Eu já estava cansada de andar pelas ruas e ter que lidar com todos aqueles olhares e cochichos sobre mim, todos falavam sempre que eu tinha algo de diferente e que não merecia me juntar a eles, quando eu chegava perto eles se afastavam e alguns muitas vezes tentavam fazer chacota de mim, passei a vida toda tendo que ouvir pessoas gritando "É ela, a bruxa!!!!!" e mães afastando seus filhos de mim, isso me deixava tão mal que decidi não sair mais do quarto.
Na residência real que era para ser meu lar as empregadas estavam sempre falando mal de mim e jogando verdades na minha cara, que eu era filha de uma bruxa e que era uma bruxa como ela, minha própria irmã que era amada por todos me tratava como uma inferior pelas costas do meu pai que também não era dos melhores e só fazia todas as vontades de sua esposa Milena e de Kamilly, minha irmã.
Naquela noite eu tive que sair do quarto, fui obrigada a usar um vestido exagerado e cheio de flores, arrumaram meu cabelo e me calçaram sapatos novos, coisa estranha para quem estava com os velhos todos furados por quase um ano, tudo isso só por causa do aniversário de Kamilly que recebia bailes luxuosos todos os anos em homenagem ao seu aniversário que era tão especial para a família e nem um pouco especial para mim, na verdade eu odiava essa data mas se não quisesse fazer a família ficar mal falada e ter que aturar as broncas de Milena pelo resto da minha vida teria que fingir também ou pelo menos ficar neutra sobre isso.
Acho que nem estava parecendo eu mesma ou pelo menos a versão minha que eu conhecia, eu me acostumei com aquele rosto sujo e sério, olhos tristes mas resistentes ao choro, vestidos com estampas estranhas surrados, sapatos velhos e o cabelo todo bagunçado e na verdade essa talvez fosse a versão minha que eu mais gostasse até porque não era tão exagerada e falsa como aquele reflexo falsificado que eu tinha visto no espelho, nem acreditei que era eu mesma logo quando olhei pela primeira vez e não consegui me acostumar bem com aquela imagem a noite toda.
Das outras vezes eu ficava de fora das festas da Kamilly e preferia dormir cedo mas agora meu pai achava que eu também tinha que participar das festas para a família não ficar mal falada e eu odiava isso, não gostava de fazer aparências ainda mais para gente que não gostava de mim, eu não fazia parte daquilo tudo como eles mesmos insistiam em me lembrar o tempo todo, então não entendia porque tinha que frequentar essas festas idiotas cheias de brilho exagerado e gente chata.
Mal chegamos no salão e todo mundo já ficou nos observando e pareceram surpresos por conta da minha presença, na verdade pareciam decepcionados por eu ter ido e eu também estava decepcionada, talvez só a expressão que eu estava fazendo já deixasse todos os convidados desanimados, então para não estragar tudo e acabar passando o resto da vida levando sermão de Milena resolvi sair da festa quando ninguém estava olhando mas pelo meio do caminho acabei esbarrando em alguém.
??: Desculpa!!!!!
Miranda: Sem problemas e com licença, estou com pressa e não diga para ninguém que me viu por aqui e nem por onde eu saí!!!!!!
??: Claro!!!!
Corri com pressa e olhei para trás por reflexo e vi o garoto ainda me olhando com um sorriso bobo no rosto, não convivi tanto com meninos nessa vida então não sabia dizer se eles eram assim mesmo ou se tinha algo de errado comigo, estava acostumada com aqueles olhares de nojo e não com isso, então como sempre fiquei lá sem nenhuma reação além de correr para fora do salão, olhei para trás mais uma vez e já tinha perdido o menino estranho de vista, ótimo!!!!! Agora só precisava torcer para que ninguém me encontrasse e correr sozinha e sem rumo até achar algum lugar que me sentisse bem para ficar, antes tinha pensado em voltar para o quarto mas lá eu seria encontrada facilmente então era mais fácil fugir e depois aparecer dizendo que estava pela festa mesmo.
Corri tanto que quando olhei para os lados percebi que já devia estar longe o suficiente da festa, agora eu estava em um jardim que não sei porque mas me deu uma sensação de paz e conforto, resolvi me sentar em um dos bancos de lá que era bem grande para uma criança como eu então quando finalmente consegui me sentar lá fiquei balançando as perninhas toda leve e confortável, não sei porque estava me sentindo tão bem naquele lugar mas acho que era o contato com a natureza pois uma vez tinha lido sobre algo assim em um livro, dizia mais ou menos que a natureza nos dava uma sensação de paz.
Fiquei observando as estrelas e depois ao redor até que veio uma espécie de vazio que me deixou muito triste e eu não conseguia entender porque, talvez fosse por tudo o que vinha acontecendo, as pessoas me olhando com nojo, a festa da Kamilly, meu pai e tudo, eu já estava cansada daquilo tudo e ainda por cima não conseguia chorar e botar tudo aquilo para fora como as outras crianças faziam, ficava com um nó na garganta e não conseguia fazer nada, coloquei as mãos no rosto e continuei pensativa e melancólica e fiquei tão distraída que nem percebi que alguém se aproximou.
????: Olá!! Desculpa perguntar assim, sei que é falta de educação e tudo mas porque você parece tão triste??
Miranda: Quem é você????
Alexia: Meu nome é Alexia e o seu?????
Miranda: Meu nome é Miranda e qual o seu interesse nisso??
Alexia: Não sei, só vi você aqui sozinha e quis conversar e você não respondeu a minha primeira pergunta.
Alexia ficou me encarando com uma expressão diferente, talvez fosse preocupação ou algo assim o que também era bem estranho para mim, ela continuou me olhando até que ficou estranho, ela nem piscava os olhos graúdos e escuros e ficou estática que só seus cabelos castanhos e ondulados se moviam por causa do vento forte e essa visão me deixou um pouco assustada e foi ficando mais estranha com o silêncio que tomou conta cada vez mais do jardim, eu não sabia se devia confiar nela e explicar tudo até porque tinha aprendido a não confiar em ninguém.
Miranda: Não é nada e eu não estou triste!!
Alexia: Olha entendo que não queira me falar, mas preste atenção...
Alexia: Olhe para os pássaros
Miranda: Sim? _ Teria olhado. _
Alexia: Eles são iguais mas voam em direções diferentes, assim somos e por mais que tudo pareça perdido um dia voaremos para outra direção em busca da liberdade. _ Teria sorrido. _
Miranda: ...
Alexia: Pense nisso e caso queira conversar é só ir até uma casinha no fim do vilarejo, é só perguntar onde mora a costureira Berta e vai ficar mais fácil.
Miranda: Mas porque está me convidando??
Alexia: Porque somos amigas!! E preciso ir agora, até!!!! _ Teria saído. _
Fiquei por um tempo sem reação até que acenei de volta, talvez agora eu tivesse uma amiga e não sabia como funcionava essa coisa de ter amigos, só sei que aquela garota tinha alguma coisa com ela, ela parecia tão simples naquelas roupas surradas e os pés descalsos mas passava uma energia diferente, talvez ela tivesse um dom ou super porder ou então fosse alguma criatura da natureza, não ela tinha casa então era real, talvez só tivesse super poderes mesmo e um deles era o poder de fazer alguém que não sorria desde sempre sorrir, e era isso mesmo, agora eu estava sorrindo como nunca sorri antes, talvez isso fosse o efeito de fazer amizades, foi outra coisa que li em um livro e parecia legal ter uma amiga com super poderes, me levantei do banco com dificuldade e resolvi voltar para a festa e nada mais estragaria minha noite.