Asas Queimadas
O ferro frio das correntes pesadas mordia a minha pele de uma maneira quase que dolorosa, queimando cada centímetro como se fosse um aviso de que o mundo que eu conhecia acabou o momento que vim parar nas suas mãos. Respirei profundamente, tentando de algum jeito encontrar um alívio, mas o ar vem tão pesado, impregnado com o perfume dele, e um cheiro estranho, mas ao mesmo tempo viciante de madeira queimada, couro e algo metálico que lembrava sangue. E como se fosse um veneno doce intoxicante, impossível de ignorar, que me envolve lentamente como se fosse uma teia e deixa a minha mente zonza. Cada pequena respiração parece arrancada de mim por forças invisíveis cada movimento e acompanhado pelo eco distante de correntes e pelos meus próprios pensamentos que gritavam que eu não deveria sentir nada além de medo, mas o meu corpo idiota trai a razão, e começa a tremer em antecipação, em tensão e em algo que eu ainda não tenho coragem de nomear. Lentamente ele se aproxima cada passo seu é medido e calculado, com a certeza de um predador que conhece a sua presa desde sempre, e sabe exatamente o que fazer para dominá-la. O som de suas botas contra o chão ecoa pelo espaço vazio, cada estalo é uma sentença, cada vibração no mármore ressoando nos meus ossos e me lembrando que não há escapatória. Sinto cada um dos seus movimentos antes mesmo dele sequer tocar em mim, e a antecipação faz o meu coração disparar, cada batida e quando comum tambor que anuncia o meu destino eminente. A sombra que ele projeta parece-se estender sobre mim, me engolindo por completo, e não há lugar no mundo que eu possa me esconder, nenhum canto é seguro, nenhuma saída que me devolva a liberdade que eu ainda acreditava ter. — Eu avisei — sua voz grave corta o silêncio, carregada de promessa e ameaça — asas não foram feitas para voar. Foram feitas para serem queimadas — e cada palavra pesa sobre mim como uma sentença definitiva. Um calafrio percorre o meu corpo por inteiro, quero odiar ele, quero gritar, quero arrancar essas correntes e correr até não poder mais, mas no momento que os seus dedos tocam o meu rosto, com firmeza, possessivos e marcando território como se ele já fosse o dono da minha pele, algo estranho e perigoso desperta em mim. Uma parte de mim arde, queimando em um fogo que não deveria sequer existir, e eu sinto desejo, confusão, medo e fascínio se misturarem de uma forma que me deixa totalmente impotente, vulnerável, e ainda assim extremamente entregue…