ELEMENTAL KILLER
Capítulo 1 - O Legado que Permanece
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O sol iluminava o Reino de Ignara, espalhando sua luz pelas construções e pelas ruas movimentadas. O som das conversas, dos passos e das risadas preenchia o reino. Comerciantes atendiam seus clientes, crianças brincavam pelas ruas e famílias aproveitavam mais um dia tranquilo.
Tudo parecia perfeitamente normal.
Em uma casa, afastada do movimento mais intenso das ruas, uma mulher de cabelos vermelhos contava uma história para um garoto de olhos atentos e expressão fascinada.
Seu nome era Honoka Kajiwara. Diante dela estava seu filho, Kai Kajiwara, um menino de dez anos que parecia esquecer tudo ao seu redor quando começava a ouvir aquela história.
- Há muito tempo, quando o mundo ainda vivia sob a ameaça do Rei Demônio, surgiu um homem que mudaria o destino de todos os reinos - começou Honoka, com um sorriso discreto. - Seu nome era San Kajiwara.
Os olhos de Kai brilharam imediatamente.
Honoka já conhecia aquela reação. Aquela não era a primeira vez que contava aquela história ao filho. Na verdade, havia perdido a conta de quantas vezes repetira aquelas mesmas palavras.
Ainda assim, toda vez que começava, Kai a escutava como se estivesse ouvindo tudo pela primeira vez.
- San não era um homem comum. Ele possuía um poder extraordinário, mas o que realmente o tornava especial era seu coração. Ele acreditava que ninguém deveria ser abandonado diante do sofrimento e que sempre existia uma razão para lutar por aqueles que precisavam de ajuda.
Honoka fez uma pequena pausa, observando o filho.
- Por isso, ele ficou conhecido como o Assassino de Coração Puro.
Kai se inclinou para a frente, completamente envolvido pela narrativa.
- E ele era muito forte, mamãe?
Honoka soltou uma pequena risada.
- Muito forte. Mas não era apenas sua força que fazia dele alguém especial.
Ela voltou a contar a história.
- Naquela época, o Rei Demônio espalhava destruição e medo por todos os reinos. Muitos acreditavam que ninguém seria capaz de enfrentá-lo. Mas San não desistiu. Ele enfrentou perigos que pareciam impossíveis de superar e, finalmente, conseguiu derrotar o Rei Demônio.
O pequeno Kai abriu a boca, impressionado.
- Ele conseguiu derrotar o Rei Demônio?!
- Sim. Foi uma batalha terrível, meu filho. Mas San não lutava apenas por si mesmo. Ele lutava por todas as pessoas que poderiam perder suas vidas se ninguém tivesse coragem de enfrentá-lo.
Honoka acariciou delicadamente os cabelos do garoto.
- Depois daquela vitória, San foi reconhecido por sua coragem e recebeu um título que poucos poderiam sequer imaginar alcançar: Deus da Esperança. Seu nome passou a ser respeitado por reis, guerreiros e pessoas comuns. Ele se tornou um símbolo de coragem para todos os reinos.
Kai sorriu, orgulhoso, tentando conter a empolgação para não interromper a mãe.
- E depois? O que aconteceu depois?
- Com o passar do tempo, ele também recebeu o título de Rei Deus Celestial. Tornou-se um dos maiores heróis que este mundo já conheceu.
Por alguns instantes, Honoka permaneceu em silêncio.
Seu sorriso ficou mais discreto, e seus olhos perderam um pouco do brilho.
Chegara a parte da história que sempre lhe custava mais contar.
- Mas, meu filho, nem mesmo os maiores heróis conseguem escapar de todos os perigos. Algum tempo depois, uma nova ameaça surgiu: o Demônio Mascarado.
A expressão de Kai mudou.
- Ele era mais forte que o Rei Demônio?
Honoka demorou um instante para responder.
- Era uma ameaça terrível. San precisou enfrentá-lo em uma batalha que colocou inúmeras vidas em risco. Naquele momento, ele sabia que não poderia simplesmente ignorar o perigo.
Ela baixou um pouco o olhar.
- Seu pai escolheu lutar para proteger todos aqueles que amava. Mas aquela batalha teve um desfecho que ninguém poderia imaginar...
Honoka respirou fundo.
- San nunca mais voltou para casa.
O pequeno Kai ficou em silêncio.
Ele conhecia aquela parte da história. Já a ouviu muitas vezes, mas nunca parecia se acostumar com ela.
- Então... ele salvou todo mundo?
Honoka voltou os olhos para o filho e assentiu delicadamente.
- Ele fez tudo o que podia para proteger as pessoas. E, mesmo depois de sua partida, seu nome continuou vivo nos corações daqueles que ele salvou.
Ela segurou delicadamente a mão do garoto.
- É por isso que nunca devemos nos lembrar de San apenas como um grande guerreiro, Kai. Devemos nos lembrar do homem que ele foi. Da coragem que demonstrou, das pessoas que protegeu e da esperança que deixou para o mundo.
Kai permaneceu quieto por alguns segundos, absorvendo cada palavra.
Então, seu rosto voltou a se iluminar.
- Mamãe...
- Sim, meu amor?
- Conta de novo!
Honoka piscou, surpresa.
- De novo?!
- Por favor! Eu quero ouvir mais uma vez!
A mulher não conseguiu conter uma risada.
- Você nunca se cansa dessa história?
Kai balançou a cabeça com entusiasmo.
- Nunca! Eu gosto muito dela!
Honoka sorriu e aproximou o garoto de si, abraçando-o carinhosamente.
- Você realmente gosta muito do seu pai, não é?
- Gosto! Ele é o maior herói do mundo!
Honoka fechou os olhos por um instante, apertando o filho contra o peito.
- Sim, Kai... Ele foi um grande herói.
Enquanto o abraçava, observou o sorriso do garoto.
Era um sorriso espontâneo, cheio de entusiasmo e sonhos. Um sorriso que, por mais que o tempo passasse, continuava trazendo San à sua memória.
Kai tinha muito do pai. Não apenas a aparência, mas também aquela maneira de olhar para o mundo como se tudo fosse possível.
Por um instante, Honoka quase conseguiu imaginar San ali, sentado ao lado deles, ouvindo as histórias e rindo junto com o filho.
Mas aquela imagem desapareceu tão rápido quanto surgiu.
San Kajiwara havia deixado um legado que jamais seria esquecido. Entretanto, também deixou uma família que precisou aprender a viver sem ele.
E agora Honoka tinha diante de si o filho daquele homem.
Um menino que já sonhava em seguir os mesmos passos do pai.
Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, vozes conhecidas ecoaram do lado de fora da casa.
- KAIIII! VEM BRINCAR COM A GENTE! - gritou Enji.
- ANDA LOGO! A GENTE NÃO VAI FICAR ESPERANDO O DIA TODO! - chamou Natsume.
Kai se levantou num salto.
- São eles!
Ele correu até a saída, mas parou por um instante e voltou o rosto para a mãe.
- Mamãe, depois você termina de contar, tá?!
Honoka sorriu.
- Está bem. Agora vá se divertir, mas tome cuidado!
- PODE DEIXAR!
Kai saiu correndo, deixando para trás o calor daquela pequena casa e a voz da mãe.
Honoka acompanhou o filho com os olhos até ele desaparecer de sua vista.
Seu sorriso permaneceu por alguns segundos.
Então, quando teve certeza de que o garoto já estava longe o suficiente para não ouvi-la, murmurou para si mesma:
- Ele é muito parecido com você, San...
Seus olhos acompanharam a direção pela qual Kai havia partido.
- Esse sorriso... Essa maneira de enxergar o mundo... Você ficaria tão orgulhoso ao ver que seu filho quer seguir os seus passos.
Honoka levou uma das mãos ao peito.
- Mas eu não posso deixar que ele siga esse caminho perigoso.
Sua expressão ficou mais séria.
Ela conhecia melhor do que ninguém o preço que a vida de um guerreiro podia cobrar. Havia perdido o homem que amava e não suportaria imaginar que o mesmo destino pudesse alcançar o próprio filho.
Kai ainda tinha muito a descobrir sobre o mundo.
E, por enquanto, Honoka queria que ele continuasse sendo apenas uma criança.
Uma criança livre para brincar, sonhar e descobrir o mundo, sem precisar carregar o peso de um legado que ainda não compreendia.
---
Do lado de fora, Kai encontrou Natsume e Enji à sua espera.
- Até que enfim! - reclamou Enji, cruzando os braços. - Achei que você ia ficar aí dentro o dia inteiro!
- Eu estava ouvindo uma história! - respondeu Kai.
Natsume colocou as mãos na cintura e sorriu.
- Deixa eu adivinhar... A história do seu pai?
Kai abriu um sorriso enorme.
- É! A mamãe contou de novo como ele derrotou o Rei Demônio e se tornou o Deus da Esperança!
Enji soltou um suspiro exagerado.
- De novo?! Você já ouviu essa história umas mil vezes!
- E vou ouvir mais mil!
Natsume começou a rir.
- Está bem, senhor futuro herói. Agora vamos brincar!
- Vamos!
Os três saíram correndo pelas ruas do reino, afastando-se das casas e seguindo por um caminho onde tinham espaço para brincar sem atrapalhar os moradores.
Kai disparou na frente, rindo enquanto Enji tentava alcançá-lo. Natsume veio logo atrás, determinada a não ficar para trás.
- EI! ESPEREM POR MIM! - gritou Enji.
- Você que é lento! - provocou Kai, olhando para trás.
- AH, É?! VOU TE MOSTRAR QUEM É LENTO!
Enji acelerou, mas acabou tropeçando levemente no próprio pé, perdendo alguns segundos.
Natsume não conseguiu segurar a gargalhada.
- ENJI! OLHA POR ONDE ANDA!
- EU ESTOU OLHANDO!
- NÃO PARECE! - respondeu Kai, rindo.
Os três continuaram correndo até chegarem a uma pedra próxima à estrada, que costumavam utilizar como ponto de chegada em suas pequenas competições.
Kai chegou primeiro e ergueu os braços.
- EU GANHEI!
Enji finalmente alcançou os dois, completamente ofegante.
- Isso não vale! Você saiu na frente!
- Nada disso! Você que é lento!
- Eu tropecei!
Natsume colocou as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego.
- Vocês dois conseguem transformar qualquer brincadeira em uma competição...
Kai colocou as mãos na cintura, exibindo um sorriso convencido.
- É porque eu nasci para vencer!
- Nasceu foi para se achar! - respondeu Enji.
Os três começaram a rir.
Aquela era a rotina deles. Não precisavam de grandes aventuras para se divertir. Bastavam um ao outro, um pouco de espaço e a imaginação de três crianças que ainda tinham o mundo inteiro pela frente.
Depois de algum tempo, o cansaço finalmente venceu.
Os três se sentaram perto de uma árvore, buscando descansar à sombra.
Enji se jogou contra o tronco, completamente exausto. Natsume ajeitou os cabelos, enquanto Kai permaneceu olhando para o céu, com um sorriso pensativo no rosto.
- Ei, Kai - começou Natsume.
- O quê?
- Você realmente quer ser igual ao seu pai quando crescer?
Kai virou o rosto para ela.
- Quero!
Sua resposta foi tão rápida que os dois amigos ficaram olhando para ele.
- Tipo... Rei Deus Celestial e tudo mais? - perguntou Enji.
- Isso mesmo!
Kai se levantou e fechou os punhos diante do peito, como se estivesse fazendo uma promessa.
- Eu vou ficar muito forte! Mais forte do que sou agora! Vou proteger as pessoas e ajudar todo mundo que precisar de mim!
Natsume sorriu, observando a empolgação do amigo.
- Você fala disso com tanta certeza...
- Porque eu tenho certeza!
Kai olhou para os dois.
- Um dia, vou ser um Rei Deus igual ao meu pai. E vou mostrar para todo mundo que o nome Kajiwara continua sendo importante!
Enji abaixou um pouco a cabeça.
- Deve ser legal ter um pai como o seu...
Kai perdeu parte da empolgação ao perceber a mudança na voz do amigo.
- Enji...?
O garoto manteve os olhos fixos no chão por alguns instantes.
- Eu nunca conheci meu pai. Na verdade, sou órfão. Não tenho ninguém para me contar histórias sobre ele ou para dizer como ele era.
Ele tentou sorrir, mas seu olhar continuava distante.
- Às vezes, fico imaginando como seria ter um pai para conversar... Alguém que pudesse me ensinar algumas coisas.
Natsume permaneceu em silêncio por um instante.
- Eu também sou órfã - disse ela, baixinho.
Enji olhou para a amiga.
Natsume abraçou os próprios joelhos.
- Não tenho meus pais comigo. Por isso, gosto quando você conta as histórias do San, Kai. Mesmo que eu não tenha conhecido ele, é como se pudesse conhecer um pouquinho de como era esse mundo quando ele ainda estava aqui.
Kai escutou os dois sem interromper.
Até aquele momento, sempre pensara na história do pai como a história de um grande herói. Nunca tinha parado para pensar que aquelas mesmas histórias poderiam significar algo diferente para seus amigos.
Ele se sentou novamente ao lado deles.
- Então eu vou contar quantas vezes vocês quiserem!
Enji ergueu o rosto.
- Sério?
- Claro! Eu sei um monte de histórias sobre ele!
Natsume sorriu.
- Até aquelas que você já contou tantas vezes que a gente sabe de cor?
- Principalmente essas!
Os três começaram a rir.
Por um instante, as preocupações desapareceram. Não importava que Enji e Natsume não tivessem seus pais ao lado deles, nem que Kai carregasse consigo a saudade de alguém que nunca tivera a oportunidade de conhecer de verdade.
Naquele momento, eles tinham uns aos outros.
Kai olhou para os dois amigos e sentiu uma determinação crescer dentro de si.
- Quando eu ficar forte, vou proteger vocês também!
Natsume sorriu e balançou a cabeça.
- Não precisa nos proteger de tudo, Kai. A gente também vai ficar forte!
- É isso aí! - concordou Enji, recuperando sua animação. - Não vou deixar você ser o único a se tornar um grande guerreiro!
Kai soltou uma risada.
- Então vamos ficar fortes juntos!
Os três juntaram as mãos, transformando aquela conversa em uma promessa.
Nenhum deles poderia imaginar quantas coisas mudariam antes que tivessem a oportunidade de cumprir aquelas palavras.
Kai voltou a olhar para o céu.
- Um dia, eu vou trazer a esperança do meu pai de volta ao mundo...
Sua voz saiu baixa, mas carregada de convicção.
- Eu prometo.
O vento soprou suavemente entre as folhas da árvore.
E, enquanto as três crianças continuavam a sonhar com o futuro, muito longe dali, outras pessoas preparavam um destino completamente diferente para elas.
---
Afastado das ruas movimentadas de Ignara, um exército de figuras encapuzadas aguardava em silêncio.
Seus integrantes estavam posicionados diante de um homem cuja presença parecia suficiente para manter todos os outros imóveis.
Seu rosto permanecia escondido sob o capuz, e sua postura transmitia uma autoridade que dispensava qualquer demonstração de força.
Nenhum dos subordinados ousava conversar. Alguns mantinham a cabeça baixa, enquanto outros aguardavam atentamente, sem desviar os olhos de seu mestre.
O silêncio só foi quebrado quando um dos encapuzados deu um passo à frente e se ajoelhou.
- Mestre... estamos prontos para receber suas ordens.
O homem não respondeu imediatamente.
Permaneceu imóvel por alguns instantes, observando o reino que se estendia diante deles.
Somente depois de um breve silêncio sua voz rompeu o ambiente.
- Quero que vocês invadam Ignara e capturem o máximo de pessoas que conseguirem.
O subordinado ergueu ligeiramente a cabeça.
- Todos que encontrarmos, mestre?
- Todos aqueles que conseguirem levar.
A resposta foi curta e fria.
O homem deu alguns passos à frente.
- Não desperdicem tempo com aqueles que tentarem resistir. Não tenho interesse em desculpas ou fracassos.
Sua voz permaneceu tranquila, mas cada palavra carregava uma ordem impossível de ignorar.
- Levem o maior número possível de prisioneiros.
O subordinado abaixou a cabeça.
- Entendido.
O mestre ficou em silêncio por mais alguns segundos.
Então, acrescentou:
- E prestem atenção especial às crianças.
O encapuzado pareceu hesitar por um instante.
- Às crianças, mestre?
O homem virou lentamente o rosto em sua direção.
- Preciso repetir minha ordem?
O subordinado imediatamente abaixou a cabeça.
- Não, mestre. Faremos exatamente como ordenou.
O homem voltou a olhar para Ignara.
Lá embaixo, as construções ainda eram iluminadas pelo sol. Pessoas caminhavam pelas ruas, comerciantes atendiam seus clientes e crianças brincavam sem imaginar o que estava prestes a acontecer.
O homem observou aquela tranquilidade por alguns instantes.
Não demonstrava pressa, preocupação ou qualquer sinal de hesitação.
Para ele, aquilo era apenas o início de algo que já havia decidido colocar em movimento.
Finalmente, ergueu uma das mãos.
- Comecem.
Todos os encapuzados se movimentaram imediatamente.
E, naquele instante, enquanto o Reino de Ignara continuava vivendo mais um dia aparentemente tranquilo, uma ameaça começou a avançar em direção àquelas pessoas.
Kai Kajiwara ainda não sabia, mas sua infância estava prestes a chegar ao fim.
O destino dele, de Enji e de Natsume começaria a tomar um rumo completamente diferente.
E nada voltaria a ser como antes.
ELEMENTAL KILLER
Capítulo 1 - O Legado que Permanece
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O sol iluminava o Reino de Ignara, espalhando sua luz pelas construções e pelas ruas movimentadas. O som das conversas, dos passos e das risadas preenchia o reino. Comerciantes atendiam seus clientes, crianças brincavam pelas ruas e famílias aproveitavam mais um dia tranquilo.
Tudo parecia perfeitamente normal.
Em uma casa, afastada do movimento mais intenso das ruas, uma mulher de cabelos vermelhos contava uma história para um garoto de olhos atentos e expressão fascinada.
Seu nome era Honoka Kajiwara. Diante dela estava seu filho, Kai Kajiwara, um menino de dez anos que parecia esquecer tudo ao seu redor quando começava a ouvir aquela história.
- Há muito tempo, quando o mundo ainda vivia sob a ameaça do Rei Demônio, surgiu um homem que mudaria o destino de todos os reinos - começou Honoka, com um sorriso discreto. - Seu nome era San Kajiwara.
Os olhos de Kai brilharam imediatamente.
Honoka já conhecia aquela reação. Aquela não era a primeira vez que contava aquela história ao filho. Na verdade, havia perdido a conta de quantas vezes repetira aquelas mesmas palavras.
Ainda assim, toda vez que começava, Kai a escutava como se estivesse ouvindo tudo pela primeira vez.
- San não era um homem comum. Ele possuía um poder extraordinário, mas o que realmente o tornava especial era seu coração. Ele acreditava que ninguém deveria ser abandonado diante do sofrimento e que sempre existia uma razão para lutar por aqueles que precisavam de ajuda.
Honoka fez uma pequena pausa, observando o filho.
- Por isso, ele ficou conhecido como o Assassino de Coração Puro.
Kai se inclinou para a frente, completamente envolvido pela narrativa.
- E ele era muito forte, mamãe?
Honoka soltou uma pequena risada.
- Muito forte. Mas não era apenas sua força que fazia dele alguém especial.
Ela voltou a contar a história.
- Naquela época, o Rei Demônio espalhava destruição e medo por todos os reinos. Muitos acreditavam que ninguém seria capaz de enfrentá-lo. Mas San não desistiu. Ele enfrentou perigos que pareciam impossíveis de superar e, finalmente, conseguiu derrotar o Rei Demônio.
O pequeno Kai abriu a boca, impressionado.
- Ele conseguiu derrotar o Rei Demônio?!
- Sim. Foi uma batalha terrível, meu filho. Mas San não lutava apenas por si mesmo. Ele lutava por todas as pessoas que poderiam perder suas vidas se ninguém tivesse coragem de enfrentá-lo.
Honoka acariciou delicadamente os cabelos do garoto.
- Depois daquela vitória, San foi reconhecido por sua coragem e recebeu um título que poucos poderiam sequer imaginar alcançar: Deus da Esperança. Seu nome passou a ser respeitado por reis, guerreiros e pessoas comuns. Ele se tornou um símbolo de coragem para todos os reinos.
Kai sorriu, orgulhoso, tentando conter a empolgação para não interromper a mãe.
- E depois? O que aconteceu depois?
- Com o passar do tempo, ele também recebeu o título de Rei Deus Celestial. Tornou-se um dos maiores heróis que este mundo já conheceu.
Por alguns instantes, Honoka permaneceu em silêncio.
Seu sorriso ficou mais discreto, e seus olhos perderam um pouco do brilho.
Chegara a parte da história que sempre lhe custava mais contar.
- Mas, meu filho, nem mesmo os maiores heróis conseguem escapar de todos os perigos. Algum tempo depois, uma nova ameaça surgiu: o Demônio Mascarado.
A expressão de Kai mudou.
- Ele era mais forte que o Rei Demônio?
Honoka demorou um instante para responder.
- Era uma ameaça terrível. San precisou enfrentá-lo em uma batalha que colocou inúmeras vidas em risco. Naquele momento, ele sabia que não poderia simplesmente ignorar o perigo.
Ela baixou um pouco o olhar.
- Seu pai escolheu lutar para proteger todos aqueles que amava. Mas aquela batalha teve um desfecho que ninguém poderia imaginar...
Honoka respirou fundo.
- San nunca mais voltou para casa.
O pequeno Kai ficou em silêncio.
Ele conhecia aquela parte da história. Já a ouviu muitas vezes, mas nunca parecia se acostumar com ela.
- Então... ele salvou todo mundo?
Honoka voltou os olhos para o filho e assentiu delicadamente.
- Ele fez tudo o que podia para proteger as pessoas. E, mesmo depois de sua partida, seu nome continuou vivo nos corações daqueles que ele salvou.
Ela segurou delicadamente a mão do garoto.
- É por isso que nunca devemos nos lembrar de San apenas como um grande guerreiro, Kai. Devemos nos lembrar do homem que ele foi. Da coragem que demonstrou, das pessoas que protegeu e da esperança que deixou para o mundo.
Kai permaneceu quieto por alguns segundos, absorvendo cada palavra.
Então, seu rosto voltou a se iluminar.
- Mamãe...
- Sim, meu amor?
- Conta de novo!
Honoka piscou, surpresa.
- De novo?!
- Por favor! Eu quero ouvir mais uma vez!
A mulher não conseguiu conter uma risada.
- Você nunca se cansa dessa história?
Kai balançou a cabeça com entusiasmo.
- Nunca! Eu gosto muito dela!
Honoka sorriu e aproximou o garoto de si, abraçando-o carinhosamente.
- Você realmente gosta muito do seu pai, não é?
- Gosto! Ele é o maior herói do mundo!
Honoka fechou os olhos por um instante, apertando o filho contra o peito.
- Sim, Kai... Ele foi um grande herói.
Enquanto o abraçava, observou o sorriso do garoto.
Era um sorriso espontâneo, cheio de entusiasmo e sonhos. Um sorriso que, por mais que o tempo passasse, continuava trazendo San à sua memória.
Kai tinha muito do pai. Não apenas a aparência, mas também aquela maneira de olhar para o mundo como se tudo fosse possível.
Por um instante, Honoka quase conseguiu imaginar San ali, sentado ao lado deles, ouvindo as histórias e rindo junto com o filho.
Mas aquela imagem desapareceu tão rápido quanto surgiu.
San Kajiwara havia deixado um legado que jamais seria esquecido. Entretanto, também deixou uma família que precisou aprender a viver sem ele.
E agora Honoka tinha diante de si o filho daquele homem.
Um menino que já sonhava em seguir os mesmos passos do pai.
Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, vozes conhecidas ecoaram do lado de fora da casa.
- KAIIII! VEM BRINCAR COM A GENTE! - gritou Enji.
- ANDA LOGO! A GENTE NÃO VAI FICAR ESPERANDO O DIA TODO! - chamou Natsume.
Kai se levantou num salto.
- São eles!
Ele correu até a saída, mas parou por um instante e voltou o rosto para a mãe.
- Mamãe, depois você termina de contar, tá?!
Honoka sorriu.
- Está bem. Agora vá se divertir, mas tome cuidado!
- PODE DEIXAR!
Kai saiu correndo, deixando para trás o calor daquela pequena casa e a voz da mãe.
Honoka acompanhou o filho com os olhos até ele desaparecer de sua vista.
Seu sorriso permaneceu por alguns segundos.
Então, quando teve certeza de que o garoto já estava longe o suficiente para não ouvi-la, murmurou para si mesma:
- Ele é muito parecido com você, San...
Seus olhos acompanharam a direção pela qual Kai havia partido.
- Esse sorriso... Essa maneira de enxergar o mundo... Você ficaria tão orgulhoso ao ver que seu filho quer seguir os seus passos.
Honoka levou uma das mãos ao peito.
- Mas eu não posso deixar que ele siga esse caminho perigoso.
Sua expressão ficou mais séria.
Ela conhecia melhor do que ninguém o preço que a vida de um guerreiro podia cobrar. Havia perdido o homem que amava e não suportaria imaginar que o mesmo destino pudesse alcançar o próprio filho.
Kai ainda tinha muito a descobrir sobre o mundo.
E, por enquanto, Honoka queria que ele continuasse sendo apenas uma criança.
Uma criança livre para brincar, sonhar e descobrir o mundo, sem precisar carregar o peso de um legado que ainda não compreendia.
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Do lado de fora, Kai encontrou Natsume e Enji à sua espera.
- Até que enfim! - reclamou Enji, cruzando os braços. - Achei que você ia ficar aí dentro o dia inteiro!
- Eu estava ouvindo uma história! - respondeu Kai.
Natsume colocou as mãos na cintura e sorriu.
- Deixa eu adivinhar... A história do seu pai?
Kai abriu um sorriso enorme.
- É! A mamãe contou de novo como ele derrotou o Rei Demônio e se tornou o Deus da Esperança!
Enji soltou um suspiro exagerado.
- De novo?! Você já ouviu essa história umas mil vezes!
- E vou ouvir mais mil!
Natsume começou a rir.
- Está bem, senhor futuro herói. Agora vamos brincar!
- Vamos!
Os três saíram correndo pelas ruas do reino, afastando-se das casas e seguindo por um caminho onde tinham espaço para brincar sem atrapalhar os moradores.
Kai disparou na frente, rindo enquanto Enji tentava alcançá-lo. Natsume veio logo atrás, determinada a não ficar para trás.
- EI! ESPEREM POR MIM! - gritou Enji.
- Você que é lento! - provocou Kai, olhando para trás.
- AH, É?! VOU TE MOSTRAR QUEM É LENTO!
Enji acelerou, mas acabou tropeçando levemente no próprio pé, perdendo alguns segundos.
Natsume não conseguiu segurar a gargalhada.
- ENJI! OLHA POR ONDE ANDA!
- EU ESTOU OLHANDO!
- NÃO PARECE! - respondeu Kai, rindo.
Os três continuaram correndo até chegarem a uma pedra próxima à estrada, que costumavam utilizar como ponto de chegada em suas pequenas competições.
Kai chegou primeiro e ergueu os braços.
- EU GANHEI!
Enji finalmente alcançou os dois, completamente ofegante.
- Isso não vale! Você saiu na frente!
- Nada disso! Você que é lento!
- Eu tropecei!
Natsume colocou as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego.
- Vocês dois conseguem transformar qualquer brincadeira em uma competição...
Kai colocou as mãos na cintura, exibindo um sorriso convencido.
- É porque eu nasci para vencer!
- Nasceu foi para se achar! - respondeu Enji.
Os três começaram a rir.
Aquela era a rotina deles. Não precisavam de grandes aventuras para se divertir. Bastavam um ao outro, um pouco de espaço e a imaginação de três crianças que ainda tinham o mundo inteiro pela frente.
Depois de algum tempo, o cansaço finalmente venceu.
Os três se sentaram perto de uma árvore, buscando descansar à sombra.
Enji se jogou contra o tronco, completamente exausto. Natsume ajeitou os cabelos, enquanto Kai permaneceu olhando para o céu, com um sorriso pensativo no rosto.
- Ei, Kai - começou Natsume.
- O quê?
- Você realmente quer ser igual ao seu pai quando crescer?
Kai virou o rosto para ela.
- Quero!
Sua resposta foi tão rápida que os dois amigos ficaram olhando para ele.
- Tipo... Rei Deus Celestial e tudo mais? - perguntou Enji.
- Isso mesmo!
Kai se levantou e fechou os punhos diante do peito, como se estivesse fazendo uma promessa.
- Eu vou ficar muito forte! Mais forte do que sou agora! Vou proteger as pessoas e ajudar todo mundo que precisar de mim!
Natsume sorriu, observando a empolgação do amigo.
- Você fala disso com tanta certeza...
- Porque eu tenho certeza!
Kai olhou para os dois.
- Um dia, vou ser um Rei Deus igual ao meu pai. E vou mostrar para todo mundo que o nome Kajiwara continua sendo importante!
Enji abaixou um pouco a cabeça.
- Deve ser legal ter um pai como o seu...
Kai perdeu parte da empolgação ao perceber a mudança na voz do amigo.
- Enji...?
O garoto manteve os olhos fixos no chão por alguns instantes.
- Eu nunca conheci meu pai. Na verdade, sou órfão. Não tenho ninguém para me contar histórias sobre ele ou para dizer como ele era.
Ele tentou sorrir, mas seu olhar continuava distante.
- Às vezes, fico imaginando como seria ter um pai para conversar... Alguém que pudesse me ensinar algumas coisas.
Natsume permaneceu em silêncio por um instante.
- Eu também sou órfã - disse ela, baixinho.
Enji olhou para a amiga.
Natsume abraçou os próprios joelhos.
- Não tenho meus pais comigo. Por isso, gosto quando você conta as histórias do San, Kai. Mesmo que eu não tenha conhecido ele, é como se pudesse conhecer um pouquinho de como era esse mundo quando ele ainda estava aqui.
Kai escutou os dois sem interromper.
Até aquele momento, sempre pensara na história do pai como a história de um grande herói. Nunca tinha parado para pensar que aquelas mesmas histórias poderiam significar algo diferente para seus amigos.
Ele se sentou novamente ao lado deles.
- Então eu vou contar quantas vezes vocês quiserem!
Enji ergueu o rosto.
- Sério?
- Claro! Eu sei um monte de histórias sobre ele!
Natsume sorriu.
- Até aquelas que você já contou tantas vezes que a gente sabe de cor?
- Principalmente essas!
Os três começaram a rir.
Por um instante, as preocupações desapareceram. Não importava que Enji e Natsume não tivessem seus pais ao lado deles, nem que Kai carregasse consigo a saudade de alguém que nunca tivera a oportunidade de conhecer de verdade.
Naquele momento, eles tinham uns aos outros.
Kai olhou para os dois amigos e sentiu uma determinação crescer dentro de si.
- Quando eu ficar forte, vou proteger vocês também!
Natsume sorriu e balançou a cabeça.
- Não precisa nos proteger de tudo, Kai. A gente também vai ficar forte!
- É isso aí! - concordou Enji, recuperando sua animação. - Não vou deixar você ser o único a se tornar um grande guerreiro!
Kai soltou uma risada.
- Então vamos ficar fortes juntos!
Os três juntaram as mãos, transformando aquela conversa em uma promessa.
Nenhum deles poderia imaginar quantas coisas mudariam antes que tivessem a oportunidade de cumprir aquelas palavras.
Kai voltou a olhar para o céu.
- Um dia, eu vou trazer a esperança do meu pai de volta ao mundo...
Sua voz saiu baixa, mas carregada de convicção.
- Eu prometo.
O vento soprou suavemente entre as folhas da árvore.
E, enquanto as três crianças continuavam a sonhar com o futuro, muito longe dali, outras pessoas preparavam um destino completamente diferente para elas.
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Afastado das ruas movimentadas de Ignara, um exército de figuras encapuzadas aguardava em silêncio.
Seus integrantes estavam posicionados diante de um homem cuja presença parecia suficiente para manter todos os outros imóveis.
Seu rosto permanecia escondido sob o capuz, e sua postura transmitia uma autoridade que dispensava qualquer demonstração de força.
Nenhum dos subordinados ousava conversar. Alguns mantinham a cabeça baixa, enquanto outros aguardavam atentamente, sem desviar os olhos de seu mestre.
O silêncio só foi quebrado quando um dos encapuzados deu um passo à frente e se ajoelhou.
- Mestre... estamos prontos para receber suas ordens.
O homem não respondeu imediatamente.
Permaneceu imóvel por alguns instantes, observando o reino que se estendia diante deles.
Somente depois de um breve silêncio sua voz rompeu o ambiente.
- Quero que vocês invadam Ignara e capturem o máximo de pessoas que conseguirem.
O subordinado ergueu ligeiramente a cabeça.
- Todos que encontrarmos, mestre?
- Todos aqueles que conseguirem levar.
A resposta foi curta e fria.
O homem deu alguns passos à frente.
- Não desperdicem tempo com aqueles que tentarem resistir. Não tenho interesse em desculpas ou fracassos.
Sua voz permaneceu tranquila, mas cada palavra carregava uma ordem impossível de ignorar.
- Levem o maior número possível de prisioneiros.
O subordinado abaixou a cabeça.
- Entendido.
O mestre ficou em silêncio por mais alguns segundos.
Então, acrescentou:
- E prestem atenção especial às crianças.
O encapuzado pareceu hesitar por um instante.
- Às crianças, mestre?
O homem virou lentamente o rosto em sua direção.
- Preciso repetir minha ordem?
O subordinado imediatamente abaixou a cabeça.
- Não, mestre. Faremos exatamente como ordenou.
O homem voltou a olhar para Ignara.
Lá embaixo, as construções ainda eram iluminadas pelo sol. Pessoas caminhavam pelas ruas, comerciantes atendiam seus clientes e crianças brincavam sem imaginar o que estava prestes a acontecer.
O homem observou aquela tranquilidade por alguns instantes.
Não demonstrava pressa, preocupação ou qualquer sinal de hesitação.
Para ele, aquilo era apenas o início de algo que já havia decidido colocar em movimento.
Finalmente, ergueu uma das mãos.
- Comecem.
Todos os encapuzados se movimentaram imediatamente.
E, naquele instante, enquanto o Reino de Ignara continuava vivendo mais um dia aparentemente tranquilo, uma ameaça começou a avançar em direção àquelas pessoas.
Kai Kajiwara ainda não sabia, mas sua infância estava prestes a chegar ao fim.
O destino dele, de Enji e de Natsume começaria a tomar um rumo completamente diferente.
E nada voltaria a ser como antes.