Eu já não aguentava mais tudo aquilo, os gritos, os chamados, a forma como aquelas mãos invisíveis continuavam a tocar em mim.
Eu estava enlouquecendo, estava prestes a desistir.
Seria mais fácil, certo? Se eu me matasse, não restaria nada, não teria que lidar com nenhuma dessas coisas.
— Sério? — Uma voz suave veio às minhas costas, aquela voz era carregada de sarcasmo.
— Vai se jogar? — Perguntou, mas eu não queria conferir se aquela era outra das "vozes" ou se era alguém real.
Bom, certamente não alguém real, afinal, quem ficaria parado vendo um possível suicidio?
Fechei meus olhos com força e como costumava fazer quando criança, sussurrei.
— Vai ficar tudo bem, nada disso é real.
Alguém riu ao fundo.
— Claro que é real, sua idiota. Por acaso acha que todo mundo anda enlouquecendo de graça?
Não olhe, não olhe, não olhe.
— Mas você é curiosa, é diferente. Tem isso desde criança, certo? Então… como ainda está sã? — Ele continuava a perguntar e meu peito apertava tanto que sentia que logo não iria conseguir respirar.
Não olhe, não olhe, não olhe.
Se olhar se torna real, se olhar se torna real.
É apenas coisa da sua cabeça.
Senti um toque suave em meu braço e a voz agora estava tão próxima que parecia sussurrada ao meu ouvido.
— Se não quer esse dom, dê ele para mim.
Meus olhos se abriram instantaneamente
— Eu posso? Como?
O rosto dele estava perto demais, seus lábios arqueados em um sorriso.
Ele era certamente o homem mais bonito que eu já havia visto, mas algo em seus olhos deixava claro que ele não era bom.
— Só precisa me acompanhar.
Naquele dia, eu dei a ele meus poderes e gritei com todas as sombras que ele arrancou de mim. Eu gritei e chorei enquanto ele arrancava os fantasmas que me assombraram por tanto tempo e no final, quando não restava mais nada, esperei ser largada em um lugar qualquer, mas ele segurou minha mão quando terminou e sorriu pra mim como se no fim houvesse feito um bom trabalho.
Não consegui conter as lágrimas e quando me dei conta, estava em seus braços, chorando como uma criança sem o colo da mãe.
— Vai ficar tudo bem — ele me disse e por alguma razão aquilo afundou em meu peito.
Ele era um vilão, era um daqueles que desejava instalar no mundo o total e completo caos e no fim, lutaria com os heróis até que suas vidas se tornassem nada. Até que seus corpos não passassem de cinzas.
Ele era um vilão e agora, eu o havia dado os meus poderes, minha maldição.
Ele era um vilão, mas eu não passava de uma garota comum, uma criança normal. Um dos 3% que havia restado na humanidade.
Eu não era útil, mas ainda assim, ainda que ele fosse um vilão, eu queria estar ao seu lado, queria fazer parte daquilo.
— Me devolva — murmurei e em seus olhos eu vi a surpresa.
— O quê? — Ele parecia confuso.
— Me devolve meus poderes — falei sentindo meu estômago embrulhar.
Era doloroso, era sufocante, mas se eu tivesse esses poderes, ele ficaria perto de mim, certo?
Ele estaria do meu lado, se eu ainda fosse poderosa. Ele me abraçaria como fez agora.
— Você queria se matar, do que diabos está falando? — Os olhos carmim me fitavam com irritação.
— Me devolve… — insisti agarrando sua camisa — eu preciso…
Minha respiração se tornava difícil, difícil demais.
Eu não queria perder aquilo, não queria voltar para o mundo lá fora, sozinha. Não após dias naquele lugar, não quando ele havia cuidado de mim como nenhum outro ser humano havia tentado.
Eu não podia, mas não era útil sem os poderes.
— Me devolve, me devolve… não quero ser normal… não quero… — minha respiração se tornava ofegante, mais e mais ofegante.
— Hey, se acalma — ele tentou dizer, mas as lágrimas desciam por minhas bochechas.
— Não quero ir embora… — falei sentindo minha voz falhar — me devolve… eu… me devolve…
Ele iria me mandar embora, certo? Ele me jogaria lá fora, porque agora não restava nada e era idiota da minha parte achar que ele me devolveria.
Ele havia me salvo apenas para pegar a maldição, apenas para ter as sombras para si.
— Me devolve — implorei e soube que não adiantaria, porque ele nem mesmo me abraçava mais. Ele me olhava com uma expressão séria em seu rosto.
— Não — ele disse simplesmente e quando tirou minhas mãos da sua roupa, eu mordi minha boca com força.
— Não vou te devolver aqui — ele continuou, mas não precisava, eu sabia o que diria em seguida.
— Você não suporta aquele poder, você jamais suportaria e essa é uma das falhas do governo, eles podiam, mas não querem ajudar — olhei para o chão com vergonha, não havia ninguém que quisesse me ajudar — então não me peça para devolver algo que vai te transformar em uma suicida compulsiva, mas se poderes são tão importantes pra você, se não quer ir embora…
Ele suspirou.
— Então te darei outra coisa.
Ergui o rosto com rapidez e ele sorriu, o mesmo sorriso do terraço, o mesmo sorriso que pensei conter apenas sarcasmo. Ele agora parecia tão doce.
— Vai ficar tudo bem — ele disse outra vez e segurando o meu rosto com ambas as mãos, ele seu meus lábios com delicadeza e uma onda de energia invadiu o meu corpo e como num piscar de olhos, o mundo pareceu mais bonito.
O som dos pássaros era mais nítido, próximo. As cores eram vivas, tão vivas que nem mesmo parecia o mundo cinza que outrora eu enxergava e a sensação dos lábios dele nos meus era mais nítida, mais clara.
— Pronto — ele murmurou — agora, você pode ver o mundo como eu vejo.
Não conseguia acreditar, mas as lágrimas que desciam por minhas bochechas não era mais de tristeza e desespero, eram de felicidade; uma felicidade que eu nunca havia experimentado.
Se fosse ao lado dele, eu poderia destruir toda a beleza daquele mundo com felicidade.
➸ Fim •