Já havia três horas que eles estavam sentados no chão da sala, com as costas apoiadas no sofá e as pernas esticadas debaixo da mesa de centro. A garrafa de vinho estava pela metade. Os dois copos, vazios. A tigela de salgadinhos tinha virado mais farelo do que salgadinho, e no fundo do apartamento tocava uma música baixa que nenhum dos dois tinha escolhido — era a playlist no aleatório.
A luz da sala estava baixa. Jungkook tinha apagado a principal mais cedo porque "estava forte demais". O apartamento ficava com cara de outro lugar, e Taehyung ficava com cara de outra coisa — os ângulos do rosto mais suaves, os olhos mais escuros, o casaco oversized caindo no ombro de um jeito que não devia chamar tanta atenção, mas chamava.
O casaco. Jungkook olhou para o casaco de novo.
Era um moletom largo, cinza escuro, com o zíper aberto até o meio do peito. Taehyung usava sem nada por baixo. Só a pele, a clavícula, e aquele pedaço de pescoço que aparecia quando ele inclinava a cabeça para olhar as cartas. Jungkook sabia que era só um casaco. Sabia que Taehyung vestia qualquer coisa daquele jeito — jogava em cima do corpo e de alguma forma funcionava. Não era culpa do casaco. Era culpa do Taehyung.
Mas Jungkook queria o casaco.
— Tae.
— Hm?
— Essa vai ser a última partida.
Taehyung levantou os olhos das cartas. Tinha aquela expressão de quem já perdeu tantas vezes que a derrota virou paisagem.
— Eu não quero mais perder pra você.
— Então para de jogar mal.
— Eu não jogo mal. Você que trapaceia.
— Eu não trapaceio. Você que não presta atenção.
Taehyung estreitou os olhos. Jungkook sustentou o olhar com aquela cara de nada que ele sabia que deixava o outro maluco — a boca reta, as sobrancelhas paradas, zero emoção. Por dentro estava se divertindo. Sempre se divertia quando Taehyung ficava assim, meio indignado, meio teimoso, com o orgulho ferido de quem não aceita ser ruim em alguma coisa.
— Tá bom — Taehyung disse, embaralhando as cartas com mais força do que o necessário. — Última partida. Mas dessa vez eu vou ganhar.
— Você fala isso toda rodada.
— Dessa vez é sério.
Jungkook encheu os dois copos de vinho. Empurrou um na direção do Taehyung. Esperou ele beber um gole e então disse, como quem não quer nada:
— Eu quero apostar uma coisa.
Taehyung parou com o copo no ar.
— Apostar o quê?
Jungkook olhou para o casaco. Não disfarçou. Deixou o olhar descer do rosto do Taehyung até o moletom aberto, até a clavícula, até o pedaço de pele que aparecia no decote, e depois subiu de volta.
— Seu casaco.
Taehyung olhou para baixo, para o próprio corpo, e depois de volta para o Jungkook.
— Meu casaco?
— É.
— Por quê?
Jungkook deu de ombros.
— Gostei dele.
Não era mentira. Também não era a verdade inteira. A verdade era que ele queria o casaco, porque o casaco ia chegar em casa com o cheiro do Taehyung, e ele ia pendurar no gancho atrás da porta do quarto, e de madrugada quando não conseguisse dormir ia sentir aquele cheiro e fingir que não significava nada. Mas isso ele guardou. Guardou no mesmo lugar onde guardava todas as outras coisas que sentia pelo Taehyung.
— Eu tô sem nada por baixo, Jungkook.
— Eu sei.
O silêncio durou dois segundos.
— Tá. E se eu ganhar?
— Você não vai ganhar.
— Mas se eu ganhar?
Jungkook pensou por um segundo.
— Se você ganhar, eu faço o que você quiser.
Taehyung ergueu uma sobrancelha.
— Qualquer coisa?
— Qualquer coisa.
Outro silêncio. Dessa vez mais longo. Taehyung mordeu o lábio inferior e depois sorriu. Aquele sorriso retangular, largo, que tomava o rosto inteiro e que Jungkook achava a coisa mais injusta do mundo porque ninguém devia sorrir assim e esperar que a outra pessoa continuasse raciocinando normalmente.
— Fechado — Taehyung disse, e distribuiu as cartas.
A partida durou onze minutos.
Jungkook ganhou.
Não foi apertado. Não foi dramático. Foi o tipo de vitória tranquila que vem de quem já sabia o resultado antes de começar — não por arrogância, mas porque Jungkook prestava atenção. Prestava atenção nas cartas, nas jogadas, nos padrões. Prestava atenção em tudo que o Taehyung fazia, na verdade, mas isso era outro assunto.
Taehyung largou as cartas na mesa e jogou a cabeça para trás, encostando no assento do sofá.
— Eu não acredito. Você é insuportável.
— E você está me devendo um casaco.
Taehyung ficou parado por um momento, olhando para o teto. Depois se endireitou, olhou para o Jungkook, e começou a puxar o zíper para baixo. Devagar. Não por provocação, mas porque ele fazia tudo naquele ritmo, como se o mundo pudesse esperar.
O casaco deslizou pelos ombros dele. Primeiro um lado, depois o outro. A pele apareceu aos poucos — o ombro, o braço, a lateral do tronco. Taehyung tirou o moletom e ficou ali, sem camisa, com o cabelo levemente bagunçado e a luz baixa desenhando sombras nos lugares errados.
Jungkook pegou o casaco que Taehyung estendeu. Estava morno. Estava com o cheiro dele — aquele cheiro que não era perfume nem sabonete, era só Taehyung, só pele e calor e alguma coisa que Jungkook não conseguia definir, mas que reconheceria em qualquer lugar do mundo.
— Satisfeito? — Taehyung perguntou, cruzando os braços sobre o peito. Não parecia com vergonha. Parecia com frio.
Jungkook olhou para ele. Para os braços cruzados, para a pele arrepiada, para o rosto que fingia irritação mas que tinha um sorriso escondido no canto da boca.
Dobrou o casaco no colo. Passou a mão no tecido uma vez, devagar, como quem alisa uma coisa que pretende guardar por muito tempo.
— Satisfeito.