02

Ates Yamam caminhou até o pequeno bar em sua sala, serviu-se de um whisky e deixou o gelo tilintar suavemente no copo de cristal. Voltou-se calmamente para a poltrona de couro, onde se acomodou com um suspiro contido.

Enquanto saboreava a bebida em goles lentos, sua mente vagava pela noite anterior — mais precisamente, pelo breve e intenso encontro com Viviam Solano, uma amante mantida discretamente longe dos olhos públicos. O perfume dos cabelos dourados dela ainda parecia impregnar sua memória, assim como a sensação íntima daquela aproximação inesperada. Era raro permitir-se esse tipo de vulnerabilidade, mas algo nela mexia com suas defesas.

Com os olhos perdidos no vazio à frente, absorto nos próprios pensamentos, foi abruptamente tirado do transe pela voz de sua secretária:

— Senhor Yamam...

A expressão dele endureceu instantaneamente, a frustração refletida no tom seco com que respondeu:

— O que foi, Aline? — perguntou, visivelmente irritado com a interrupção.

— Senhor, o engenheiro Euclides Félix já está aguardando na sala de reuniões — informou Aline com a postura firme e profissional de sempre.

Ates respirou fundo, finalizando o último gole do whisky antes de responder com a voz mais controlada:

— Já estou indo, Aline. Veja se ele aceita alguma bebida enquanto espera. E o Fernando?

— Acabou de sair, senhor. — respondeu ela prontamente.

O senhor levantou-se apressadamente, saindo da sala e fechando a porta atrás de si. Aline o acompanhou até a sala de reuniões, mantendo o passo firme ao seu lado. Ao chegarem, a jovem abriu a porta com um gesto ágil, permitindo a entrada de Yamam, que agradeceu com um leve aceno de cabeça. Logo em seguida, Ates adentrou o ambiente, cumprimentando cordialmente os presentes.

O engenheiro Euclides, com um ar de sobriedade, desabotoou um dos botões do paletó antes de se acomodar na cadeira, após retribuir os cumprimentos.

— A capital está em dia, senhor Félix? — indagou, com um tom firme. — Para que algo da sua empresa seja aprovado, tudo precisa estar em ordem. Soou Ates Yamam.

   Euclides sorriu de canto, cruzando os braços com confiança. Sua voz soou firme, carregada de uma tranquilidade calculada:

— Claro, meu caro amigo. A minha empresa está totalmente nos conformes. Não se preocupe... Tenho capital de sobra para investir na sua. — Fez uma breve pausa e então acrescentou, como quem revela um detalhe estratégico: — Aliás, falando em negócios, preciso adquirir duas ações para investir na filial de Miami. E, quanto aos imóveis... será necessário realizar outra compra em breve.

Fernando, sentado à mesa, arregalou ligeiramente os olhos, visivelmente surpreso. Endireitou-se na cadeira e respondeu, tentando manter a compostura:

— Nossa... perdoe a indelicadeza, mas minhas ações não estão à venda.

A expressão de Euclides se fechou por um instante. Sua testa se franziu, mas antes que pudesse dizer algo, Fernando se levantou e se aproximou dele, sussurrando com seriedade:

— Não me diga que pretende adquirir nossas ações para se aliar àquela mulher... Bernadete, sei lá o quê.

Euclides manteve o olhar firme, sem hesitar:

— Bernadete Rocha — respondeu com frieza.

 — Mas Ates... a sua intenção naquele telefonema, há dois dias... — começou, hesitante — imaginei que...

Ates Yamam o interrompeu com firmeza, mantendo a expressão séria:

— Que eu estivesse disposto a vender as minhas ações? — fez uma pausa breve e concluiu, com voz segura — Repito: essas ações não estão à venda. E mais, elas pertencem à minha família não a mim.

   Sem sucesso na negociação, o engenheiro despediu-se brevemente. Ates, com discrição, ligou para a secretária e pediu que ela acompanhasse o visitante até a saída. Enquanto isso, Fernando, aproveitando-se da presença de Aline, pediu uma bebida. Ates virou-se calmamente para ela:

— Sirva mais uma, por favor.

Aline assentiu com um leve aceno e saiu da sala.

A atmosfera ficou silenciosa. Ates caminhou até a grande janela de vidro que oferecia uma vista ampla da cidade. Colocou as mãos nos bolsos da calça e permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando o movimento lá fora. Seus pensamentos estavam longe dali na festa que aconteceria dali a um mês.

Fernando, seu amigo de longa data, aproximou-se, intrigado com o semblante pensativo de Ates.

— Em que está pensando? — perguntou.

Ates não desviou o olhar da cidade ao responder:

— Na festa da empresa. Acontece dentro de um mês... E eu preciso arrumar uma esposa, Fernando. Algo simbólico, para manter o legado da família Godoy.

Fernando franziu o cenho, curioso:

— Uma esposa? Por quê? Fala disso como se fosse uma obrigação.

Ates respirou fundo, e sua voz ganhou um tom mais sombrio:

— Porque é. Os Godoy têm que manter uma imagem, um laço de estabilidade familiar diante da sociedade. Mas... dentro daquela casa, meus pais não se amam. Nunca amaram, na verdade.

— E por que acredita nisso?

— Pelos constantes atritos. Todos os dias. A frieza, as discussões veladas... — Ates hesitou, depois completou com pesar — Tenho quase certeza de que meu pai não é fiel. E, francamente, não é alguém em quem eu possa confiar.

Fernando o encarou, surpreso.

— Você desconfia do próprio pai?

Ates virou-se lentamente para ele, o olhar determinado.

— Não é só desconfiança. Eu vou descobrir exatamente o que ele anda aprontando.

— Espero que meu amigo não se torne outra pessoa quando descobrir algo sobre o próprio pai — disse Fernando, com um olhar preocupado. — Ele é um homem adulto... sabe muito bem o que faz.

Ates suspirou, o olhar ainda perdido na cidade à frente.

— Não posso prometer nada, Fernando. A verdade é que... eu não me importo com ele. O que me preocupa é minha mãe. Ela não merece viver presa a um relacionamento sem amor. E você, meu amigo... também deveria pensar no amor.

Fernando sorriu de canto, um sorriso carregado de lembranças e ironia. Não hesitou ao responder:

— Você sabe... meu amor está escondido por aí. Quando aparecer, vou aproveitar cada segundo desse momento. Mas essa pergunta também vale pra você, afinal... você não leva a Viviam a sério.

Ates riu brevemente, mas o som soou vazio.

— Viviam é uma aventura, só isso. Ela não é o tipo de mulher que eu possa amar. Pelo menos... não agora.

Fernando enfiou as mãos nos bolsos da calça e se aproximou mais, como se quisesse dividir um segredo.

— Porque essa mulher... ainda não chegou — sussurrou, com um tom quase melancólico. — E quando ela chegar, Yamam... esse seu lado mulherengo vai desaparecer. Aproveite enquanto pode.

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Comments

Loucas por leituras online 🤭

Loucas por leituras online 🤭

Só de ler imagino esse ates Yamam. autora vc arrasa na descrição, faz imaginar a cena . /Drool/

2025-05-05

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