O mundo de Dante Alieri não tinha espaço para meio-termos. Construído sobre os alicerces de aço, contratos bilionários e o silêncio complacente de quem controlava os bastidores do poder global, seu império corporativo funcionava com a precisão de um relógio suíço e a frieza de uma tumba. Aos trinta e cinco anos, CEO da Alieri Holdings, Dante era a personificação da autoridade absoluta. Vestia-se com a elegância impecável de quem não precisava levantar a voz para ser obedecido, comandando com um punho de ferro que esmagava qualquer ameaça antes mesmo que ela se materializasse.
Para o mundo exterior, ele era uma fortaleza impenetrável. Um homem sem fraquezas, intocável e desprovido de qualquer âncora emocional.
No entanto, a solidez de seu castelo ruía diante de uma única variável que ele jamais conseguira calcular: Liam.
Liam era o oposto de tudo o que Dante representava. Herdeiro de Matias — um aliado influente e respeitado no submundo dos grandes conglomerados —, o rapaz de vinte e dois anos carregava uma mente brilhante e afiada, mas que vinha acompanhada de uma teimosia implacável. Enquanto Dante era a personificação do cálculo frio, Liam era a luz, a impulsividade e uma chama viva que parecia desafiar a escuridão ao seu redor, testando cada milímetro da paciência de Dante com seu jeito.
Tudo mudara quando Matias precisou se ausentar para uma longa e delicada viagem de negócios internacional. Embora o pai mantivesse o filho rigidamente protegido em seu dia a dia com um aparato robusto de seguranças, a partida iminente exigia que Liam ficasse. Preocupado com a segurança do herdeiro e impossibilitado de levá-lo por causa dos compromissos fixos do rapaz na faculdade de artes e de outras obrigações na cidade, Matias tomou a decisão de confiar o filho diretamente ao seu parceiro mais poderoso. O velho aliado acreditava estar deixando o garoto sob a tutela do escudo mais intransponível do país.
Não percebendo, contudo, que estava acendendo o pavio de uma bomba-relógio bem debaixo do próprio teto.
A rotina de Dante transformou-se em um desafio diário. Sob o pretexto corporativo de garantir a integridade do herdeiro aliado durante a ausência do pai, a vigilância de Dante transformou-se em uma obsessão silenciosa e sufocante.
Informantes confiáveis de Dante iam em seu escritório particular e descreviam a rotina de Liam em tempo real: cada passo, cada sorriso direcionado a estranhos, cada suspiro de frustração nos corredores acadêmicos.
Dante conhecia os horários, os gostos e os pontos fracos do garoto melhor do que ninguém. Ele o protegia do mundo exterior, mas não conseguia proteger Liam de si mesmo.
Liam, nem imaginava a intensidade da obsessão de Dante, para ele o CEO não passava de um guardião severo e controlador, alguém cuja rigidez ele fazia questão de desafiar a cada oportunidade. De início, não havia qualquer sombra de obsessão por parte do rapaz; para Liam, Dante era apenas mais um obstáculo à sua liberdade.
Era uma colisão inevitável entre opostos absolutos. O gelo contra o fogo. O predador e a única presa que ele recusava-se a caçar, não por falta de oportunidade, mas por pura reverência à própria ruína que ela traria. Dante podia comprar governos, manipular mercados e destruir reputações com uma única assinatura. Ele tinha o mundo inteiro ajoelhado aos seus pés.
Mas a única coisa no universo que ele não podia ter era, ironicamente, a única coisa que sua alma faminta mais desejava. E enquanto o fogo lento daquela paixão proibida — alimentada por uma obsessão que só ele cultivava — consumia sua razão por dentro, Dante soube que o império que construíra com tanto esmero desmoronaria no exato segundo em que decidisse ceder.
Capítulo 1.
O ar na cobertura de Dante Alieri fedia a pólvora invisível dos negócios de alto risco. No topo da torre de vidro que dominava o horizonte financeiro da metrópole, o silêncio era habitado apenas pelo zumbido suave dos servidores de alta segurança e pelo pulsar implacável de um império que não dormia. Dante estava de pé diante da parede de vidro, o reflexo de seu terno perfeitamente cortado fundindo-se com as luzes distantes da cidade.
Aos trinta e cinco anos, ele era a própria definição de controle absoluto. Nenhuma variável entrava ou saía de seu ecossistema sem que ele soubesse. Ou pelo menos era nisso que ele acreditava, até a porta do elevador privativo se abrir e revelar Matias.
Matias não era um homem comum. Aliado de longa data e parceiro nos cantos mais cinzentos do submundo corporativo, o velho magnata parecia exausto. Havia rugas profundas ao redor de seus olhos e uma urgência contida em seus passos pesados. Ele carregava uma pasta de couro que parecia pesar toneladas.
— Dante — disse Matias, dispensando qualquer formalidade ao caminhar direto para o bar privado e servir-se de uma dose de uísque puro, sem pedir permissão. Algo grave estava acontecendo.
Dante virou-se lentamente, cruzando os braços com a elegância fria de quem ditava as regras do jogo.
— Você invadiu minha cobertura às três da manhã, Matias. Esqueceu os modos ou o império está ruindo? — a voz de Dante era um barnítono cortante, desprovido de qualquer traço de humor.
— Preciso de um favor. O maior favor da minha vida — Matias virou o copo de uma vez, respirando fundo antes de encarar o parceiro. — Vou precisar fazer uma viagem de negócios de longa duração. Um acordo internacional crítico, fora do país. Não posso recusar, e não posso levar a cabo a segurança daqui enquanto estiver ausente.
Dante arqueou uma sobrancelha, o desdém sutil pintando seu semblante.
— Desde quando você precisa da minha ajuda para gerenciar seus seguranças? Você tem um exército particular, Matias. Contrate mais mercenários.
— Meus homens protegem meus interesses, meus prédios e minhas rotas. Mas há algo de muito mais valioso que preciso deixar trancado e a salvo. Alguém — Matias corrigiu-se, a mandíbula tensa. — Vou deixar meu filho sob a sua tutela.
O escritório mergulhou em um silêncio tão denso que o som da chuva lá fora pareceu cessar. Dante permaneceu imóvel por alguns segundos, processando as palavras. Seus olhos estreitaram-se em fendas perigosas.
— Como é que é? — Dante deu um passo à frente, a incredulidade transformando-se em uma irritação gélida. — Como assim você tem um filho, Matias? Eu faço negócios com você há mais de uma década, conheço cada centavo dos seus fundos, cada fachada de empresa fantasma, cada aliado e cada inimigo seu. E você me diz agora que tem um filho? Eu não sabia disso.
Matias deu um sorriso amargo, balançando a cabeça enquanto recarregava o copo.
— Exatamente por isso, Dante. Por que você acha que ninguém nunca soube? — Matias aproximou-se da mesa de mogno, apoiando as mãos na superfície polida. — Eu o mantive escondido do mundo inteiro de propósito. O meu submundo é cheio de abutres, de rivais que cortariam gargantas por qualquer fraqueza. Se soubessem que eu tenho um ponto fraco, um herdeiro de sangue... ele estaria morto antes de completar dez anos. Eu protegi a existência dele com unhas e dentes. Tanto que até você, o homem que sabe de tudo, não fazia ideia de que ele existia.
Dante sentiu um incômodo estranho revirar seu estômago, uma irritação por ter sido mantido no escuro, misturada a uma ponta de curiosidade mórbida.
— Você o escondeu tão bem que agora quer jogá-lo bem no meio do meu mundo? — Dante rebateu, incisivo. — Minha sede é um alvo constante. Se você traz um garoto para cá...
— Eu não estou jogando ele no fogo, estou colocando-o na fortaleza mais intranspirável que existe — interrompeu Matias, com firmeza na voz. — Você é o único homem neste país em quem confio minha vida. Por favor, Dante. São apenas algumas semanas, talvez meses. Ele estuda artes, tem a rotina dele na cidade, não posso simplesmente arrancá-lo de tudo sem causar um colapso. Ele vai continuar frequentando a faculdade, mas sob a sua vigilância direta. Eu já estruturei um aparato de escolta discreta, mas preciso que você garanta que ele não saia da linha e que ninguém o toque.
Dante respirou fundo, massageando a têmpora onde uma dor de cabeça latejava. A ideia de virar babá de um herdeiro mimado e escondido repudiava toda a sua lógica corporativa.
— Escute bem, Matias: eu não tenho paciência para garotos ricos e mimados. Não vou segurar a mão de ninguém — avisou Dante, severo.
— Não se preocupe com isso. Ele não é de baixar a cabeça — Matias suspirou, um misto de orgulho e exaustão cruzando seu rosto. — O garoto é brilhante, tem uma mente afiada para muitas coisas, mas é terrivelmente teimoso. Vai testar cada milímetro da sua paciência. Mas confio que você vai dar todo o suporte necessário enquanto eu estiver fora. Amanhã mesmo eu o trago aqui para te apresentar. Ele vai saber que você será o novo... digamos, "guarda-costas" e tutor temporário. Apenas mantenha-o vivo.
Na noite seguinte, a mesma cobertura parecia diferente. A tensão no ar não vinha dos relatórios de mercado, mas da expectativa de uma intrusão. Quando a porta do elevador se abriu novamente, revelando Matias acompanhado, os olhos de Dante moveram-se instantaneamente para o recém-chegado.
E o mundo de Dante Alieri parou de girar por um segundo exato.
Liam estava ali, de pé no centro do escritório, e ele era completamente o oposto de tudo o que Dante imaginara. Aos vinte e dois anos, o rapaz irradiava uma beleza magnética e despretensiosa. Os cabelos levemente desarrumados emolduravam um rosto de traços marcantes, e havia uma chama viva, quase insolente, brilhando em seus olhos claros. Ele vestia roupas simples, mas que desenhavam com perfeição uma silhueta esbelta e atraente. Não havia nada nele que lembrasse a frieza cinzenta do submundo corporativo; Liam parecia cor de sol e rebeldia, uma obra de arte ambulante perdida em meio a monstros de terno.
Dante permaneceu paralisado por uma fração de segundo — algo inédito em sua vida —, sentindo o olhar de Liam cruzar com o seu.
— Pai, você disse que íamos a um jantar de negócios, não a uma base militar — a voz de Liam ecoou pelo espaço, carregada de um tom desafiador e irritado, cruzando os braços de forma defensiva. — Quem é esse? E por que diabos eu preciso de um "guarda-costas" particular? Eu sei cuidar de mim mesmo!
Matias fechou os olhos por um instante, respirando fundo diante da audácia do filho.
— Liam, este é Dante Alieri. E você não está discutindo uma sugestão, está recebendo uma ordem. Enquanto eu estiver fora, você vai obedecer às regras dele.
Liam virou-se para Dante, avaliando o homem mais velho de cima a baixo com um olhar crítico, sem o menor pingo de temor ou reverência.

— Prazer, Alieri — disse Liam, com um sorriso irônico nos lábios carnudos, destilando uma petulância fascinante. — Espero que você tenha bastante tempo livre, porque eu não pretendo facilitar a sua vida.
Dante sentiu o sangue ferver nas veias, uma onda de calor denso e perigoso subindo por seu pescoço.
Sob a fachada de gelo e autoridade, algo profundo e primitivo despertou dentro dele, sibilando nas sombras. O predador havia encontrado uma presa mais magnética, e a certeza de que sua ruína começava ali desenhou-se em sua mente com a clareza de uma lâmina.
Capítulo 2
A ausência de Matias foi oficializada na manhã seguinte com a frieza burocrática de uma transferência bancária internacional e o pouso discreto de um jato executivo particular em uma pista clandestina nos arredores da capital. Antes de partir para o inferno particular de suas negociações globais, o velho magnata deixou apenas uma mensagem criptografada para Dante: *"Ele é seu problema agora. Mantenha-o respirando"*.
Para o mundo, Matias continuava trancado em seu escritório habitual, cuidando de impérios de fachada. Na prática, o homem havia evaporado do mapa, deixando um vácuo de poder que os rivais não tardariam a farejar. E no centro desse tabuleiro perigoso estava Liam.
A rotina de Liam Gary— um sobrenome que ele raramente usava para proteger-se — era uma ofensa viva à rigidez milimétrica que Dante exigia da própria existência. Enquanto o CEO da Alieri Holdings gerenciava bilhões de dólares com a precisão de um algoritmo cirúrgico, a vida de Liam parecia orbitar em torno do caos criativo e da pura teimosia.
Às oito da manhã, enquanto Dante revisava contratos de aquisição de terras, Liam estava acordando de mau humor, ignorando os três alarmes programados em seu celular. A rotina do rapaz consistia em ignorar horários fixos, vestir jaquetas jeans surradas que contrastavam violentamente com o padrão de alfaiataria da cobertura, e pegar o metrô ou caminhar pelas ruas movimentadas até a faculdade de artes plásticas no centro histórico. Para Liam, a liberdade era um direito sagrado; para Dante, que assistia a tudo através de relatórios e telas de monitoramento, aquela liberdade era um atentado diário contra a inteligência.
— Ele passou vinte minutos conversando com um vendedor de café na praça da faculdade, senhor — informou Marcus, o chefe de segurança particular de Dante, com a voz baixa através do comunicador interno do escritório. — O garoto comprou um espresso duplo, recusou a carona do nosso veículo e decidiu caminhar por um beco lateral. Estamos perdendo o ângulo de visão das câmeras fixas.
Dante, sentado diante de sua imensa escrivaninha de mogno, fechou a tampa do laptop com força suficiente para fazer os copos de cristal tilintarem. Seus olhos cinzentos faiscaram em uma fúria fria.
— Ele acha que está em uma excursão escolar? — a voz de Dante saiu como um sussurro cortante, perigoso o suficiente para congelar a sala. —Mandem os infiltrados. Quero dois homens à paisana grudados nele em tempo integral. Não quero que ninguém chegue a menos de dez metros de Liam sem que eu saiba o que estão respirando.
Em questão de minutos, a engrenagem invisível do império de Dante começou a se mover. Três agentes de elite, perfeitamente treinados para operar nas sombras sem deixar vestígios, foram redimensionados para a "Operação Sombra".
O primeiro deles, um veterano de codinome Kael, posicionou-se na cafeteria em frente à faculdade de artes, fingindo ler um jornal rasgado enquanto observava cada movimento de Liam. O segundo, infiltrado como estudante de história da arte, sentou-se duas fileiras atrás de Liam no auditório principal, com uma câmera escondida. Ele anotava no caderno muito mais do que as diretrizes do renascimento: ele registrava quem se aproximava do rapaz, com quem ele trocava sorrisos e quantas vezes Liam revirava os olhos diante das críticas dos professores. O terceiro operava a unidade móvel de vigilância, cruzando dados de reconhecimento facial em tempo real para garantir que nenhum rosto suspeito cruzasse o caminho do herdeiro.
Na mente de Dante, aquilo era puramente um protocolo de segurança. Uma estratégia fria para blindar o elo mais fraco da aliança com Matias contra os abutres que rondavam o mercado.
Mas a realidade implacável que Dante se recusava a admitir em voz alta era que os monitores em seu escritório particular haviam se transformado em seu próprio vício. Ele não estava apenas vigiando a segurança de Liam; ele estava consumindo cada segundo da vida do garoto.
Através das lentes da câmera escondida no teto do estúdio de pintura da faculdade, Dante observava Liam com as mãos sujas de tinta acrílica azul, os cabelos colados na testa suada, mordendo o lábio inferior em um gesto de concentração absoluta enquanto esculpia uma peça de argila. O rapaz praguejava baixinho quando o vaso deformava, jogando a ferramenta longe com um muxoxo de pura irritação infantil.

*Teimoso,* pensou Dante, sentindo um nó apertar em sua garganta, misturando o controle que ele tanto prezava com uma urgência febril que ameaçava romper suas defesas. *Irritante, insolente... e completamente fora de alcance.*
Enquanto os infiltrados vigiavam cada passo de Liam nas ruas, o verdadeiro perigo não era o mundo exterior tentando atacar o herdeiro.
O verdadeiro perigo estava sentado no topo da torre, observando a própria ruína aproximar-se com um pincel na mão e um sorriso desafiador no rosto.
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Livro: Sombras do desejo.