DIA SEGUINTE, 7:45
O escritório de seu pai era completamente o oposto da cela onde sua filha estava.
As paredes eram revestidas de madeira escura, decoradas com quadros antigos e prateleiras repletas de bebidas importadas. Um enorme lustre de cristal iluminava o ambiente, refletindo sua luz sobre a mesa de mogno maciço posicionada no centro do cômodo.
O cheiro de charuto cubano impregnava o ar.
Sentado na cadeira de couro, Kang Min-jae girava lentamente um copo de whisky enquanto analisava alguns documentos.
Sua expressão permanecia tranquila, como se os problemas do mundo jamais fossem capazes de alcançá-lo.
Do lado de fora, a chuva caía forte. O som dos trovões era abafado pelo isolamento acústico da mansão.
A porta foi aberta sem cerimônia.
Um dos seguranças entrou apressado, respirando pesado.
─── Senhor.
Min-jae sequer levantou os olhos dos papéis.
─── Espero que tenha um bom motivo para interromper meu minuto de descanso.
O homem engoliu em seco.
─── A sua filha pegaram ela.
A caneta que Min-jae segurava parou por um breve instante. Apenas por um segundo. Depois voltou a assinar o documento.
─── Fizeram um favor pra mim. ─── O segurança franziu a testa.
─── Senhor... ela é sua filha. ─── O segurança disse, perplexo.
─── Aquela garota nunca fazia nada de útil. Ao contrário só me dava trabalho. ─── O mais velho não demonstrava preocupação com você.
Era como se estivessem falando de uma desconhecida.
─── O senhor... pretende fazer alguma coisa?
─── Min-jae colocou a caneta sobre a mesa e levou
o copo aos lábios. Bebeu um gole demorado. Só então respondeu:
─── Não. ─── O segurança piscou, sem acreditar.
─── Senhor...
─── Você não ouviu?
─── Mas... ─── Uma risada baixa escapou dos lábios do homem mais velho.
─── Para de falar seu irritante. Ela é inútil para mim. ─── Ele repetiu a palavra como se ela tivesse perdido completamente o significado. ─── Aquela garota nunca passou de um problema.
Outro segurança tomou coragem para falar.
─── Jungkook provavelmente vai usá-la para pressioná-lo.
─── Que pressione.
─── E se ele machucá-la? ─── Min-jae apoiou os cotovelos sobre a mesa. Seu olhar era vazio, frio.
─── Problema dela. ─── Os homens trocaram olhares discretos, nenhum deles esperava aquela resposta. Por pior que fosse um mafioso... Ainda era comum que protegesse a própria família.
Mas Kang Min-jae parecia incapaz disso.
─── E se ele a matar?
─── Que mate. Tudo que desejo é me livrar de
vez daquele peso. ─── O ambiente mergulhou
em silêncio, ninguém teve coragem de responder. Naquele instante... O telefone sobre a mesa
começou a tocar.
A tela iluminou o escritório.
Jeon Jungkook
Um dos capangas prendeu a respiração, outro desviou o olhar. Todos sabiam que aquela ligação definiria o início de uma guerra.
Min-jae sorriu de canto.
───Finalmente. ─── Atendeu sem pressa.
─── Achei que fosse demorar mais para ligar. ───
Do outro lado da linha... A voz grave de Jungkook ecoou fria como aço.
─── Estou com sua filha. ─── Min-jae girou novamente o uísque.
─── Eu sei.
─── Desgraçado. ─── A mandíbula tencionou.
─── Você pode me xingar o quanto quiser, não vai mudar nada Jeon. ─── O velho provocou.
─── Devolva as minhas cinquenta caixas de armas. ─── Jungkook já estava perdendo a paciência.
Então Min-jae respondeu.
─── Nunca, agora elas são minhas. ─── Os homens de Jungkook observaram o chefe em silêncio. Qualquer outra pessoa teria implorado, mas Kang Min-jae... Parecia não sentir medo. Jungkook apertou o celular contra o ouvido.
─── Velho desgraçado, você vai pagar caro por ter mexido mas minhas coisas.
─── Se você conseguir me encontrar. ─── Debochou.
─── Sua filha está pagando pelo seu erro.
─── Min-jae deu uma pequena risada.
─── Ela não significa absolutamente nada para
mim. ─── Nem mesmo os homens que estavam atrás de Jungkook conseguiram esconder o
espanto.
Um dos seguranças de Jungkook murmurou.
─── O cara é realmente um filho da puta, não se importa nem com a própria filha. ─── Aquilo não era normal.
─── Pode fazer o que quiser com ela. ─── O velho disse com a voz calma. ─── Torturar, mantê-la presa, ou até matá-la. ─── Ele fez uma pausa. ───
Nada disso vai me fazer devolver as armas.
O maxilar de Jungkook travou.
Ele já havia visto homens venderem aliados, traírem irmãos, traírem a própria organização, mas abandonar a própria filha...
Era um tipo diferente de covardia.
─── Você é um covarde, desgraçado - Disse Jungkook
irritado.
─── Se isso vai fazer você entender que perdeu seu tempo... ─── O velho deu um sorriso amargo.
Jungkook olhou para ela, sem dizer uma única palavra, caminhou até você. Girou lentamente a chave a porta se abriu. O quarto continuava escuro, Frio e silêncioso.
Amara permanecia sentada ali no chão, com os joelhos encolhidos contra o peito. Ao ouvir os passos, levantou rapidamente a cabeça.
Seus olhos estavam inchados, ela ainda tentava entender por que tudo aquilo estava acontecendo. Jungkook aproximou-se lentamente. Parou diante dela, sem mudar a expressão, estendeu o celular.
─── É seu pai. ─── Ela encarou o telefone, seu coração vacilou, as mãos tremiam tanto que ela teve dificuldade para segurá-lo. Era a chance de sair dali. Seu pai viria buscá-la.
Ele precisava vir, era seu pai e respirando fundo, ela levou o celular até a orelha.
─── P-pai... ─── Ela disse, quase sem voz. ───
Do outro lado da linha, ouviu apenas a respiração calma de Kang Min-jae.
─── Então você ainda está viva? ─── A voz dele era indiferente, como se estivesse conversando com um estranho os olhos de Sn voltaram a se encher de lágrimas.
─── Pai... eles me prenderam... ─── Sua voz falhou, ela olhou rapidamente para Jungkook, que permanecia parado perto da porta, completamente imóvel, observando a cena em absoluto silêncio.
─── Eu... eu estou com medo... ─── Min-jae deu uma risada baixa.
─── Medo? ─── Ela apertou o telefone contra o ouvido.
─── Por favor... me tira daqui... ─── Silêncio, um silêncio que parecia durar uma eternidade. Até que ele respondeu.
─── Não. ─── Ela sentiu o peito apertar.
───O quê...?
─── Você ouviu muito bem. Você sabe que eu nunca te quis. O Jungkook fez um favor para mim. ─── As lágrimas começaram a escorrer novamente.
─── Pai... eles me prenderam por sua causa!
─── Eu sei.
─── Então faz alguma coisa!
─── Não vou mover um dedo garota. ─── Ela deu um passo para frente, esquecendo por um instante que as algemas ainda limitavam seus movimentos. A corrente esticou com força, fazendo um barulho metálico ecoar pelo quarto.
─── Eu sou sua filha! ─── Do outro lado da linha, Kang Min-jae soltou um longo suspiro.
─── Esse é o único problema. ─── Ela ficou em silêncio.
─── Por sua culpa eu perdi a sua mãe. ───
Cada palavra feria mais do que qualquer tapa.
─── Por sua culpa ela morreu. ─── O mundo pareceu parar.
─── Pai...
─── Não me chame assim. ─── Sua voz saiu firme, sem qualquer traço de arrependimento. ─── Eu já deveria ter me livrado de você há muito tempo. ───
Ela levou a mão livre até a boca, tentando conter o choro. Mas era impossível. Seu coração parecia despedaçado.
─── Eu... não sou culpada pela morte dela. ───
Min-jae nem precisou pensar.
─── Claro que é. ─── Ela arregalou os olhos.
─── Não sou. ─── As lágrimas caíam sem parar. ─── Por favor...
─── Escute bem. ─── A voz dele tornou-se ainda mais fria. ─── Jungkook pode fazer o que quiser com você, pode mantê-la presa, pode usá-la como moeda de troca, pode até matá-la. ─── Ele fez uma breve pausa. ─── Eu não vou devolver as armas e não tirar você dai. ── Sn sentiu as pernas perderem a força, ela caiu lentamente de joelhos.
─── Pai. ─── Sua voz saiu em um sussurro.
─── Não me chame de pai. ─── A ligação foi encerrada o celular escorregou de seus dedos. Caiu sobre o chão de concreto. O quarto mergulhou em um silêncio sufocante.
Ela abraçou as próprias pernas, escondendo o rosto entre os joelhos. Nunca havia sentido uma dor tão grande.
Não era medo de Jungkook, não o era medo daquela prisão. Era a certeza de que a única pessoa que deveria protegê-la acabara de abandoná-la sem olhar para trás.
Jungkook permaneceu parado. Seu rosto continuava inexpressivo, ele recolheu o celular do chão. Olhou para a tela apagada. Sua mandíbula se contraiu.
─── Maldito... Ele já tinha planejado tudo antes de roubar as armas. ─── A palavra saiu quase como um sussurro, um de seus homens, que aguardava do lado de fora, ouviu, Jungkook passou a mão pelos cabelos.
─── Aquele desgraçado vendeu a própria filha por cinquenta caixas de armas. ─── Seus olhos escureceram. ─── Diga aos nossos homens para continuarem procurando Kang Min-jae. ───
O segurança assentiu.
─── Sim, chefe. ─── Jungkook caminhou até a porta, mas antes de sair, lançou um último olhar para Sn, que continuava chorando, completamente destruída pelas palavras do próprio pai. Ele não sentia pena, pena era um luxo que deixara de existir em sua vida muitos anos atrás, mas havia uma coisa que ele odiava mais do que qualquer traição. Homens que abandonavam a própria família.
Ele segurou a maçaneta.
Sem sequer olhar para trás, disse em voz baixa.
─── Até o inferno vai ser pequeno quando eu encontrar aquele velho. ─── Murmurou. ─── E você, pare de chorar por pessoas que não se importam com você. Só porque tem consideração por elas. ─── A voz grave fez Sn erguer levemente o rosto. Com os olhos vermelhos o rosto completamente molhado pelas lágrimas.
Ela não respondeu.
─── Quando eu vou sair daqui?
─── Não me faça perguntas. ─── Ela engoliu em seco, ele balançou o rosto negativamente.
─── Eu não sou sua prisioneira.
─── Mas é a garantia de uma dívida e já que seu pai não vai me devolver as 50 caixa de armas. Vou ficar com você.
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