O Campo de Pouso de Grey Army Airfield, anexo a Fort Cavazos, não era o lugar onde Noah Maxuel costumava conduzir seus negócios.
O ar cheirava a asfalto derretido, combustível de jato e uma testosterona militar que ele achava particularmente primitiva.
Noah desceu do seu jato executivo Gulfstream, ajustando os óculos de sol escuros e sentindo o calor do Texas atingi-lo como um insulto físico.
Ele estava ali por um motivo que considerava irritante: uma disputa de carga internacional que envolvia um componente tecnológico de um cliente alemão e um bloqueio burocrático por parte do Exército americano.
Seu pai, Dietrich, teria enviado um associado júnior. Noah, movido por uma inquietação que nem ele mesmo compreendia totalmente,e talvez por um desejo inconsciente de fugir do silêncio de sua cobertura em Frankfurt,decidira resolver a questão pessoalmente.
Ele queria ver quem era o obstáculo que estava custando milhões de euros por dia ao seu cliente.
consultor— Herr Maxuel, os oficiais estão nos esperando no Hangar 4
disse o consultor jurídico local, um homem que parecia estar derretendo dentro do próprio terno de poliéster.
Noah não respondeu. Ele caminhava com a elegância de quem desfila em uma passarela, ignorando os jipes e os soldados que passavam. Ele era um corpo estranho naquele ambiente de camuflagem e poeira; um predador de luxo em um território de caça bruta.
Dentro do Hangar 4, o barulho era ensurdecedor. Mecânicos trabalhavam em turbinas e o eco das ferramentas batendo no metal preenchia o espaço.
No centro de uma área isolada, cercada por caixas de metal com selos de segurança internacional, estava ela.
Willa Morais não parecia uma burocrata. Ela estava de costas para Noah, examinando uma ordem de serviço em um tablet. O uniforme de voo verde-oliva estava com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando braços fortes e a pele morena que brilhava levemente sob a luz industrial.
O cabelo longo e liso estava preso em um rabo de cavalo alto e rigoroso, mas alguns fios rebeldes escapavam, emoldurando um pescoço que parecia delicado e resistente ao mesmo tempo.
consultor— Capitã Morais?
o consultor chamou, a voz vacilante.
Willa virou-se devagar. Seus olhos castanhos, profundos e carregados de uma hostilidade imediata, focaram primeiro no consultor e depois, com uma lentidão deliberada, subiram por todo o corpo de Noah Maxuel.
Ela não se impressionou com o terno de três peças cinza-chumbo, nem com o relógio que valia mais do que o seu helicóptero. Para ela, ele era apenas mais um problema que precisava ser removido da sua pista.
Willa— Se veio tentar liberar a carga sem a assinatura do Comando de Materiais, perdeu a viagem, senhor
disse Willa, a voz firme, com aquele sotaque brasileiro que Noah já ouvira Sophie elogiar, mas que agora soava como um desafio direto.
Noah retirou os óculos de sol, revelando os olhos azuis gélidos. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Willa,uma tática de intimidação que ele usava em tribunais para desestabilizar oponentes.
Noah— Eu sou Noah Maxuel. E eu não venho tentar nada, Capitã. Eu venho informar que o bloqueio desta carga é uma violação do tratado comercial entre Berlim e Washington. Eu tenho o documento de liberação federal aqui
ele bateu levemente na pasta de couro que carregava
Noah— e pretendo sair daqui com essa carga antes do pôr do sol.
Willa deu um sorriso curto, seco, que não chegou aos olhos.
Noah— Pois o senhor Maxuel pode pegar seu documento federal e usá-lo para se abanar, porque este setor está sob investigação de segurança por discrepância de peso. E no meu hangar, quem manda sou eu. Não me importa quem seu pai é ou quanto custa o seu sapato.
O silêncio que se seguiu foi carregado de uma eletricidade estática que nada tinha a ver com as máquinas ao redor. Noah sentiu uma descarga de adrenalina que não sentia há anos.
Ele estava acostumado a mulheres que caíam sob seu feitiço ou a advogados que recuavam diante de sua arrogância. Mas Willa Morais não recuou um milímetro.
Pelo contrário, ela inclinou-se levemente em sua direção, o cheiro de querosene e algo que lembrava lavanda emanando dela.
Noah— Você é muito confiante para alguém que está sentada em cima de um erro processual, Capitã
Noah disse, a voz baixando para aquele barítono perigoso que costumava usar antes de destruir uma testemunha.
Willa— E você é muito arrogante para alguém que está em solo estrangeiro tentando mandar em uma oficial do Exército
Willa rebateu, cruzando os braços sobre o peito.
Willa— Aqui não é um tribunal de Frankfurt, Maxuel. Aqui, a lei é a segurança da operação. E se eu disser que essa caixa não sai, ela não sai nem que o próprio Presidente venha buscar.
Noah observou-a com uma curiosidade predatória. Ele notou a tensão no maxilar dela, a maneira como ela protegia Quinn, mesmo que a filha não estivesse ali, a aura de
"mãe loba"
era palpável. Ele se lembrou das palavras de Sophie
"Ela é uma força da natureza"
Sophie estava errada. Willa era um desastre natural.
Noah— Sabe o que eu acho, Capitã?
Noah disse, guardando os óculos no bolso do paletó.
Noah— Acho que você gosta do poder. Gosta de saber que tem algo que eu quero e que pode me dizer "não". É um jogo divertido, eu admito.
Willa— Para ser um jogo, eu teria que estar interessada em jogar com você
Willa respondeu, os olhos faiscando.
Willa— E, francamente, você não faz o meu tipo. Eu prefiro homens que saibam sujar as mãos, não apenas assinar cheques.
Nesse momento, um rádio chiou no cinto de Willa. Ela atendeu com uma agilidade profissional, dando ordens rápidas em inglês técnico.
Noah ficou parado, observando-a. Ele deveria estar irritado, deveria estar ligando para o Pentágono para resolver o problema, mas sua mente estava focada na curva do pescoço de Willa e na maneira como ela dominava o ambiente.
Havia uma hostilidade bruta entre eles, mas por baixo dessa camada, algo mais profundo e incontrolável estava começando a ferver.
Era uma tensão sexual tão óbvia que o consultor jurídico de Noah deu um passo para trás, sentindo-se um intruso.
Willa— Tenho uma reunião com o Coronel em dez minutos
Willa disse, desligando o rádio e voltando sua atenção para Noah.
Willa— Se quiser esperar, tem uma máquina de café horrível ali no canto. Se quiser ir embora, a pista de decolagem é para aquele lado.
Noah— Eu vou esperar, Willa
Noah usou o primeiro nome dela pela primeira vez, sabendo que era uma quebra de protocolo que a irritaria.
Noah— Porque eu gosto de ver como as coisas terminam. E eu garanto a você: eu sempre consigo o que eu quero.
Willa sustentou o olhar dele por um longo tempo. Ela viu o desafio, viu o desejo disfarçado de arrogância e viu o homem que Sophie tentara descrever.
Mas ela também viu um desafio que sua própria natureza indomável não conseguia ignorar.
Willa— Veremos, Maxuel
ela disse, dando as costas para ele e caminhando em direção ao escritório do comando.
Willa— Veremos se os seus truques funcionam com alguém que já enfrentou tempestades de verdade.
Noah ficou no hangar. O café era, de fato, horrível, mas ele o bebeu enquanto observava o sol começar a descer no horizonte, pintando o céu do Texas de um laranja sangrento.
Ele pensou em sua vida em Frankfurt, na facilidade das suas conquistas e no vazio que às vezes o assombrava.
Willa Morais era o oposto de tudo o que ele conhecia. Ela era real, era dura e tinha uma integridade que ele não conseguia comprar. Ele sabia que o caso da carga era apenas o começo.
Ele não queria mais apenas as caixas de metal; ele queria entender o que fazia aquela mulher voar. Ele queria ver aquele fogo dela voltado para ele, não em ódio, mas em rendição.
E Willa, enquanto caminhava para a reunião, sentia o coração bater em um ritmo irregular. Ela pensou em Quinn, pensou em sua mãe e na vida tranquila que tentava construir.
Noah Maxuel era uma ameaça. Não apenas à sua carreira ou àquela carga, mas à barreira que ela erguera ao redor de si mesma.A hostilidade era a defesa dela. O desejo era o ataque dele.
O encontro inicial terminara, mas a guerra estava apenas começando. E, naquele hangar poeirento, dois mundos que nunca deveriam ter se cruzado haviam colidido com uma força que prometia mudar tudo.
Noah Maxuel, o advogado que nunca perdia, e Willa Morais, a piloto que nunca recuava, tinham acabado de encontrar seu maior adversário.E, possivelmente, sua maior tentação.
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Atualizado até capítulo 90
Comments
Juliana Vicentina da Costa Nerys
Ele está voando alto pra quem que acabou de conhecer.
2026-07-07
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Cristiane Paes Fagundes
achei nada a ver falar do sapato 🙄
2026-06-28
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Shirlei Deolindo
essa ele já perdeu 👏👏👏
2026-06-08
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