A casa não tinha espelhos.
Não era por superstição… era por necessidade.
No início, ninguém achava estranho. A casa era antiga, madeira rangendo como se tivesse segredos presos nas juntas, cortinas pesadas que bloqueavam a luz como um pulmão que se recusa a respirar. Mas com o tempo, as visitas começaram a perceber: não havia um único reflexo. Nem no vidro das janelas. Nem na água dos copos. Nem mesmo nas pupilas dele.
Ele dizia que era mais confortável assim.
— Reflexos distorcem quem somos — murmurava, com um sorriso fino demais para ser sincero.
O nome dele era Elias.
Elias era… educado. Gentil. Sempre sorrindo. O tipo de pessoa que segura a porta, que oferece chá, que escuta em silêncio. Mas havia algo estranho na forma como ele olhava. Não para você — através de você. Como se estivesse medindo o peso da sua alma, calculando quanto ela valeria se fosse desmontada em partes.
A primeira pessoa que percebeu foi Clara.
Ela estava sentada na sala, segurando uma xícara que tremia levemente entre os dedos. Não por medo. Ainda não. Era só uma sensação… uma coceira na mente.
— Elias… — ela chamou. — Por que você nunca aparece nas fotos?
Ele parou.
Por um segundo.
Só um segundo.
Mas foi o suficiente.
— Eu apareço — respondeu, com calma demais.
Clara franziu a testa.
— Não… eu vi. Nas fotos antigas da casa. Você está sempre lá, mas… — ela hesitou — …sem rosto.
O silêncio caiu pesado, como um corpo sem vida sendo jogado no chão.
E então Elias sorriu.
Mas não com a boca.
Foi um sorriso que começou nos olhos… ou melhor, no vazio onde algo deveria existir.
— Clara… — ele disse, caminhando lentamente até ela — …você já percebeu como é fácil confundir memória com imaginação?
Ela tentou rir. Falhou.
— Isso não é engraçado.
— Eu não estou brincando.
A xícara caiu da mão dela. O chá se espalhou pelo chão… e por um instante, Clara viu algo no líquido.
Um reflexo.
O rosto de Elias.
Finalmente.
Mas não era um rosto.
Era… errado.
A pele parecia costurada, como pedaços de outras pessoas mal encaixados. Os olhos eram fundos, fundos demais, como buracos que sugavam luz. E a boca… a boca se abria além do possível, cheia de dentes que não combinavam entre si.
Clara gritou.
Quando levantou os olhos… Elias estava normal de novo.
— Viu? — ele disse suavemente. — Reflexos distorcem.
Ela tentou correr.
Não conseguiu.
O corpo não respondeu.
Elias ajoelhou na frente dela, tão próximo que ela podia sentir a respiração dele… fria, seca, como ar de um lugar onde nada vive há muito tempo.
— Sabe qual é o problema das pessoas, Clara?
Ela não respondeu. Não conseguia.
— Vocês acreditam que são únicas.
Ele tocou o rosto dela com delicadeza.
— Mas são tão… reutilizáveis.
O sorriso dele cresceu.
Dessa vez, sem esconder.
— Eu não preciso de espelhos — ele sussurrou. — Eu faço os meus.
A luz da casa piscou.
Uma vez.
Duas.
Quando voltou… Clara não estava mais lá.
Mas, dias depois, uma nova fotografia apareceu na parede da sala.
A casa.
A cadeira.
E Elias.
Com um rosto… quase perfeito.
Quase.
Se alguém olhasse bem de perto, notaria algo estranho no sorriso.
Como se uma parte dele ainda estivesse tentando gritar.
FIM!