Ana Clara e Enzo avançavam pelo antigo templo, onde o tempo parecia ter se estagnado. As paredes de pedra bruta eram cobertas por vinhas e musgo, suas cores esmaecidas pelo tempo. A iluminação era suave, com tochas crepitando nas paredes, lançando sombras dançantes que pareciam ter vida própria. O silêncio, quebrado apenas pelos passos dos dois, carregava um peso quase tangível, como se o próprio templo estivesse retendo sua respiração em expectativa.
"Enzo," Ana Clara começou, tentando controlar a inquietação que sentia, "você mencionou que a escuridão está se aproximando. O que isso realmente significa? O que estamos enfrentando?"
Enzo parou abruptamente, virando-se para encará-la. Seus olhos, profundos e serenos, refletiam as chamas das tochas. "A escuridão de que falo não é apenas uma metáfora. Há muito tempo, o Reino das Lendas era um lugar de equilíbrio, onde a luz e a sombra coexistiam em harmonia. No entanto, uma força antiga, conhecida apenas como A Sombra, tentou dominar tudo, trazendo caos e destruição. Foi derrotada, mas não destruída. Agora, depois de séculos, os sinais de seu retorno estão surgindo. Criaturas que deveriam estar adormecidas estão despertando, e elas se alimentam do medo e do desespero."
Ana Clara sentiu um calafrio percorrer sua espinha, uma mistura de temor e fascínio a invadindo. "Mas como eu, uma estudante de história, posso fazer algo contra isso? Eu não tenho treinamento, não sou uma guerreira."
"Você é mais do que pensa," Enzo respondeu, sua voz carregada de uma certeza que desafiava qualquer dúvida. "A profecia não te escolheu por acaso. Há um poder adormecido dentro de você, um poder que, se despertado, pode ser a chave para derrotar A Sombra de uma vez por todas. E é por isso que estou aqui, para ajudá-la a descobrir esse poder e a usá-lo."
Ana Clara queria acreditar nas palavras de Enzo, mas a incerteza nublava sua mente. Antes que ela pudesse fazer outra pergunta, um som estranho e profundo ecoou pelo templo, reverberando nas paredes de pedra. Era um som gutural, quase como um rosnado, que fez o ar ao redor deles vibrar. Enzo imediatamente puxou sua espada, seus olhos escaneando o ambiente.
"Fique atrás de mim," ele ordenou, sua voz firme, sem espaço para questionamentos.
Ana Clara recuou instintivamente, seu coração martelando em seu peito. No entanto, seus olhos não podiam deixar de se fixar na criatura que emergia das sombras. Ela era alta, esquelética, com olhos vermelhos como brasas e garras longas e afiadas que arranhavam o chão de pedra ao se mover. A presença da criatura exalava uma malevolência que fez o ar ao redor deles parecer mais frio.
A criatura avançou com uma rapidez surpreendente, suas garras estendidas em direção a Enzo. Com um movimento rápido, ele ergueu a espada, bloqueando o ataque com um clangor metálico que ecoou pelas paredes do templo. A luta entre os dois era feroz, com Enzo desferindo golpes precisos e calculados, enquanto a criatura respondia com uma força brutal, seus movimentos selvagens mas perigosamente eficientes.
Ana Clara observava, paralisada entre o medo e a fascinação. Cada movimento de Enzo era fluido, quase como se estivesse dançando, mas uma dança de vida ou morte. Ele se esquivava e contra-atacava com uma maestria que Ana Clara só havia lido em lendas e histórias antigas.
"Você não pertence a este lugar!" Enzo gritou, desferindo um golpe poderoso que empurrou a criatura para trás. O ser soltou um grito estridente que reverberou pelas paredes, antes de recuar para as sombras, desaparecendo tão repentinamente quanto havia aparecido.
Ainda segurando sua espada, Enzo respirou fundo, seus olhos observando as sombras para garantir que a criatura não retornaria. Satisfeito de que estavam seguros por enquanto, ele guardou a espada e se voltou para Ana Clara.
"Você está bem?" Sua voz agora era mais suave, a preocupação evidente.
"Sim, eu... eu estou," respondeu Ana Clara, sua voz trêmula enquanto tentava controlar a adrenalina que ainda pulsava em suas veias. "O que era aquela coisa?"
"Uma das criaturas da escuridão. São lacaios de A Sombra, enviados para semear o caos e enfraquecer nossos espíritos. Estão se tornando mais ousados, o que significa que precisamos nos apressar. Não podemos permitir que ganhem mais força."
Sem mais palavras, Enzo pegou a mão de Ana Clara, guiando-a para fora do templo e de volta à floresta que os cercava. As árvores altas pareciam fechar-se sobre eles, criando um caminho sombrio, iluminado apenas pela luz fraca do sol que conseguia penetrar o denso dossel de folhas.
Eles caminharam em silêncio por um tempo, até chegarem a uma pequena clareira, onde uma cabana de madeira estava aninhada entre as árvores, quase como se fizesse parte da paisagem. A cabana era simples, mas robusta, com um telhado de palha e uma chaminé de pedra que emitia uma fina coluna de fumaça.
"Este é o meu refúgio," Enzo disse, abrindo a porta e gesticulando para que Ana Clara entrasse. "Aqui estaremos seguros, pelo menos por enquanto."
Ana Clara entrou na cabana, surpresa com o aconchego do lugar. As paredes eram revestidas de madeira polida, e o chão era coberto por tapetes macios. A lareira, feita de pedras rústicas, já estava acesa, o fogo crepitando alegremente e espalhando calor pelo ambiente. Ela se sentou em uma cadeira próxima à lareira, tentando absorver tudo o que havia acontecido.
"Enzo," começou ela, sua voz baixa enquanto olhava para as chamas, "você disse que eu tenho um poder especial. O que exatamente isso significa? Como posso usar algo que nem sei que existe?"
Enzo sentou-se em frente a ela, seus olhos fixos nos dela, como se estivesse tentando ver além da superfície. "A profecia fala de uma linhagem antiga de guardiões, pessoas com habilidades únicas, destinadas a proteger o equilíbrio entre os mundos. Você é a última dessa linhagem, Ana Clara. Dentro de você há um poder que pode mudar o destino deste mundo, mas é um poder que precisa ser despertado e controlado."
"Mas como?" perguntou Ana Clara, sentindo-se sobrecarregada pela magnitude do que Enzo estava dizendo. "Como posso aprender a usar algo que nem sei que tenho?"
"Eu vou treiná-la," Enzo disse, sua voz cheia de determinação. "Mas precisamos ser rápidos. A escuridão está crescendo em poder, e não temos muito tempo. O primeiro passo é entender a natureza desse poder, e para isso, precisamos acessar suas memórias ancestrais."
"Memórias ancestrais?" Ana Clara repetiu, sua testa franzida em confusão.
"Sim," Enzo explicou. "Dentro de você, está o conhecimento de todos os guardiões que vieram antes de você. É uma herança que foi passada de geração em geração, uma corrente de sabedoria e poder. Para acessá-la, você precisa estar em sintonia com seu eu interior, precisa aprender a ouvir a voz dos seus antecessores."
Ana Clara tentou processar o que Enzo estava dizendo. A ideia de carregar dentro de si as memórias e o poder de gerações passadas era ao mesmo tempo fascinante e assustadora. Ela olhou para as chamas na lareira, tentando encontrar uma centelha de coragem dentro de si.
"Como começamos?" ela perguntou finalmente, seu olhar determinado encontrando o de Enzo.
"Com paciência e foco," respondeu ele. "Primeiro, você precisa aprender a meditar, a silenciar os pensamentos e ouvir o que está além deles. É um processo que exige disciplina, mas com o tempo, você começará a perceber fragmentos de memórias, sentimentos, e, eventualmente, o poder que reside em você começará a se manifestar."
Enzo instruiu Ana Clara a sentar-se confortavelmente, com as costas retas e as mãos repousando sobre os joelhos. Ele acendeu um incenso feito de ervas locais, cujo aroma suave encheu o ar, trazendo uma sensação de calma. "Feche os olhos," disse ele suavemente. "Respire fundo e concentre-se no som da sua respiração. Sinta o ar entrando e saindo de seus pulmões, e deixe seus pensamentos se aquietarem."
Ana Clara fez o que ele pediu, fechando os olhos e tentando se concentrar. No início, sua mente estava uma confusão de pensamentos – as recentes revelações, a luta com a criatura, a responsabilidade que agora carregava – tudo isso girava em sua cabeça, dificultando qualquer tentativa de relaxamento. Mas aos poucos, sob a orientação calma de Enzo, ela começou a sentir uma leveza, como se os pensamentos estivessem se distanciando, tornando-se menos urgentes.
Ana Clara não sabia quanto tempo havia passado, mas em algum momento, algo mudou. Um calor suave começou a se espalhar por seu corpo, como se uma luz interior estivesse se acendendo. Ela sentiu uma leveza, como se estivesse flutuando acima do mundo físico. Imagens e sensações começaram a se formar em sua mente, imagens de paisagens antigas, de pessoas com roupas de épocas esquecidas, e sons de vozes que pareciam sussurrar segredos antigos.
"Continue respirando profundamente," a voz de Enzo soou, distorcida pela sensação etérea, mas ainda clara. "Deixe que essas imagens venham a você, sem resistência. Elas são parte de quem você é."
Ana Clara seguiu as instruções, permitindo que as imagens se desdobrassem diante dela. Ela viu um campo vasto, coberto por flores silvestres e árvores altas, sob um céu dourado. Em meio àquelas visões, ela percebeu figuras, que pareciam ser suas ancestrais, vestidas com túnicas brilhantes e segurando objetos que pareciam relíquias mágicas. Essas figuras se moviam em uma dança elegante, suas ações sincronizadas em perfeita harmonia.
Uma dessas figuras se destacou, uma mulher com uma aura de força e serenidade. Seus olhos, embora distantes no tempo, pareciam conhecer Ana Clara profundamente. Ela estendeu a mão, e um brilho dourado emanou de seus dedos, envolveu Ana Clara e a trouxe ainda mais para dentro daquela visão.
"Eu sou uma das guardiãs anteriores," a figura falou, sua voz ecoando como uma melodia antiga. "Você deve aprender a usar este poder com sabedoria. Ele é tanto uma bênção quanto uma responsabilidade."
Ana Clara sentiu uma onda de entendimento e conexão com aquela figura. Era como se parte de sua essência estivesse sendo preenchida com o conhecimento daquelas antigas guardiãs. As palavras e sentimentos que ela recebeu eram claros, mas ainda não totalmente compreensíveis. Elas falavam de força interior, equilíbrio e de um dever sagrado para proteger o Reino das Lendas.
A visão começou a desvanecer, e Ana Clara lentamente retornou ao presente, suas mãos ainda quentes e a respiração agora tranquila e profunda. Quando abriu os olhos, encontrou Enzo observando-a com uma expressão de aprovação e encorajamento.
"Você conseguiu," ele disse, sua voz cheia de satisfação. "Você já tocou as memórias de seus antecessores. Isso é apenas o começo, mas é um sinal de que você está no caminho certo."
"Eu vi... eu vi uma figura," Ana Clara começou, tentando articular o que experimentara. "Ela me disse para usar o poder com sabedoria e que era uma bênção e uma responsabilidade."
"Essa figura é uma das muitas guardiãs que vieram antes de você," Enzo explicou. "Cada uma delas deixou uma marca em nossa linhagem, e agora é a sua vez de carregar essa responsabilidade. Mas lembre-se, o poder que você possui é tanto uma arma quanto um escudo. Deve ser usado com cuidado e apenas para proteger o que é justo."
Ana Clara assentiu, sentindo o peso das palavras de Enzo. "O que devo fazer agora?"
"Primeiro, precisamos garantir que você esteja preparada para enfrentar a escuridão que se aproxima," Enzo respondeu. "Isso significa treinamento físico e mental. A partir de agora, sua vida será dedicada a essa missão. O treinamento não será fácil, mas é necessário."
Enzo então levou Ana Clara para fora da cabana, guiando-a por uma trilha oculta que se adentrava ainda mais na floresta. O caminho estava coberto por folhas caídas e ramos entrelaçados, e Ana Clara percebeu que cada passo estava a levando mais fundo no coração da floresta. O ambiente ao redor estava calmo, mas havia uma tensão palpável no ar.
Finalmente, eles chegaram a um campo aberto onde um pequeno altar estava montado, cercado por velas e símbolos esculpidos na pedra. Era um local sagrado, e Ana Clara podia sentir uma energia vibrante no ambiente. Enzo começou a explicar os diferentes aspectos do treinamento que ela enfrentaria.
"Este será o seu campo de treinamento," Enzo disse, apontando para o altar. "Aqui, você aprenderá a controlar seu poder, a equilibrar sua mente e a preparar-se para enfrentar as forças da escuridão. Haverá momentos difíceis, mas cada desafio que você superar a aproximará de se tornar a guardiã que o Reino das Lendas precisa."
Ana Clara observou o altar, seus olhos se fixando nos símbolos que pareciam pulsar com uma energia quase viva. "Como exatamente vamos começar?"
"Primeiro, vamos focar na meditação e no controle mental," Enzo respondeu. "Você precisará aprender a manter sua mente calma em situações de estresse e a canalizar sua energia de maneira eficaz. Em seguida, passaremos para o treinamento físico, para garantir que você esteja em forma e preparada para qualquer desafio físico."
Os dias seguintes foram intensos e exigentes. Ana Clara se dedicou ao treinamento com uma intensidade que ela nunca imaginara ter. Enzo a guiava através de exercícios físicos rigorosos, ensinava técnicas de combate e praticava meditações profundas para ajudá-la a conectar-se com seu poder interior. Embora o treinamento fosse desafiador, Ana Clara sentia que estava se tornando mais forte a cada dia, mais capaz de enfrentar o que estava por vir.
Uma manhã, após uma sessão particularmente difícil de treinamento físico, Enzo se aproximou de Ana Clara, que estava descansando e recuperando o fôlego. "Você está indo muito bem," ele elogiou. "Seu progresso tem sido impressionante. No entanto, o treinamento mental é igualmente importante. Você precisa estar preparada para os desafios que virão."
Ana Clara respirou profundamente, sentindo uma nova força e determinação dentro de si. "Estou pronta. Eu quero fazer o que for necessário para proteger o Reino das Lendas."
"Essa é a atitude certa," Enzo disse com um sorriso. "Agora, vamos nos concentrar na última parte do treinamento. Precisamos prepará-la para enfrentar diretamente as forças da escuridão. Você enfrentará uma prova final que testará tanto sua habilidade quanto sua coragem."
Ana Clara olhou para ele com um misto de apreensão e expectativa. "O que é essa prova?"
"Você terá que entrar na Floresta das Sombras," Enzo explicou. "É um lugar onde a escuridão é mais densa e perigosa. Lá, você enfrentará suas maiores medos e desafios. É um teste crucial para ver se você está pronta para a batalha que se aproxima."
A menção da Floresta das Sombras fez o coração de Ana Clara acelerar. Ela sabia que esse seria o verdadeiro teste de suas habilidades e coragem. No entanto, ao invés de medo, sentiu uma onda de determinação. Se ela havia chegado até ali, poderia enfrentar o que viesse.
"Eu estou pronta," ela disse com firmeza. "Vamos enfrentar essa prova."
Enzo sorriu, sua expressão cheia de orgulho. "Muito bem. Prepare-se para a próxima etapa do seu treinamento. A Floresta das Sombras não perdoa, mas você tem o potencial para superá-la."
Com essas palavras, Enzo e Ana Clara começaram a se preparar para a jornada mais desafiadora até agora. Ana Clara sentiu a responsabilidade e a grandeza de sua missão pesar sobre seus ombros, mas também sentiu uma chama de coragem e esperança. O destino do Reino das Lendas estava em suas mãos, e ela estava decidida a proteger o mundo que agora era tão real para ela quanto qualquer coisa que ela tivesse conhecido em sua vida anterior.
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Atualizado até capítulo 25
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