—Lívia! Lívia!
—Não está aí!
—Para de brincadeira, Beto! Cadê a sua irmã?
—Lá dentro na cozinha, terminando os bolos de pote.
O rapaz barra a entrada da moça
—Me deixa passar, anda!
—Só se me der um beijo!
—Sai fora, moleque! Desde quando te dou essas confiança? Tia Tâniaaa!
— Tá bom! Não precisa chamar a minha mãe! Passa...
Duda é amiga de Lívia desde a infância.
Nascidas e criadas na Morro do Vidigal,as duas jovens são inseparáveis e tentam ir na contramão do futuro de grande parte das moças da comunidade. Elas buscam estudar e estão sempre atentas a novas oportunidades, ingressando em projetos sociais dentro e fora da favela e sem medo de trabalhar.
—Seu irmão me perturba! Não queria me deixar entrar sem antes o dar um beijo.
— Beto é chato! Deveria estar correndo atrás de um emprego.
—O que estão falando de mim?
— A verdade, que você é um encostado!
—Emprego está difícil!
—Dá seus pulos, gato! Eu não estou aqui fazendo bolos de pote e docinhos pra vender no asfalto?
— O seu Bituca, da lanchonete em frente ao ponto de mototáxi, está precisando de atendente. Por que não vai lá? - fala Duda
— Não para ninguém ali, dizem que ele paga mal.
— Pelo menos paga! Melhor pingar do que ficar a seco.
Lívia é uma jovem esforçada, bonita, esperta e não tem medo de trabalho.
Foi criada apenas pela mãe, Tânia, uma mãe solo que trabalha como cozinheira em uma barraca na praia do Leblon.
Assim, nessa luta , ela sustentou os dois filhos, após ser abandonado pelo marido quando os dois eram crianças.
Roberto, o Beto é o mais velho, sempre dá uma desculpa para não se fixar em algum emprego.
Lívia, a caçula, sempre foi o braço direito da mãe, cuidando da casa enquanto ela passava longas horas fora para prover o sustento. Ela só deu dor de cabeça uma única vez, foi algo que mudou a vida da família e que compromete a vida da jovem enquanto ela estiver morando no morro. Por isso, ela tenta de todas as formas encontrar um maneira de sair dali, ir para longe e poder em fim , ser livre para viver.
—Oi Duda, minha filha! Sua mãe está em casa?
— Está sim tia, mas já estava saindo para trabalhar.
—Então vou logo para dar tempo de falar com ela. Beto! - ela grita
—Oi mãe!
—Se ajeita! Você vai descer comigo, vamos precisar de gente na barraca. A cidade está lotada de turistas por causa dos jogos Pan-americanos.
— Andar na areia de um lado para o outro?!
— É isso ou jogo seus panos de bunda porta à fora e você caça o seu rumo longe da minha casa!
—Que isso mãe!
— Já estou de saco cheio dessa sua atitude, anda se mexe!
O rapaz sai com a mãe, e as duas moças também se preparam para sair.
— Esse final de semana vou trabalhar para os patrões da minha mãe - diz Duda - Eles irão viajar e eu serei a folguista da babá.
— Nós temos que dar um rumo em nossas vidas, Duda! Viver de bico não rola!
—Eu sei ... vai tentar o vestibular mais uma vez?
—Vou, vamos tentar pelas cotas. Fica de olho pra gente pegar a isenção também!
—Tô ligada! Deixa comigo!
Descendo o morro, as duas passam por uma das inúmeras bocas de fumo da comunidade,e em uma delas, está um dos gerentes do tráfico local, Doca.
—Olhem só as duas marrentas do Vidigal! Se acham as patricinhas. Vocês moram na zona sul ,mas não é no asfalto não!
As duas apertam os passos e fingem não ouvir.
— Vão me ignorar mesmo!
Elas andam mais rápido ainda e descem as escadarias correndo.
— Qual é Doca? Tá de caô? Sabe que o Dé não gosta que mexam com a mina dele!
—A Lívia não é a mina dele, e eu não estou a fim dela, eu quero a Duda!
—Elas não gostam dessas paradas, o Dé já mandou deixá-las em paz!
—Que mané em paz! Se ele abriu mão da Lívia o problema é dele!
—Abriu mão,mais ou menos, né ? Lembra do cara que ela namorou lá da parte baixa do morro?
— Tem cartaz de desaparecido com a cara dele até hoje por aí...
Os dois dão uma gargalhada.
— Chega de papo torto! Atividade!
—Já é!
Chegando no asfalto, elas respiram aliviadas.
—Está vendo porque eu luto tanto? Eu tenho que sair daqui,Duda!
—Aluga uma casa fora do morro!
—Sem condições! A minha mãe sustenta a casa praticamente sozinha, eu a ajudo como posso, mais da metade que ganho dou na mão dela. Essa casa é nossa, eu não posso fazer a minha mãe pagar aluguel porque eu quero fugir de um erro meu do passado.
—O Dé um babaca!
— Ele é um bandido, o que esperar dele? Ainda me deixou viva!
—Ele é amarradão na sua até hoje!
— Esquece isso, Duda! Não gosto de lembrar do que aconteceu...
— Eu sei, desculpa! Bom, eu já vou indo! Te vejo na segunda.
As duas se despedem e seguem seus rumos.
Lívia vende seus doces pela praia, também fornece algumas unidades para a barraca aonde mãe trabalha e para uma lanchonete no subida do morro.
— E aí Livinha! O que você manda?
—Eu? Não mando em nada! Nem na minha vida, só sigo o fluxo!
—Ih...que desânimo é esse?
—É o quê a vida me oferece no momento, desânimo! - ela suspira - O seu Paulo está aí?
—Saiu, mas deixei a sua grana aqui.
O rapaz pega um envelope e a entrega. Enquanto ela conta, ele a observa.
—Lívia, já pensou sobre o meu convite?
—Jonatas...eu já te expliquei, não dá!
—Poxa, vamos para a minha área,lá é tranquilo.
—Eu não quero prejudicar você,te fazer mal! Eu...sou um problema ambulante. Desculpa!
Ela sai pelas ruas, vende seus produtos em filas de bancos e de postos de gasolina,até chegar no emprego da mãe.
— Oi filha! Cansada, né ?
—É inverno, mas o sol não dá trégua nessa cidade!
— Vendeu tudo?
— Praticamente, só sobraram duas caixinhas de brigadeiro.
—Pode deixar que eu fico, Livinha!
—Obrigada, seu Messias!
Messias é o dono da barraca aonde Tânia trabalha.
— Bem,agora que a minha meta do dia está batida, eu vou para casa estudar para o vestibular, dessa vez não tem opção,eu passo ou passo!
—E vai conseguir,menina! Você merece! - diz Messias
Ela se despede e vai pra casa, passa correndo pela boca de fumo e suspira quando tranca o portão.
Lívia toma um banho,adianta o jantar para a mãe e se tranca no quarto para estudar, as vezes dá uma paradinha para olhar oportunidades de emprego.
—Na segunda feira será dia de colocar currículos e participar de entrevistas.
Ela deita olhando para o teto do quarto.
—Me dá uma ajudinha ,Deus! Eu já sofri demais, estou correndo atrás, me esforçando...eu só preciso de uma oportunidade, por favor? Abra as portas pra mim!
O final de semana passa, e na segunda feira antes de sair para as entrevistas de emprego,Duda chega empolgada.
— Adivinha o que eu tenho aqui?!
— Ainda não tenho esse poder !
—Ingressos para o jogo de basquete da seleção brasileira nos Jogos Pan-americanos!
— Como conseguiu?!
— Os patrões da minha mãe, eles não estarão na cidade, viajarão de novo...um dia tenho uma vida dessas...
—E você vai?
—É claro! E você também.
—Eu? Nem gosto de basquete!
—E daí? Eu também não gosto, mas é uma oportunidade única. Vamos!? - ela faz beicinho
—Brasil contra quem?
—Estados Unidos.
—Ah, fala sério! Vamos ver a nossa seleção perder?
—Que pessimista!
—Não, realista! Os caras são os melhores do mundo!
As duas dão uma gargalhada. Com todas as adversidades que as cercam, elas lutam por seus sonhos e encontram brechas em meio às dificuldades para serem apenas duas jovens com desejo de aproveitar a vida e sorrir.
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Atualizado até capítulo 50
Comments
vilma assis
é a dura realidade dos menos favorecidos
2025-02-25
0
HENEMANN- MEDEIROS. Henemann
Humm 🤔 acho que não é só por namorar bandido não. Eu acho que ela foi violentada por ele 🥺
2025-02-16
1
Fatima Gonçalves
NAMOROU BANDIDO FICA MARCADA
2025-01-18
1