C tinha catorze anos quando acreditou, pela primeira vez, que o amor podia mudar uma pessoa.
Na escola, havia um rapaz de treze anos chamado S. Para ela, bastava cruzarem-se no corredor para o coração acelerar. Bastava vê-lo a rir com os amigos para o mundo parecer mais leve. Nunca teve coragem de lhe dizer diretamente o que sentia, mas ele acabou por perceber.
E foi aí que tudo começou a piorar.
S não gostava dela. Não da mesma forma. Em vez de ignorar os sentimentos de C, escolheu transformá-los numa arma.
Chamava-lhe nomes, gozava com ela à frente de toda a gente, empurrava-a nos corredores e, por vezes, chegava mesmo a bater-lhe. Muitas dessas vezes não estava sozinho. Os amigos riam-se, incentivavam-no e faziam o mesmo. Para eles era apenas uma brincadeira. Para C, era mais um dia de sofrimento.
Mesmo assim, ela nunca deixou de perguntar a si própria porque é que ele a odiava tanto.
Como se tudo isso não bastasse, surgiu uma história que mudou ainda mais a maneira como S olhava para ela.
Tudo começou quando G convidou C para ir a sua casa ver um filme. C aceitou, convencida de que seriam apenas as duas.
Quando chegou, percebeu que havia mais pessoas. Estavam lá S, o irmão mais velho dele e mais duas pessoas.
A noite parecia normal, até que tudo aconteceu muito depressa.
Enquanto G estava ocupada noutra parte da casa, o irmão de S chamou C para uma divisão mais afastada. Sem que ela esperasse, beijou-a.
C ficou em choque.
Quando ele tentou ir mais longe, ela afastou-se imediatamente e conseguiu fugir antes que acontecesse algo pior.
Saiu daquela divisão assustada, confusa e com vontade apenas de ir embora.
Nunca contou a ninguém o que realmente tinha acontecido.
Pouco tempo depois começaram os rumores.
Disseram a S que C se tinha envolvido com o irmão dele.
Era mentira.
Ninguém contou que ela tinha sido surpreendida. Ninguém contou que ela tinha fugido. Ninguém contou que nunca quis que nada daquilo acontecesse.
Mas S acreditou.
Era facilmente influenciado pelos outros e nunca procurou ouvir a versão de C.
Na cabeça dele, aquela mentira passou a ser mais uma prova de que ela era exatamente aquilo que os outros diziam.
E, sem saber a verdade, passou a tratá-la ainda pior.
Como se isso não bastasse, S estava apaixonado por outra pessoa.
A melhor amiga de C.
Ou, pelo menos, aquela que C acreditava ser a sua melhor amiga.
À frente dela, defendia-a.
Dizia que não era justo o que lhe faziam.
Mas, quando C não estava presente, ria-se da situação, falava com S sobre ela e alimentava ainda mais os boatos.
C desconfiava.
Havia olhares, conversas interrompidas quando ela aparecia e pequenos gestos que diziam mais do que palavras.
Só anos depois percebeu que a amizade nunca tinha sido verdadeira.
Aquela rapariga era apenas mais uma pessoa que ajudava a criar uma imagem de C que nunca correspondeu à realidade.
O tempo foi passando.
Os conflitos entre C e S tornaram-se tão graves que houve situações em que a polícia teve de ser chamada à escola.
Professores, diretores e familiares tentavam resolver o problema, mas o ambiente entre os dois parecia impossível de mudar.
Até que a escola terminou.
Cada um seguiu a sua vida.
Os anos passaram.
Um dia, C soube que S tinha sido vítima de uma agressão à porta da escola.
Ela tinha visto o que aconteceu.
Podia ter fingido que não viu.
Podia lembrar-se de tudo o que ele lhe fizera.
Mas não o fez.
Quando lhe pediram para testemunhar, disse apenas a verdade.
Nem mais.
Nem menos.
Porque, apesar de tudo, nunca quis fazer parte das mentiras que tinham destruído tantos anos da sua vida.
Mais tempo passou.
S foi trabalhar para fora e deixou de viver na cidade.
Nunca mais se cruzaram.
Até que, numa noite, muitos anos depois, C trabalhava num posto de abastecimento.
Era tarde.
O movimento era pouco.
Um carro entrou lentamente.
Ela levantou os olhos.
Era S.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois disse uma palavra.
Ele pediu para abastecer o carro e comprar um maço de tabaco.
Falava com alguma hesitação.
Quase não a olhava nos olhos.
C não sabia se era vergonha, arrependimento ou apenas surpresa por encontrá-la ali depois de tantos anos.
Ela limitou-se a fazer o seu trabalho.
Sem perguntas.
Sem acusações.
Quando terminou, entregou-lhe o troco.
S pegou nas compras, caminhou até ao carro e, antes de entrar, voltou-se uma última vez.
Olhou diretamente para ela.
Foi um olhar silencioso.
Como se houvesse mil palavras presas que nunca chegariam a ser ditas.
Depois entrou no carro e foi embora.
No dia seguinte voltou.
Desta vez acompanhado por amigos que ambos conheciam.
Quem entrou na loja foi um desses amigos.
S ficou junto ao carro.
Mas C reparou que, discretamente, ele olhava para ela.
Sem sorrir.
Sem falar.
Apenas olhava.
Dias depois, quando saiu do trabalho, C foi às máquinas de café.
Estava sentada num banco a conversar com um conhecido.
Pouco depois apareceu um carro.
Lá dentro estavam S, o irmão e mais alguns amigos.
Enquanto os outros conversavam, S lançava pequenos olhares para C e para o homem que estava ao lado dela.
Tentava fazê-lo sem dar nas vistas.
Passado algum tempo, os amigos seguiram caminho.
S entrou no carro.
Parecia prestes a partir.
Mas, de repente, fez marcha-atrás.
Ficou alguns segundos parado.
Depois arrancou lentamente e desapareceu na estrada.
C ficou a observá-lo até as luzes traseiras desaparecerem na noite.
Nunca soube o que significaram aqueles olhares.
Talvez fossem arrependimento.
Talvez curiosidade.
Talvez culpa.
Ou talvez apenas a lembrança de um passado que nenhum dos dois conseguiria apagar.
Ela nunca deixou de acreditar que um dia ele pudesse descobrir a verdade sobre aquela noite na casa de G.
Que percebesse que nunca o traiu.
Que nunca se envolveu com o irmão dele.
Que tudo tinha começado com uma mentira contada por outras pessoas.
Mas esse dia nunca chegou.
Algumas histórias não terminam com pedidos de desculpa.
Nem com declarações de amor.
Terminam apenas com duas pessoas que cresceram, seguiram caminhos diferentes e carregaram, em silêncio, o peso de tudo aquilo que nunca foi dito.
Porque, às vezes, o maior arrependimento da vida não é aquilo que fazemos.
É aquilo que acreditamos sem nunca procurar conhecer a verdade.