Gaya Santoro era linda. Uma daquelas mulheres que a gente olha duas vezes na rua, que chamam a atenção sem esforço, que parecem saídas de um sonho.
Luisa Méndez fora bonita, sim. Atraente, até. Mas nunca fora isso. Nunca tivera essa beleza etérea, essa juventude radiante.
E, no entanto, enquanto segurava o espelho, a única coisa em que conseguia pensar era: quanto isso terá custado? Porque mulheres como Gaya, mulheres criadas para ser belas e dóceis, sempre pagavam um preço. E o preço de Gaya fora sua vida.
—O que aconteceu? — perguntou, baixando o espelho e cravando seus novos olhos verdes em Pauline. — Quero saber exatamente o que aconteceu.
A mulher hesitou, olhando para o médico como quem pede permissão.
—Senhora, talvez a senhora devesse descansar um pouco mais antes de…
—Pauline. — O nome saiu de seus lábios com naturalidade, como se sempre o tivesse dito. — Faz um ano que moro naquela casa, como naquela mesa, durmo naquela cama. Acho que mereço saber o que me aconteceu.
Pauline piscou, surpresa. Provavelmente não era a Gaya que conhecia. A Gaya que conhecia era submissa, calada, uma mulher que concordava com tudo e nunca levantava a voz. Mas essa mulher que agora ocupava seu corpo... essa mulher era diferente.
—O médico disse que foi uma reação alérgica a amêndoas — disse Pauline devagar. — A senhora é alérgica, senhorita, sabe bem disso. Sempre tem muito cuidado com o que come, sempre confere os rótulos, nunca prova nada sem se certificar antes. Mas ontem... ontem no almoço, alguém preparou uma salada com molho de amêndoas.
—Quem?
—Não sei, senhorita. O almoço foi preparado pela cozinheira, mas ela jura que não usou nenhuma oleaginosa. Diz que tem muito cuidado porque sabe da sua alergia.
A cozinheira. Luisa lembrava da cozinheira da sua época, uma mulher mais velha chamada Consuelo que fazia as melhores enchiladas do mundo. Mas tinham se passado cinco anos. Provavelmente já não trabalhava mais lá.
—E meu autoinjetor? — perguntou, lembrando das imagens de Gaya procurando desesperadamente na bolsa. — Sempre levo um comigo.
Pauline baixou o olhar.
—Não estava na sua bolsa, senhorita. Disseram que... que a senhora tinha usado na semana passada, quando teve uma reação leve por engano, e que esqueceu de repor.
Luisa cerrou os dentes. Ela ouvira essa mesma desculpa cinco anos atrás. "Sua epinefrina não estava, Luisa, você não tinha usado uns dias atrás e esqueceu de repor?" E ela, em sua agonia, quisera gritar que não, que não tinha usado, que alguém a tirara de sua bolsa. Mas as palavras não saíam, os pulmões não funcionavam, e depois veio a escuridão.
Vanesa era meticulosa. Vanesa planejava com cuidado. Vanesa nunca deixava pontas soltas.
—Entendo — disse, com uma calma que não sentia. — E quem me trouxe ao hospital?
—O senhor Sebastián, senhorita. Chegou bem na hora em que a senhora... em que a senhora começou a sufocar. Tinha um autoinjetor no carro, daqueles de emergência, e aplicou na senhora. Depois trouxe a senhora correndo para cá.
Sebastián. O herói que chega bem na hora de salvar a esposa. Que bela história. Que comovente. Pena que não estivera lá para salvá-la. Pena que chegara depois, quando já era tarde demais.
Mas espere. Sebastián tinha um autoinjetor no carro. Sebastián, que não era alérgico a nada. Sebastián, que pelo que ela lembrava, nunca precisara usar um na vida. Por que carregaria um autoinjetor no carro?
A não ser que alguém tivesse sugerido que levasse. A não ser que alguém tivesse mencionado, casualmente, que nunca se sabe quando pode fazer falta. A não ser que…
—Preciso falar com meu marido — disse, afastando os lençóis e tentando se sentar. O mundo girou e Pauline correu para ampará-la.
—Senhorita, a senhora não pode se levantar! Ainda está muito fraca…
—Estou bem. — Mas não estava. Suas pernas — as pernas longas e esguias de Gaya — tremiam como as de um cervo recém-nascido. Havia algo mais, também. Uma fraqueza profunda, como se seu corpo estivesse lutando contra algo além de uma reação alérgica.
—Senhora Guillén — interveio o médico com seu tom profissional —, seu corpo passou por um estresse imenso. Precisa de pelo menos mais vinte e quatro horas de observação. Além disso, queremos fazer alguns exames. Os resultados do hemograma mostram algo... incomum.
Luisa ficou tensa.
—Incomum? O que o senhor quer dizer?
O médico hesitou, como se não quisesse alarmá-la.
—Há certos marcadores que não batem com uma simples reação alérgica. Nada grave, talvez, mas preferimos nos certificar. A senhora notou sintomas estranhos nas últimas semanas? Cansaço excessivo, dores de cabeça, visão embaçada?
As imagens de Gaya passaram rapidamente por sua mente. Cansaço, sim. Um cansaço constante que Gaya atribuía ao estresse de se adaptar à nova família. Dores de cabeça, também, especialmente depois de passar tempo com Vanesa. E aquela sensação de névoa mental, de não conseguir pensar com clareza, que a fazia se sentir estúpida e incompetente.
—Por que está perguntando? — disse em vez de responder.
O médico e Pauline trocaram outro olhar.
—Senhora, não gostaria de preocupá-la sem ter resultados conclusivos, mas os níveis de certas substâncias no seu sangue... bem, digamos que não são consistentes com uma pessoa que apenas foi exposta a alérgenos alimentares.
O coração de Luisa deu um salto. Ele estava dizendo o que ela achava que estava dizendo?
—O senhor está dizendo que alguém pode ter me envenenado?
A palavra pairou no ar como uma faca. Pauline empalideceu e o médico ergueu as mãos num gesto conciliador.
—Eu não disse isso, senhora. Só estou dizendo que há anomalias que merecem ser investigadas. Pode ser qualquer coisa: uma reação cruzada com algum medicamento, um problema metabólico não diagnosticado... Por isso precisamos fazer mais exames.
Mas Luisa sabia. No mais profundo do seu ser, sabia. A mesma mão que a matara estava por trás disso. E agora essa mão ia se encontrar com a dela.
—Quero que façam todos os exames necessários — disse, endireitando as costas tanto quanto seu corpo fraco permitia. — Todos. E quero os resultados diretamente para mim, não para meu marido, não para mais ninguém. Entendido?
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Atualizado até capítulo 81
Comments
Eduarda Ferreira
acredita que ele tava com uma caneta de adrenalina extra no carro depois do que aconteceu com a luiza provavelmente traumatizou ele ou ele jurou que nunca mais ia repetir e começou a ser precavido
2026-08-01
5
Edvan Campos
verdade
2026-07-22
0
Andrea Medianeira
Isso mesmo Gaya/Luiza investiga tudo 👏👏👏👏
2026-07-09
1