Depois daquela conversa com a senhora Daniela, minha rotina seguiu normalmente. Passaram-se mais alguns meses e chegou o fim do ano escolar — e, com ele, o fim do ensino médio. Eu sonhava em fazer faculdade de TI ou Ciência da Computação, mas na época nem o que meu pai ganhava, nem o meu salário, eram suficientes para custear os estudos. Então decidi que iria guardar dinheiro para, um dia, realizar esse sonho.
O Caio já estava com um ano quando, certa vez, a senhora Alexia me avisou que precisaria fazer uma viagem a trabalho. Pediu que eu dormisse na mansão, cuidando dele até que voltasse. Concordei e fiquei uma semana hospedada lá.
Numa dessas noites, eu estava deitada no quarto do Caio, na cama de apoio, quando a porta se abriu. Eu usava um pijama simples, bem comportado — afinal, não estava em minha casa. Naquele instante, entrou um homem alto, de traços orientais, bonito e forte, mas com um sorriso sombrio.
Alex Nakamura 23 anos
Ele me olhou fixamente e perguntou:
Alex:
— Quem é você?
Vivian:
— Boa noite, senhor. Eu me chamo Vivian, sou a babá do Caio.
Alex:
— Hum... interessante.
Ele disse isso me observando da cabeça aos pés, com um olhar carregado de malícia. Um arrepio gelado percorreu meu corpo — e não foi de um jeito bom. Logo em seguida, ele saiu, batendo a porta. Suspirei aliviada e imediatamente a tranquei.
Naquele momento, me lembrei de tudo o que a senhora Daniela havia me contado sobre ele. Passei a ficar em alerta. Logo depois, a senhora Alexia voltou de viagem e minha rotina voltou ao normal: eu ia para casa todos os dias. Ainda assim, de vez em quando, eu pegava o senhor Alex me observando, como se me analisasse em silêncio...
Um dia, meu pai soube que o senhor Alex havia voltado e, imediatamente, me pediu para deixar o emprego naquela casa. Apesar de amar o pequeno Caio como um filho, não tive escolha a não ser pedir à senhora Alexia que me dispensasse.
Alexia:
— Vivian, por que você quer ir embora? Aconteceu alguma coisa?
Vivian:
— Meu pai pediu, senhora Alexia. O Caio já está bem grandinho, e eu também preciso começar a fazer cursos, já que terminei o ensino médio.
A senhora Alexia me olhou desconfiada e, de repente, lançou um olhar rápido em direção ao Alex, que estava sentado na sala, bebendo cerveja.
Alexia:
— Eu entendo, querida. Fico muito triste, porque gosto de você como se fosse da família. Mas sei o verdadeiro motivo do seu pai querer que você saia... e, sinceramente, concordo com ele. Só peço que me dê um mês, para que eu encontre uma escolinha para o Caio. Ele já tem idade para isso.
Vivian:
— Eu vou sentir muita saudade dele... mas tudo bem, ficarei esse mês que a senhora pediu.
E assim foi. Faltando apenas uma semana para terminar o mês, Alexia encontrou uma escolinha para o Caio. Passei alguns dias acompanhando a adaptação dele, para que não ficasse deslocado.
No segundo dia de escolinha, fiquei no quarto dele arrumando algumas coisas. Quando percebi, já haviam se passado mais de duas horas. Resolvi descer para almoçar, mas a casa estava estranhamente vazia. Não havia ninguém: nem os patrões, nem os empregados. Aquilo me deu um calafrio, pois a mansão era enorme e silenciosa.
Enquanto caminhava por um corredor, uma porta se abriu de repente e uma mão me puxou para dentro. Meu coração disparou quando vi quem era: Alex, com aquele olhar sombrio e demoníaco.
Vivian:
— O que o senhor está fazendo?! Me solte agora, ou eu vou gritar!
Alex:
— Pode gritar, minha linda. Não tem ninguém em casa. Sabe, desde aquele dia em que entrei no quarto do meu sobrinho, eu quis você. Mas eu sou paciente... sou capaz de esperar. Hoje, criei a oportunidade perfeita. Meus pais saíram por uma suposta “emergência” na empresa — emergência que eu mesmo inventei. Minha irmã Nicole está na faculdade. E os empregados? Eu dispensei todos. Agora, só estamos nós dois... e ninguém vai nos atrapalhar.
Um desespero tomou conta de mim. Lutei, empurrei, bati, mas ele era muito mais forte. Me deu um tapa no rosto, rasgou minhas roupas. Eu gritava, implorava:
Vivian:
— Por favor, me deixa ir! Eu juro que não conto pra ninguém!
Alex:
— Fica quietinha, querida. Hoje eu vou me fartar desse corpinho.
Naquele dia, sofri a maior violência que uma mulher pode viver. Ele fez tudo o que quis, sem nenhuma piedade. Eu não tinha forças nem para chorar. Quando terminou, simplesmente se levantou, vestiu a roupa e me deixou jogada no chão, como se eu fosse um objeto descartável.
Reuni as últimas forças que tinha, encontrei uma camiseta longa esquecida no quarto — nem sei de quem era — e saí pela porta dos fundos, descalça, até a casa da senhora Daniela. Quando ela abriu a porta e me viu naquele estado, compreendeu imediatamente o que havia acontecido. Ela me abraçou e chorou comigo. Não permitiu que o motorista e segurança me tocasse, tamanha era minha fragilidade, mas pediu que duas funcionárias me ajudassem a entrar.
Logo em seguida, chamou seu filho, Dilson, que era delegado. Ele chegou em poucos minutos e tentou conversar comigo. Eu mal conseguia responder.
Dilson Oliver Sanches 32 anos (filho da senhora Daniela e delegado)
Dilson:
— Querida, vou ter que te levar ao IML para o exame de corpo de delito. Não se preocupe, estarei com você o tempo todo. Minha mãe também vai junto.
E assim foi feito. Passei por vários exames, que confirmaram o abuso sexual. Sob efeito de calmantes, consegui relatar tudo a uma policial. Antes de voltarmos, pedi à senhora Daniela que não contasse nada ao meu pai. Eu sabia que, se ele descobrisse, mataria o Alex.
No dia seguinte, a polícia invadiu a casa dos Nakamura e prendeu Alex. Foi então que meu pai descobriu a verdade. Nunca tinha visto tanto ódio em seus olhos. A senhora Amélia foi me procurar, desesperada. Chorou, se ajoelhou diante de mim e pediu perdão pelo que o filho havia feito. A família inteira me pediu desculpas, menos o senhor Sérgio Nakamura, que sequer conseguiu me olhar no rosto.
Alex ficou preso por apenas dois meses. O dinheiro falou mais alto: seu pai contratou o melhor advogado do Brasil e ele foi solto. Pouco tempo depois, minha vida se tornou ainda mais difícil: descobri que estava grávida. O mundo desabou sobre mim. Senti vontade de morrer. Meu pai me abraçava e tentava me consolar, mas a dor era imensa.
A senhora Amélia veio até mim novamente e me implorou para não abortar, dizendo que criaria a criança como se fosse dela. Eu nada respondi. Apenas chorei.
Mas o pesadelo não havia terminado. Alex, inconformado por eu tê-lo denunciado, invadiu minha casa. Me agrediu brutalmente, dizendo que me ensinaria a “não colocá-lo na cadeia”. Ele me espancou até que eu perdesse a consciência. Por sorte, um vizinho presenciou a cena e chamou outros homens. Eles invadiram a casa, o colocaram para correr e me levaram ao hospital.
Fiquei internada por 15 dias. Devido às agressões, perdi o bebê. Não consigo explicar o que senti. Não fiquei feliz, mas também não fiquei triste. Foi confuso, doloroso demais. Naquela época, eu tinha apenas 18 anos.
E como desgraça pouca é bobagem, quando meu pai soube do que Alex havia feito novamente, perdeu o controle. Invadiu a mansão dos Nakamura e o espancou quase até a morte. Mas, como sempre acontece no Brasil, o pobre paga caro. Meu pai foi preso.
Mais uma vez, a senhora Daniela foi meu anjo. Conseguiu um advogado competente que tirou meu pai da prisão. E então ela nos fez um convite que mudaria nossas vidas: ir morar na Itália com ela. Lá, ela tinha uma filha e uma mansão.
Aceitamos. Vendemos tudo no Brasil, arrumamos nossas malas e partimos. Alex, por sua vez, após meses de internação, foi enviado pelo pai para o Japão.
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Fazem cinco anos que moro na Itália. Desde que cheguei aqui, minha vida mudou para melhor. A senhora Daniela continua sendo um verdadeiro anjo. Consegui terminar a faculdade de TI e hoje trabalho em uma das maiores empresas de tecnologia da Europa.
Aqui, fiz novas amizades. Conheci a Grace, que estudou comigo e se tornou minha melhor amiga, e também o Taylor. Ambos são brasileiros e vivem aqui há anos. Meu pai trabalha para a senhora Daniela, cuidando de serviços de segurança e manutenção.
Mas, apesar de todas as conquistas, nunca mais consegui me envolver com ninguém. Nunca namorei. Não consigo me aproximar de um homem sem sentir medo. A violência que aquele monstro cometeu contra mim deixou marcas profundas que nem o tempo, nem a terapia, conseguiram apagar por completo.
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Atualizado até capítulo 42
Comments
Roseli Santos
estou gostando da história autora fiquei triste com que ela passou ela vai encontrar o amor e vai ser feliz
2025-08-25
2
Naninha Oliveira da Rocha
É um começo de história muito triste 😢, mais acredito que ela ainda vai encontrar um amor e ser muito feliz, amamando e sendo muito amada. estou gostando muito da história autora. parabéns!
2025-08-29
1
Thelma Marques
Começando a ler hoje, 28/08/2025 e apesar da violência, a história tem tudo pra ser encantadora. Bora seguir lendo
2025-08-29
1