um app, rolou a tela sem vontade.
Ahanix retirou a mão. A moeda continuava fria.
Isso vai ser mais difícil do que eu pensei.
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Ela passou o dia tentando.
Tentou num homem lendo jornal no banco da praça. Tocou no ombro dele. Ele coçou a orelha.
Tentou numa menina com fone de ouvido na escada do metrô. Tocou no pulso dela. Ela acelerou o passo sem saber por quê.
Tentou num senhor com bengala na fila da padaria. Tocou nas costas dele. Ele tossiu.
Nenhuma fé. Nenhuma reza. Só reações físicas. Espirros, arrepios, tosses, passos mais rápidos. A ansiedade agia, mas ninguém a nomeava.
No fim do dia, a moeda ainda estava fria.
Ahanix sentou num degrau de uma igreja desativada. Olhou para o céu. Lá em cima, o palácio vazio. A cadeira de madeira. O prato sem ofertas.
Eu vou sumir, ela disse.
Não era uma pergunta.
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No terceiro dia, ela encontrou Clara.
Foi num café pequeno, desses de esquina com cheiro de pão dormido e café requentado. Ahanix entrou pela porta dos fundos. Não que precisasse de porta. Ela só gostava do ritual.
Clara estava sentada na mesa do canto. Caderno aberto. Caneta na mão. O café na frente dela já devia estar frio há meia hora.
Ahanix se aproximou. Dessa vez, não tocou. Só observou.
Clara não escrevia. Ela olhava para a página em branco. A caneta tremia na mão. Não era frio. O café dela estava frio. A mão tremia por outro motivo.
Ahanix conhecia aquele tremor. Ela era aquele tremor.
Clara respirou fundo. Cinco vezes. Contou. Um, dois, três, quatro, cinco. Depois pegou o celular. Abriu uma lista de tarefas. Havia quatorze itens. Ela riscou um. Depois outro. Depois outro.
Mas não se levantou.
Ahanix se sentou na cadeira vazia em frente a Clara.
Clara não olhou para ela. Claro que não. Mas algo aconteceu. Clara levou a mão ao peito. Apertou a camisa onde o coração batia.
De novo, Clara sussurrou.
Ahanix inclinou a cabeça.
O que foi? ela perguntou, sabendo que não seria ouvida.
Clara fechou os olhos.
Eu sei que você está aí.
Ahanix congelou.
Não te vejo, Clara continuou, os olhos ainda fechados. Mas sinto. Você é aquela coisa que fica no fundo do meu peito. A que me faz revisar o e-mail quinze vezes antes de enviar. A que me faz acordar às quatro da manhã com o coração disparado porque eu sonhei que perdi um prazo.
Ahanix abriu a boca. Nenhum som saiu.
Clara abriu os olhos.
Eu não sei seu nome. Mas você existe.
A moeda no bolso de Ahanix esquentou.
Foi um calor pequeno. Minúsculo. Como um fósforo aceso no escuro. Mas esquentou.
Ahanix colocou a mão no bolso. Enrolou os dedos na moeda. Sentiu o calor.
Meu nome é Ahanix, ela disse.
Clara não ouviu. Mas algo mudou no rosto dela. O queixo, que estava travado, afrouxou um milímetro.
Ahanix, Clara repetiu, sem saber de onde tinha tirado aquela palavra. Estranho.
A moeda esquentou mais um pouco.
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Ahanix não saiu do lado de Clara nos dias seguintes.
Ela aprendeu os rituais. O café sempre no mesmo horário. A lista de tarefas todas as manhãs. As três verificações na porta antes de dormir. O trajeto exato entre a faculdade e a casa. Sem desvios. Sem atalhos. Sem surpresas.
Clara não vivia. Clara controlava.
E Ahanix percebeu algo que nunca tinha percebido antes. Ela não era o controle. Ela era o que vinha depois do controle falhar.
Quando a lista de tarefas estava completa e ainda assim Clara não conseguia dormir, aquilo era Ahanix.
Quando Clara revisava o e-mail pela décima sexta vez porque a décima quinta ainda parecia errada, aquilo era Ahanix.
Quando Clara ficava em casa porque o trajeto seguro tinha um buraco na calçada e o buraco era uma variável imprevisível, aquilo era Ahanix.
Ela era o medo do que não se pode prever.
E pela primeira vez, ela sentiu vergonha disso.
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No quinto dia, Clara teve uma crise.
Ahanix já tinha visto crises antes. De longe. Sentidas como ondas. Mas nunca de dentro.
Começou no supermercado. Clara foi comprar arroz. O arroz acabou. A prateleira estava vazia. Só isso. Uma prateleira vazia.
Clara parou no corredor. O carrinho na frente dela. A mão no cabo.
Ela não chorou. Não gritou. Ela simplesmente travou.
A respiração ficou curta. Os dedos brancos de força no plástico do carrinho. O olhar fixo na prateleira vazia como se ali estivesse escrito o fim do mundo.
Ahanix viu o peito de Clara subir e descer rápido demais. Viu o suor fino na testa. Viu o tremor nos lábios.
Ela podia fazer algo. Sempre podia. Ela podia apertar o botão do medo e fazer Clara sair correndo do mercado. Podia aliviar a pressão e fazer Clara desmaiar ali mesmo para não sentir mais nada.
Mas ela não fez nada.
Ela só ficou ao lado de Clara. Esperando.
Clara levou dois minutos para sair do lugar. Dois minutos inteiros. Ela respirou fundo cinco vezes, igual fazia no café. Depois soltou o carrinho. Pegou o celular. Abriu um app de respiração. Seguiu as bolinhas que subiam e desciam.
Inspira. Expira.
Ela não comprou o arroz. Saiu do mercado de mãos vazias.
Na calçada, Clara encostou no muro. Fechou os olhos.
Eu quase corri, ela sussurrou. Quase larguei tudo ali.
A moeda no bolso de Ahanix queimou.
Não era mais um fósforo. Era uma brasa.
Por que você não correu? Ahanix perguntou, mesmo sabendo que Clara não ouviria.
Clara abriu os olhos.
Porque se eu correr toda vez que o mercado estiver sem arroz, eu não vou comer nunca mais.
Ahanix sentiu algo estranho no peito. Algo que ela não conseguia nomear. Não era ansiedade. Era outra coisa.
Ela tocou a própria mão. A mão esquerda, que estava transparente no céu. Agora era sólida.
A moeda esquentou mais.
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No sétimo dia, Clara quebrou um ritual.
Ela não fez a lista de tarefas pela manhã.
Simplesmente acordou, olhou para o teto e ficou lá. Deitada. Dez minutos. Vinte. Meia hora.
Ahanix estava sentada na borda da cama. Observando.
O que você está fazendo? ela perguntou.
Clara suspirou. Levantou. Escovou os dentes. Vestiu a mesma calça jeans de sempre. Mas não abriu o caderno. Não escreveu nada.
No café, ela pediu um pão de queijo a mais. Comeu devagar. Olhou pela janela.
Ahanix nunca tinha visto Clara comer devagar. Clara sempre comia rápido, de pé, com os olhos no relógio.
Estou tentando uma coisa nova, Clara disse para ninguém. Para o ar. Para a xícara vazia. Estou tentando não planejar tanto.
Ahanix prendeu a respiração.
Por quê? ela perguntou.
Clara coçou a nuca.
Porque planejar demais me cansa. E no fim, o que vai acontecer vai acontecer de qualquer jeito. Eu posso ter vinte rotas alternativas. Se o ônibus quebrar, quebrou.
A moeda agora estava quente. Não queimava. Aqueceu o bolso inteiro de Ahanix.
Ela colocou a mão ali. Sentiu o metal contra a pele.
Você está mudando, Ahanix disse.
Clara riu sozinha.
Tomara.
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Na noite do nono dia, Clara não conseguiu dormir.
Ahanix sabia que isso acontecia. O cansaço acumulado. A mente que não desliga. O coração que acelera sem motivo. Ela já tinha causado isso milhares de vezes em milhares de pessoas.
Mas daquela vez foi diferente.
Clara não ficou no escuro revirando pensamentos ruins. Ela levantou. Acendeu a luz. Pegou um caderno novo, desses de capa dura, comprado há meses e guardado para uma ocasião especial.
Ela escreveu uma carta.
Não era para ninguém. Era para quem quer que esteja aí.
Ahanix leu por cima do ombro.
"Eu não sei o que você é. Se é um desequilíbrio químico, se é um deus, se é só uma parte de mim que veio para ficar. Mas eu quero tentar uma coisa nova. Eu quero parar de lutar contra você. Eu quero aprender a te usar."
Ahanix afastou o rosto da carta. Os olhos ardiam.
Deuses não choravam. Pelo menos ela achava que não.
Mas havia algo quente descendo pelo seu rosto.
Clara, ela sussurrou.
Clara parou de escrever.
Ahanix, ela respondeu.
Dessa vez, não foi um eco. Não foi um palpite. Foi um nome. Certeza.
A moeda explodiu de calor.
Ahanix colocou a mão no bolso. A moeda estava branca. Brilhava através do tecido da calça. O calor subiu pelo braço, entrou no peito, desceu pelas pernas.
Ela sentiu cada parte do próprio corpo.
A mão esquerda. O pulso vazio que agora se enchia. Os dedos que agora tocavam de verdade.
Você rezou para mim, Ahanix disse.
Clara colocou a caneta no caderno.
Não foi uma reza. Foi um acordo.
Ahanix olhou para as próprias mãos. Sólidas. Quentes. Vivas.
O que você quer em troca? Ahanix perguntou. Todo deus sabia que fé não vinha de graça.
Clara pensou por um momento.
Quero que você pare de me assombrar.
Não posso. Eu sou o assombro.
Então me ensina a usar você.
Ahanix nunca tinha ouvido esse pedido. Nenhum humano tinha pedido isso antes. Todos queriam menos ansiedade. Menos medo. Menos pensamentos. Clara queria aprender a usar.
Você não sabe o que está pedindo, Ahanix disse.
Você não sabe o que eu já aguentei, Clara respondeu.
A moeda esfriou um pouco. Mas não apagou. Continuou brilhando no fundo do bolso.
Ahanix se sentou na beirada da cama. Ao lado de Clara.
Vamos tentar, ela disse.
Clara não ouviu. Mas sorriu.
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Nos dias seguintes, algo mudou no céu.
Os outros deuses sentiram primeiro. Kael, Deus da Certeza, acordou com um tremor no trono. Foi até a janela do palácio. Olhou para a periferia celestial, onde os deuses esquecidos viviam.
O palácio de Ahanix estava brilhando.
Não era um brilho forte. Era fraco, pálido, como vela em dia de sol. Mas brilhava. Depois de séculos de escuridão.
Kael sorriu.
Ela conseguiu, ele disse para ninguém.
Embaixo, na Terra, Clara estava no café da esquina. Caderno aberto. Caneta na mão.
Ela não estava escrevendo uma lista de tarefas.
Estava desenhando.
Um prédio. Não um prédio qualquer. Um prédio com janelas tortas, portas em lugares errados, escadas que não levavam a lugar nenhum.
É a minha cabeça, Clara explicou para a atendente que trouxe o café. Resolvi botar no papel.
A atendente riu sem entender.
Clara continuou desenhando.
Ahanix estava ao lado dela. Não tocando. Só olhando.
Ela sentiu o peito de Clara. Estava acelerado. Mas não era desespero. Era outra coisa. Era energia.
Você está com medo? Ahanix perguntou.
Clara não ouviu a pergunta. Mas respondeu sozinha, em voz alta, como se tivesse ouvido.
Estou. Mas estou desenhando mesmo assim.
A moeda no bolso de Ahanix esquentou. Não queimou. Aqueceu devagar, como um abraço.
Ela entendeu, naquele momento, o que sempre deveria ter entendido.
Ela não era o problema.
O problema era ser sentida sem ser nomeada. Era existir sem ser escolhida. Era ser um monstro só porque ninguém se sentava para perguntar o que ela queria, afinal.
Ela não queria paralisar ninguém.
Ela queria ser um sinal.
Um alerta amarelo. Um cuidado antes da queda. Um respira antes do desespero.
E Clara tinha ensinado isso a ela sem querer. Só existindo. Só desenhando o medo em vez de correr dele.
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No décimo terceiro dia, Ahanix sentiu o chamado.
O céu puxava ela de volta. Não com violência. Com uma corda invisível no peito.
Ela sabia que tinha que ir. Mas antes, ela fez uma coisa que nenhum deus tinha feito antes.
Ela se ajoelhou.
Não para Clara. Para si mesma.
Colocou a mão no chão. Sentiu o asfalto frio, a terra embaixo, as raízes das árvores, o magma lá no fundo.
Eu não vou mais fugir de mim, ela sussurrou.
Quando levantou, a mão esquerda brilhava. Não era transparente. Era sólida. E tinha uma luz própria. Fraca. Mas própria.
Clara estava na janela do apartamento, no quinto andar. Não via Ahanix. Mas sentiu algo.
Colocou a mão no peito. O coração acelerou.
Ela não lutou contra a aceleração. Não respirou fundo. Não fez lista. Não contou até cinco.
Ela só ficou ali. Sentindo.
Tudo bem, ela disse. Pode ficar.
Ahanix ouviu lá de baixo.
A moeda no bolso dela brilhou uma última vez. Depois se apagou.
Não porque a fé tinha acabado. Porque não precisava mais de aviso.
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Ela voltou ao céu pelo mesmo Caminho dos Esquecidos.
Mas o caminho não estava mais escuro.
As paredes de terra agora tinham frestas de luz. Pequenas. Irregulares. Como se alguém tivesse aberto buracos na escuridão com uma agulha.
Quando ela chegou ao topo, o palácio continuava lá. As colunas tortas. O mosaico quebrado. A cadeira de madeira.
Mas tinha uma coisa diferente.
Na mesa, ao lado do prato vazio, havia um desenho.
Uma folha de caderno amassada. Dobrada em quatro. Alguém tinha colocado ali enquanto ela estava fora.
Ahanix abriu o papel.
Era o desenho do prédio de janelas tortas. O mesmo que Clara tinha feito no café.
No canto inferior direito, uma frase escrita com caneta azul.
"Obrigada por ficar."
Ahanix segurou o papel com as duas mãos.
A mão esquerda não estava mais transparente. Nunca mais estaria.
Ela sentou na cadeira de madeira. Colocou o desenho no colo. Olhou para o prato vazio.
Continuava vazio. Mas ela não sentiu fome.
Pela primeira vez em séculos, ela não estava sozinha.
Não porque tivesse visitas. Não porque tivesse ofertas. Não porque o palácio estivesse cheio.
Ela não estava sozinha porque alguém, em algum lugar, tinha olhado para o próprio medo e dito fica, vamos tentar juntos.
E aquilo, para uma deusa da ansiedade, valia mais do que qualquer multidão de joelhos.
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Lá embaixo, Clara fechou o caderno.
Guardou a caneta.
Olhou para a janela. O sol estava nascendo. O céu estava cor de laranja e cinza.
Ela não fez lista. Não planejou o dia. Não revisou o e-mail quinze vezes.
Ela só colocou o tênis e saiu.
A rua estava cheia de gente. Barulho. Carros. Gritos. Tudo que normalmente a faria voltar para casa.
Dessa vez, ela andou.
Não correu. Andou.
O coração acelerou no meio da travessia. Ela sentiu. Respirou uma vez. Continuou.
No outro lado da rua, ela parou. Olhou para trás.
Eu fiz, ela disse em voz alta.
Ninguém respondeu.
Mas em algum lugar, lá no alto, em um palácio de colunas tortas, uma deusa sorriu.
E o despertador de fé, agora apagado e frio, guardava na memória o calor de uma única oração.
Obrigada por ficar.
FIM