Python — O início de uma nova era
O primordial Python tinha dois metros de altura e um corpo esquelético, coberto por uma pele leitosa. Seus olhos lembravam um rio profundo, cheio de limo. Os cabelos brancos chegavam ao chão e, naquele momento, com os olhos semicerrados, observava um grande portão que se erguia majestosamente em direção aos céus.
O portão continha gravuras de um céu estrelado e de uma manhã ensolarada. Uma grande muralha, de tamanho desproporcional, circundava uma enorme árvore que ficava no centro. Ao redor da muralha, havia uma floresta fechada, onde as árvores pareciam crescer eternamente.
Dois gigantes guardavam o portão. O primeiro vestia uma túnica azul e roxa, que lembrava uma noite estrelada, e portava uma grande espada longa. Já o segundo vestia uma túnica amarela e vermelha, que lembrava um dia ensolarado, e carregava um escudo.
O local possuía a noite e o dia ao mesmo tempo. Era como se o universo estivesse dividido ao meio.
Python se transformou em uma serpente branca e rastejou em meio às árvores, passando pela grama alta em direção ao portão. À medida que se aproximava, o portão lançou uma força invisível em sua direção, mas ele não demonstrou sinais de recuo e continuou avançando.
Ao chegar perto do calcanhar do gigante que segurava um grande escudo, capaz de defender seu enorme corpo de mais de cinco metros de altura, abriu a boca, mostrando suas grandes presas, das quais pingava um líquido verde-escuro.
Com uma mordida rápida e decisiva, cravou suas presas no calcanhar do gigante, que, assustado, caiu para trás, forçando uma pequena abertura no portão.
— O que foi, Giges? Recomponha-se! — disse o outro gigante, que rapidamente o ajudou a ficar de pé, fechando a brecha.
— Cottus, senti como se mil espadas tivessem sido cravadas no meu corpo. Algo não está certo.
Seu rosto estava contraído em uma carranca, enquanto um formigamento lascivo subia por sua perna.
Lá dentro, havia uma árvore branca, com galhos retorcidos, cercada por um grande jardim. O clima era fresco, como se tivesse acabado de chover, proporcionando uma sensação aconchegante.
Python escutou a reclamação do gigante do lado de fora e fez uma careta.
— Pelos céus, foi só uma picadinha de nada. Que cara dramático!
Na árvore, doze maçãs de cor roxa brilhavam intensamente, como se estivessem chamando Python.
— Vocês me ajudaram a começar uma nova era, despertando aquelas pobres criaturas — sussurrou, como se estivesse falando com as maçãs.
Ele começou a engolir as frutas, fazendo a árvore murchar. Quando retirou a última maçã, a grande árvore se desfez em cinzas.
— Cottus, eu falei que havia algo errado! Sentiu essa podridão? E essa dor não para! Está se espalhando pelo meu corpo. Estou perdendo minhas forças! — falou Giges, enquanto passava a mão pelo rosto, que já estava coberto de gotas de suor.
— Eu sei, seu tolo! O clima está péssimo. Mas não estamos autorizados a entrar. Mais importante: seu rosto! Você precisa de tratamento. Quando os primordiais vão aparecer? Já deveriam estar aqui há séculos. Nossa dívida já foi paga!
Voltando pelo mesmo caminho, Python rastejava, mas, dessa vez, ao chegar diante do portão, seu corpo começou a crescer e a se alargar, transformando-se em uma grande serpente branca, com vinte metros de comprimento e dez de largura.
Lançou-se com toda a sua força contra o portão, causando um estrondo e arremessando os guardas e os próprios portões a milhares de quilômetros de distância. O impacto alterou a paisagem e fez subir uma grande cortina de fumaça.
Cottus ergueu sua espada, como se fosse executar um simples corte de cima para baixo. Quando a desceu na direção de Python, o céu e o próprio tempo foram cortados ao meio, com um som estridente, como se o universo estivesse se abrindo em pedaços de vidro.
Python rapidamente se transformou em uma ave coberta por chamas verde-escuras. O golpe o cortou ao meio, mas, em seguida, seu corpo se reorganizou como brasas suspensas no ar, formando novamente a ave.
Sem demonstrar hesitação, voou por cima de Cottus, cuspindo uma rajada de fogo na direção dos gigantes.
— Me proteja, Giges!
Quando olhou para seu companheiro, somente naquele momento percebeu que ele já não estava vivo. Seu corpo expelia um líquido verde-escuro por todos os orifícios.
As costas de Cottus gelaram e seu coração acelerou, como se algo estivesse se quebrando dentro dele.
— Você irá pagar, seu ladrão! Por profanar esta terra sagrada! — gritou com todas as suas forças.
Suas veias ficaram salientes e seu rosto, que lembrava bronze, tornou-se avermelhado enquanto recebia a rajada de fogo.
Ele é um tolo se acha que vou ficar em uma disputa besta de forças. A esta altura, meus irmãos já podem ter percebido o que aconteceu e vir atrás de mim. Este não é o momento de lutar contra eles. Já consegui as frutas. Agora vamos para a segunda fase.
Python, aproveitando a raiva do gigante e as chamas que encobriam sua visão, voou pelo espaço em direção a um planeta a mil anos-luz de distância.
Quando percebeu o que havia acontecido, Cottus rugiu, fazendo surgir terremotos por todo o planeta.
— Vou te caçar! — gritou com todas as suas forças.
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Na imensidão do universo, milhares de seres humanoides translúcidos estavam ajoelhados diante de um grande trono que se erguia pelo universo.
Quem olhasse para ele veria estrelas colidindo umas contra as outras, universos nascendo e morrendo. O corpo daquele ser tinha um tamanho impossível de calcular. Ele era tudo e nada ao mesmo tempo.
Os seres não tinham coragem nem de olhar diretamente para ele, pois temiam enlouquecer.
E ali, ajoelhado como uma formiga que nem ousava respirar diante daquele ser, estava Cottus, que surgiu como um fantasma.
— Vocês, minhas criações! Está na hora de se dispersarem. São livres para fazer o que quiserem: caçar seu irmão rebelde ou se unir a ele. Não me interessa o que façam. Mas lembrem-se: eu sempre estarei de olho em vocês. Cottus, você também está livre para fazer o que quiser.
Sua voz ecoou por todo o universo. Todos os seres viventes escutaram suas palavras e tremeram, pois não conseguiam compreendê-las. Somente os seres elevados eram capazes de entender o verdadeiro significado daquelas palavras.
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Python, em forma de uma ave flamejante, voava pelo planeta, sobrevoando rios e florestas. Diversas formas de vida se espalhavam por aquele mundo.
No topo de uma montanha, encontrou seres humanoides com quatro metros de altura e corpos robustos. Sua pele tinha um tom azulado que lembrava o céu.
As criaturas seguravam pedaços de pau e, quando viram a ave flamejante pousando diante delas, ficaram paralisadas, como se estivessem diante de um predador.
Seus corpos começaram a apresentar espasmos. Alguns desmaiaram diante da pressão. Sem perceber, todos acabaram se ajoelhando.
Python voltou à sua forma humanoide e enfiou a mão dentro da própria boca, retirando uma maçã que parecia pulsar como um coração.
Esticando a mão para a frente, ofereceu a fruta às criaturas.
Uma delas, a menor de todas, criou coragem e pegou a maçã. Como um animal sendo alimentado pelo próprio dono, mordeu a fruta com a permissão de Python.
Naquele momento, enquanto o doce descia por sua garganta, sua consciência se abriu, assim como a de todos os indivíduos de sua espécie.
Ele se perguntou o que era. Quando olhou para o ser que estava diante dele, o medo que sentira antes pareceu aumentar ainda mais.
Python não se importou com os olhares das criaturas. Transformou-se novamente na ave flamejante e voou para longe, retirando a pressão invisível que exercia sobre elas.
Em uma caverna, encontrou seres de corpos frágeis e magros, com orelhas pontudas e peles que lembravam cinzas. Ofereceu uma maçã a eles.
E assim continuou, distribuindo todas as frutas entre diferentes raças.
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Em uma montanha, Python observava o horizonte enquanto escutava as palavras que ecoavam pelo universo.
— Distribuí todas. Agora é só esperar que eles evoluam. Meus irmãos virão atrás de mim por ter matado a plantinha querida deles. São tolos e desagradáveis. Mas não entendem a verdade do universo.