Capítulo 1 Bala de goma e arrependimentos
6ª Série. Segunda-feira
Eu acabara de chegar à escola nova. Nenhum rosto conhecido, e a visão de alguém diferente na sala parecia chamar a atenção de todos. Senti-me um quadro vivo em uma exposição estranha de um museu de arte moderna. Para piorar, escolhi o pior lugar de todos — a primeira carteira da primeira fileira. Parabéns, Juliana.
Imóvel na minha cadeira, observava meus colegas naquela algazarra típica do fundamental. Enquanto conversavam, riam, cutucavam uns aos outros e falavam sobre as férias, de vez em quando alguém me olhava de soslaio, cochichando para o colega ao lado: "Quem é a garota nova?"
O sinal tocou anunciando o início das aulas e algumas pessoas começaram a entrar.
Foi quando a vi.
Atenta aos cachos daquela cabeleira, que parecia dançar com o vento, pude ouvir minha garganta engolindo seco.
De repente, a sala ficou silenciosa, e meus colegas eram apenas borrões na minha visão periférica. Ela sentou-se bem atrás de mim. Minhas mãos estavam suando e a sala de aula estava quente demais. Não sou boa em iniciar conversas e conquistar amigos logo de cara, então, ensaio mentalmente a minha apresentação: —"Oi, eu sou a Juliana é você?"
A professora entrou e, com as boas-vindas, fui despertada de meus pensamentos. Meus colegas foram se acomodando aos poucos em seus lugares, a partir dali, ouvia-se apenas o arrastar de cadeiras, folhas de caderno e canetas contra as mesas.
Tudo correu bem nas primeiras horas, e fiquei orgulhosa quando fui chamada para ler um trecho do livro. Recebi elogios e um ponto extra por não recusar a leitura, como os outros. Entre uma aula e outra, tentei ser o mais participativa possível, quero garantir uma boa primeira impressao.
Finalizada a terceira aula, fomos para o intervalo e escolhi um canto para sentar bem longe do sol. A escola era pequena, mas havia uma área verde separada do pátio, cercada por um portão que só abriam durante o recreio. Eu não me apressei. Ainda não estava pronta para me enturmar; todos se conheciam, e eu era a única diferente da turma.
De volta à sala, parei de respirar. A menina cacheada entrou ao lado de um garoto magricela, discutindo sobre alguma coisa divertida. Minha visão ficou confusa, alternando entre as brincadeiras dentro da sala e a minha curiosidade sobre a conversa dos dois. Então, tudo o que vi foi uma mão segurando um pacote de jujubas estendida para mim. Senti meu rosto queimar, e meus batimentos ficaram tão descompassados que pensei que fosse desmaiar.
Balancei a cabeça, negando a oferta, e ela deu de ombros.
Aquele momento me rendeu tanto arrependimento que passei três dias refazendo a situação na minha mente:
— Quer uma balinha? — ela pergunta, sorrindo.
— Claro! Obrigada, eu adoro jujuba! — respondo naturalmente, sem demonstrar o quanto estou nervosa por dentro.
Depois, seguramos nossas mãos enquanto toca de fundo um trecho de alguma música sobre amizade.
Capítulo 2 Cachos, mechas e segredos
8ª série. Sexta-feira
Estava ansiosa para o fim da aula. Combinamos com os meninos de nos encontrarmos no cinema após a escola. Carolina e eu aceitamos a carona da mãe de Jéssica, então iríamos juntas até a casa dela.
Depois da escola, cheguei em casa e comi um lanche com pressa, já pensando em quais roupas iria usar. Escrevi um bilhete para minha mãe, deixei em cima da mesa da cozinha e fui caminhando até a casa de Carolina.
O fim de tarde estava perfeito para uma caminhada e a casa dela ficava apenas a algumas quadras.
O irmão mais novo atendeu à porta e me conduziu direto ao quarto dela.
— Julinho! — chamou Carolina, corada, tentando se esconder atrás da porta.
Ela já estava vestida, mas usava uma touca de banho enorme, que mais parecia um cogumelo gigante na cabeça. Não consegui me conter e comecei a rir.
— Nossa, parece um cogumelo! — falei, rindo descontroladamente.
Carolina ficou ainda mais vermelha e, fingindo sufocar Julinho em um abraço mortal, o cobriu com a toalha. Dei um passo para trás, rindo ainda mais.
Então, ela tirou a touca. Seus cachos caíram sobre os ombros, longos e soltos, bem em cima de uma manchinha que ela tem no ombro esquerdo. Fiquei observando por um tempo, sem conseguir disfarçar.
Ela estava diante do espelho e, quando percebeu meu olhar refletido, corou novamente. Mas desta vez não havia raiva — apenas Carolina, um pouco desconcertada e inesperadamente vulnerável.
— Acha que eu deveria trocar de roupa? Tipo, vestir uma camiseta com mangas? — perguntou, fazendo menção ao ombro enquanto vasculhava rapidamente o guarda-roupa.
"Droga! Eu fiz de novo."
— Claro que não! — respondi prontamente. — Se trocar, vai estragar o look.
O que eu gostaria de ter respondido, na verdade, era: “Não, você está linda, e eu me distraí observando todas as suas manchinhas, porque elas fazem parte de você.”
Carolina decidiu, por fim, vestir uma calça jeans e uma camiseta de mangas. Apesar de ficar linda em qualquer roupa, sei o quanto ela gostaria de usar o vestido preto. Tentei incentivá-la, dizendo o quanto ele era bonito e que estava calor para usar calças, etc.
— Bom, se você está confortável, então tudo bem — falei, desistindo.
Ela me olhou, pensando no que iria dizer, e respirou fundo.
— Estaria confortável se ninguém me olhasse como se eu fosse um E.T. — disse. — Eu não me importo se perguntam o que são minhas manchas, mas os olhares me incomodam demais. Algumas pessoas ficam olhando descaradamente. Outras tentam disfarçar, como se olhar para mim fosse algum tipo de pecado. Mas as piores, são as que se afastam com medo de “pegar” — concluiu.
Eu não soube o que responder. Apenas parei de insistir no vestido preto e me calei.
Se eu não tivesse olhado...
No caminho para a casa de Jéssica, conversamos sobre coisas aleatórias, desviando do assunto chato e triste.
Quando chegamos, Jéssica já aguardava do lado de fora. Notei que ela estava vestida quase igual à Carolina antes de trocar de roupa.
— Carol, a gente não combinou?! — disse Jéssica, desapontada, olhando as roupas da amiga.
Carolina deu de ombros e não falou nada. Quando percebi que elas haviam combinado as roupas que iriam usar, me senti um pouco excluída e com ciúmes por ter sido deixada de fora. Mas entendi imediatamente, pelo olhar de Jéssica, que foi uma tentativa de incentivar Carol a usar roupas que mostrassem a pele. Talvez eu seja uma péssima amiga por destruir a missão.
Mas, poxa, Jéssica poderia ter me avisado.
Eu nunca acerto com Carolina. Nossa amizade já começou assim. Primeiro, recusei aquela bala. Depois, perguntei sobre as manchas nos dedos. Ela pensou que eu havia recusado com medo de ser contagioso. Mas eu falei que nem tinha visto nada. Era verdade. Depois, ela contou o maior segredo de todos, me fazendo sentir especial nos dez primeiros minutos como colegas de classe.
Quando viu que eu estava sendo sincera, me contou sobre o vitiligo e como ele se espalhara mais quando seu pai decidiu ir embora com uma namorada nova. Deve ter sido bem difícil para uma menina de 12 anos lidar com tudo isso.
— Vamos, meninas? — chamou a mãe de Jéssica, despertando-me dos meus pensamentos.
Jéssica e sua irmã, Sofia, discutiram um pouco sobre quem iria sentar na frente. Elas discutiam por qualquer coisa, e eu achava que deveria ser muito legal ter irmãos.
— Você fala isso porque não tem uma Jéssica — disse Sofia, fazendo uma careta.
— Ou um Juninho! — completou Carolina, me empurrando com o ombro e rindo.
Ficamos nesse empurra-empurra até a mãe de Jéssica sugerir que colocássemos os cintos de segurança. Sofia, que havia conquistado seu lugar à frente, conectou o celular e escolheu uma música.
O som parecia sensual demais, e olhei para Carolina, confusa.
— O que é isso? — sussurrei para ela.
Mas logo Jéssica olhou para fora e acenou com a cabeça, indicando o vizinho correndo sem camisa na pista de caminhada, do outro lado da rua.
Logo iniciaram o assunto “meninos bonitos da escola”, em meio às risadas. Senti-me um pouco desconfortável, mas entrei na brincadeira.
— Gabriel — falou Jéssica. — Aquela covinha linda que ele tem na bochecha...
Sua mãe interrompeu, cortando a conversa:
— Espero que vocês tenham tanto interesse por estudos quanto têm por garotos — disse, estacionando o carro.
O assunto "garotos" sempre me deixou desconfortável. Enquanto minhas colegas já se interessavam por alguns, e até beijavam outros escondidas atrás da escola, eu não me sentia atraída por ninguém e me achava diferente por isso. Sempre acabava ficando de fora dos encontrinhos de casais atrás da escola.
—Ah bebê, não precisa apressar as coisas só porque seus amigos têm um ritmo diferente do seu. É natural. — Minha mãe falou, quando desabafei sobre isso com ela.
Aquela troca me tranquilizou por alguns instantes, mas, no fundo, eu sabia: não era só o meu ritmo que era diferente.
Olhei para Sofia pelo espelho retrovisor e percebi que ela estava me encarando. Quando nossos olhares se cruzaram, ela desviou com um sorriso contido — como se tivesse feito uma leitura da minha mente e soubesse quem eu era.
Capítulo 3 De repente, borboletas na barriga
Estávamos atrasadas.
Quando chegamos, os meninos já nos aguardavam na porta do cinema, cada um segurando um balde de pipoca.
— Vocês pegam as bebidas — Maurício falou, mostrando o balde. — Acho que esses são suficientes para nós.
— Alguém vai acabar ficando sem — comentei, imaginando como ficaria a divisão das pipocas.
— Não vai, não! — Jéssica interrompeu. — É simples, só dividir um balde para três!
Meu cérebro demorou um pouco para colocar as ideias em ordem, mas concordei.
Fui até o caixa com Sofia, e dividimos o valor total das bebidas por três. Quando peguei meu dinheiro, uma nota de 20 reais, ela olhou desconfiada.
— Viagem no tempo? — perguntou com seriedade, olhando para a nota.
— Hahaha, muito engraçada, tia Sofia — devolvi a piada, se é que se pode chamar assim.
Ela olhou no fundo dos meus olhos e envolveu minha mão nas suas.
— Guarde essa relíquia no seu cofrinho. Eu pago sua parte. Acho que a atendente nem tem como te devolver o troco.
Seus dedos eram longos, e suas mãos tinham veias proeminentes. Eu nunca havia prestado atenção em Sofia. Mal nos encontrávamos. Ela tinha dois anos a mais e estava no último ano do ensino médio.
— Não vai me ajudar? — questionou, desajeitada, tentando segurar seis latas de refrigerante.
Eu ri e peguei três latas enquanto seguimos para a porta do cinema. Todos já tinham entrado e escolhido os assentos. Sentei-me entre Sofia e Carolina.
Durante todo o filme, que por sinal estava bem chato, meus olhos escapavam para as mãos com veias salientes de Sofia. A iluminação baixa da sala de cinema criava um contraste interessante, e não foi difícil para minha cabeça criar fotografias mentais. Eu costumava fazer isso enquanto conversava com Carolina: cliques mentais de seus olhos, uma mecha de cabelo solta, qualquer detalhe que eu achasse bonito.
De repente, acenderam-se as luzes e me dei conta de que os créditos do filme já estavam passando no telão.
Nos levantamos e, numa olhadela para Carolina, tive a impressão de vê-la segurando a mão de Ricardo. Mãos entrelaçadas.
Então olhei para Jéssica e Maurício — mãos entrelaçadas.
Era um encontro, e eu estava de fora.
Pisquei os olhos, atônita.
Pelo visto, não foram apenas as roupas que Carolina e Jéssica combinaram sem mim. Tudo bem, eu não saio por aí beijando bocas, mas amigas compartilham, né? Contam segredos uma à outra, mesmo quando uma delas tem interesses diferentes, ou será que existe algum manual de amizade onde está escrito, nas letras miúdas, que — se você não é igual, não merece participar das conversas e fofocas?
Há algumas semanas, notei uma mudança comportamental no grupo: abraços em excesso, cochichos, bilhetes. Mas não imaginei que eles estivessem namorando. Talvez esse seja o motivo da presença de Sofia — não queriam que eu atrapalhasse o encontro. Além do mais, sou a única do grupo sem alguém. Deprimente.
— Cinema? Quando? — perguntei durante a troca de professores na classe.
Carolina me olhou de soslaio, e Jéssica pigarreou.
— É... na sexta — emendou Jéssica, com a fala arrastada. — Vamos pegar a sessão das 19h.
Agora percebo: não foi um convite, e a conversa não se estendia a mim.
Sou uma intrusa.
Argh!
Tentando sair dessa situação extremamente desconfortável, diminuo meus passos e os deixo seguir adiante. Talvez devesse apenas ir embora, mas me recordo que vim de carona e, a esta hora, não há ônibus para o meu bairro.
Em silêncio, observo uma vitrine de eletrônicos.
— Procurando um celular novo? — Sofia surge atrás de mim.
— Estou olhando as câmeras digitais.
Sofia aparentemente não tinha muito a dizer para continuar a conversa. E eu estava desanimada demais para arriscar falar sobre minha paixão por fotografias.
Alguns minutos de silêncio se passaram, até que notei que o grupo estava longe de nosso alcance.
Eles nem perceberam que eu me afastei.
— Você gosta de câmeras? — Sofia quebrou o silêncio.
Assenti com a cabeça. De repente, senti entusiasmo. Era a primeira vez que alguém perguntava algo sobre mim.
— Adoro fotografia. É a melhor maneira de “guardar” aquilo que você acha bonito — respondi com animação excessiva, e notei que ela me olhou diferente dessa vez.
— Vai, tira uma foto de mim — ela fez uma pose com as mãos na cintura, rindo.
Peguei meu celular no bolso enquanto ela esperava imóvel na sua posição, meio desengonçada forçando um sorriso.
Ri tão alto que senti minhas bochechas queimarem de vergonha.
Clique.
— Pronto! — estendi o celular, mostrando a foto.
— Nunca estive tão linda! Você é uma ótima fotógrafa — ela parecia estar dizendo a verdade. — E então, que parte você guardaria?
— Está me perguntando o que achei bonito em você? — perguntei, achando ela um pouco convencida demais.
Mesmo assim, editei a foto criando uma colagem onde suas mãos ficassem em evidência e mostrei. Ela apenas revirou os olhos, sem dizer nada.
— Não gostou? — continuei mantendo o tom brincalhão.
— Ficou incrível — Sofia me olhou "diferente" mais uma vez e segurou minha mão — vem! Vamos comer alguma coisa.
Ela me levou até uma lanchonete e, estranhamente, o restante do grupo já estava nos esperando.
Jéssica acenou empolgada:
— Pensei que não iriam aparecer nunca, já estou morrendo de fome — falou, um pouco irritada.
— Juliana quis parar pra me fotografar, ela acha que sou uma modelo — Sofia respondeu. — Me distraiu, não vi suas mensagens, desculpe.
Dei um tapinha no ombro de Sofia, repreendendo a brincadeira.
Nos sentamos, fizemos nossos pedidos e o restante da noite foi bem agradável. Imaginei que eu pudesse estar sendo dramática demais por pensar que eles me excluíram, mas, ao menos tempo, estava feliz por ser traída pelos meus próprios pensamentos porque, assim, pude conhecer Sofia.
Capítulo 4 Através do visor de uma câmera antiga
Sabado. Aula de fotografia.
Desde que soube que me interesso por fotografia, a amiga da minha mãe, Renata — que é uma excelente fotógrafa profissional — se propôs a me ensinar tudo o que sabe. Então, todos os sábados temos um encontro.
Sou uma aluna dedicada, mas desta vez estou um pouco distraída e, entre uma conversa e outra sobre técnicas de luz e sombra, refaço mentalmente algumas cenas da noite anterior: Sofia em frente à vitrine, esperando por um clique; o momento em que ela passou o braço por cima dos meus ombros, como se já fôssemos melhores amigas.
Renata havia parado de falar há pelo menos dez minutos, e eu não percebi. Ela estava mexendo em uma caixa de madeira, de onde tirou uma câmera fotográfica analógica com certo cuidado, como quem lida com algo precioso.
— Aqui você encaixa o filme — disse, enquanto girava uma pequena alavanca metálica — depois fecha bem.
Ela me entregou a câmera e apontou para o visor.
— É por esse quadrado que você vai enxergar o mundo. Encontre o ângulo que lhe emociona e, quando sentir que é o momento... aperte o botão.
Fiquei em silêncio, sentindo o peso da câmera nas mãos, como se ela carregasse histórias que ainda não existiam.
— Quero que a leve com você esta semana — continuou Renata, com um sorriso leve. — Fotografe o que lhe tocar. Quando voltar, vamos revelar juntas. É aí que a mágica acontece. Vou te ensinar como...
Ela parou, olhando ao redor do cômodo procurando algo.
— Desculpe, deve ser minha mãe — interrompi, pegando o celular que estava tocando na mochila.
— Sem problemas, já encerramos por hoje — Renata sorriu, despedindo-se com um abraço. — Nos vemos na semana que vem.
Olhei para o telefone e não era minha mãe, e sim Carolina, ligando insistentemente para que eu visse suas mensagens — que eram muitas.
"Cadê você?"
"Preciso te contar um babado."
"Argh, tá fazendo o que agora?"
Muitas frases dizendo que estava me procurando, mas nenhuma revelando de vez qual era a fofoca — só aquele suspense esquisito, meio desesperado.
Eu ainda estava um pouco chateada com ela, então respondi apenas que estava em uma aula e não poderia falar naquele momento. Mentira. Eu já estava a caminho do ponto de ônibus, mas não queria falar com Carolina naquele momento — e talvez em nenhum outro durante o fim de semana.
Chutei uma pedra na calçada. Meu corpo estremeceu com o impacto no dedão do pé, e por um segundo considerei me sentar ali mesmo, no meio da rua. Mas avistei o ônibus chegando e corri, mancando dramaticamente de uma perna só.
Mais tarde, após tomar um café e comer bolo na companhia de minha mãe, fui para o quarto revisar o que aprendi. Estava ansiosa para usar a câmera e me sentindo super especial por Renata ter confiado em mim para ficar com algo seu. Então, teria de ter o maior cuidado com essa preciosidade. Relembrei todos os passos ensinados por ela, mas não tirei nenhuma foto até ter certeza de que estava pronta. Renata foi bem clara ao dizer que os negativos não são infinitos, então era melhor não desperdiçá-los.
Ouvi o som da campainha e, em seguida, vozes abafadas preenchiam o corredor. Alguém bateu à porta e entrou. Era Carolina.
Clique.
Ela estava tão radiante que não pensei muito. Posicionei a câmera e fiz a foto. Seus cabelos estavam presos em uma trança solta, e ela estava vestindo, finalmente, o vestido preto.
O flash iluminou o quarto, mas tudo o que eu via, era o olhar penetrante de Carolina.
Por um instante, esqueci que estava evitando Carolina. Levantei da cadeira e a abracei, surpresa e ao mesmo tempo orgulhosa da minha amiga.
— O que foi isso? — perguntou, ajeitando uma mecha solta. — Uma foto assim, do nada?
— Estava testando a câmera e você apareceu — disfarcei, tentando esconder o sorriso.
— Vim pessoalmente te convidar para tomar um sorvete, já que não respondeu às minhas mensagens. — Ela estava chateada, e eu resolvi abrir o jogo.
— Não queria atrapalhar você e Ricardo — o que saiu da minha boca não tinha nada a ver com o que eu planejei dizer.
— O que isso tem a ver com... — ela interrompeu, lembrando-se da noite passada. — Ah, está com ciúmes. Por isso me ignorou o dia todo?
Fiquei envergonhada, mas mantive a postura briguenta e assenti, desviando os olhos:
— Ciúmes, não. Mas magoada, porque minha melhor amiga não me contou que está de namoro.
— Era isso que eu queria te contar. Ricardo me beijou no cinema ontem e decidi dar uma chance — Carolina revirou os olhos. — E eu não estou de namoro, só curtindo. Você deveria estar fazendo o mesmo, o contrário de ficar enfiada dentro desse quarto.
— Que exagero. Só estou estudando um pouco mais hoje.
Ela revirou os olhos de novo e apontou para a porta, indicando que deveríamos sair.
Fomos caminhando. Apesar do calor, o ar estava fresco e vez ou outra dava para sentir a brisa suave em meu rosto. Carolina envolveu seu braço no meu e, com a proximidade, senti o cheiro adocicado que exalava dos seus cabelos — um odor muito característico que se misturava ao perfume cítrico de capim-limão que ela costumava usar. Diferente, mas agradável. Olhei para o céu e desejei mais noites como esta.
No caminho, tirei uma foto dela sem que percebesse. A luz dourada do fim de tarde tocava seu rosto com delicadeza, e o contraste entre o vestido e o céu alaranjado parecia cena de filme. Quando ela notou, fez careta:
— Você vai me transformar em personagem de portfólio?
— Já é — respondi, mostrando a imagem. Ela sorriu, surpresa.
Na sorveteria, conversamos mais sobre a noite anterior. Ela disse que não tinha planejado nada. Ricardo segurou sua mão, perguntou se podia beijá-la, e ela aceitou. Depois, eu desapareci com Sofia e ela não conseguiu me contar nada.
— E Jéssica? Eu pensei mesmo que vocês tivessem combinado um encontro às escondidas — falei, e Carolina caiu na risada.
— Essa é a fofoca! — bateu na mesa. — Jéssica armou tudo com a Sofia, fez a gente ir em pares pra poder “investir” no Maurício sem ninguém atrapalhando. Ela só me contou porque me viu com Ricardo.
— E por que ela não foi sozinha? — perguntei, achando o plano meio bobo.
— Ficou com vergonha de chamar ele pra sair, eu acho — Carolina comentou. — Seria mais fácil inventar que todos iríamos ao cinema.
Enquanto falava, Carolina mexia na bola do vestido, desconfortável, tentando esconder algumas manchinhas espalhadas pelo colo. Olhei para trás e vi que algumas pessoas haviam entrado no estabelecimento.
— Vamos embora? — chamou.
Naquele momento, enquanto ela escondia o colo com a gola do vestido, lembrei da primeira vez que vi alguém ferir Carolina com palavras.
Foi na escola. Um menino conhecido por fazer brincadeiras sem graça — e nunca ser punido por isso — gritou:
— Aí, vaca malhada! — e jogou uma bola de papel nela.
Antes que ele pudesse rir, corri e lhe dei um soco bem dado no nariz. O sangue desceu.
Recebi dois dias de suspensão por agredir um colega, sem tem a chance me explicar. Nenhuma testemunha teve coragem de nos defender. Carolina não apareceu na escola por uma semana inteira.
Desde então, nunca soube exatamente como agir. Insistir em ficar? Aceitar e ir embora? Comprar briga por ela se alguém a maltratasse?
Talvez eu nunca saiba exatamente como protegê-la. Mas posso estar aqui. E às vezes, isso basta.
— Carol... — falei com carinho — você está linda. Para de puxar a gola, ou vai sair daqui com um vestido rasgado nas mãos. Não quero ir agora, também tenho algo para confessar.
Seus olhos se arregalaram:
— Não vai dizer que é apaixonada por mim, ou vai? — brincou.
— Haha, é sério — continuei — acho que me interessei por alguém.
— Mentira! Quem? — seu rosto se iluminou.
— Sofia. — Fui direto ao ponto, esperando talvez algum tipo de julgamento. Procurei em seu rosto qualquer sinal de expressão que pudesse me dar uma pista do que viria a seguir.
Ela ficou em silêncio por um instante, depois sorriu e pegou meu celular da mesa.
— Então é melhor você começar a registrar isso também. Vai que vira história.
Tirou uma foto minha, de surpresa. O flash me cegou por um segundo, e quando olhei para o visor, vi meu rosto meio torto, rindo, com a colher de sorvete ainda na boca.
— Essa vai pro álbum das revelações — disse ela, rindo.
Assim, descontraída, Carolina se esqueceu das pessoas ao redor e focou na nossa amizade.
Quinta-feira. Aula de História.
A semana inteira girou em torno do meu suposto interesse por Sofia.
Na segunda-feira, ao chegar à escola, vi Jéssica conversando com um grupo de amigos de outra turma — acho que ela é a pessoa mais sociável que já conheci. Ela me viu de longe, acenou, correu até mim e passou o braço pelos meus ombros.
— Então, o que achou da Sofia? — perguntou, sem sequer dizer um "oi, tudo bem?".
— Sua irmã? Ela é legal — respondi, sem mais detalhes.
— Tá toda derretida por ela, fala a verdade — disse Carolina, que eu nem percebi se aproximar. Ela é sorrateira às vezes.
Minhas bochechas coraram e não respondi. Não sabia o que dizer, porque, na verdade, eu mesma não sei muito bem o que sinto. Foi bom conversar com alguém diferente, sem falar de namoros ou garotos — me senti livre de fingimentos. Mas será que isso é o suficiente para gostar de alguém romanticamente?
Jéssica continuou rindo:
— Bem que Sofia disse que, para as lésbicas, um único encontro já é suficiente pra marcarem casamento!
— Uhum! Do jeito que ela falou da Sofia ontem, por ela o casamento já estaria marcado pra amanhã mesmo — completou Carolina, cutucando Jéssica com o cotovelo.
— Eu não falei tanto assim — interrompi, meio tímida. — Só disse que talvez eu esteja gostando dela.
— Por favor, Juliana — Jéssica começou a falar descontroladamente — não pode existir um "talvez"! Eu quero certezas! Não aceito ter perdido meu tempo bancando a cupido pra minha irmã sair triste igual a um passarinho ferido dessa história. Ela passou horas escolhendo roupa, decidindo se deveria mesmo ir ou não. "Passei perfume demais, Jéssica?" "Tem certeza que sua amiga vai, Jéssica?"...
Interrompi o falatório, um tanto confusa ao imaginar que Jéssica arrumou pares para nós e que meu par era uma garota.
— Queria saber de onde você tirou essa certeza absoluta de que isso daria certo. Até porque sua irmã é uma garota, e você nem sabe se eu gosto.
Ela me olhou de cima a baixo, como se fizesse um raio-x com os olhos:
— Ah, olha pra você! Você exala... como é mesmo que dizem?
— Cheiro de couro — completou Carolina, rindo.
Tentei argumentar sobre o erro delas de falar assim, que não poderiam tirar conclusões com base na minha aparência física. Aliás, não deveriam fazer isso com ninguém — nem com a melhor amiga.
Não funcionou. Então deixei as duas para trás, caminhando sozinha até a sala de aula.
Meu celular tocou. Era uma mensagem de Renata com um lembrete sobre as fotos:
"Espero que tenha tirado boas fotos e esteja cuidando bem da minha preciosa ;)"
Pensei em responder que estava tudo certo, mas a única foto que eu havia tirado até agora era aquela de Carolina na porta do meu quarto. Não houve nenhuma ocasião especial que me fizesse querer fotografar. Talvez eu esteja levando a tarefa a sério demais, achando que preciso sempre encontrar o momento perfeito. Às vezes, o melhor momento acontece nas coisas simples — como agora.
Olhei para trás e vi Jéssica e Carolina rindo juntas. Procurei a câmera na mochila e enquadrei a cena. Jéssica fez uma careta engraçada quando percebeu que tirei a foto.
— Parece que você também vai entrar no portfólio, Sra. Modelo — disse Carolina, apertando suas bochechas.
Entramos na sala de aula, mas não consigo me concentrar.
Não há matéria, nem professor favorito que consiga desviar minha mente da ideia de estar gostando de alguém.
Lembro do que Jéssica disse sobre “bancar a cupido” e me pergunto: será que a Sofia já estava interessada em me conhecer antes? Quer dizer... ela está no ensino médio.
O sinal toca, anunciando o fim das aulas. A sala de aula é preenchida por sons de ziperes se fechando e conversa fiada. Guardo minhas coisas e saio.
Olho para fora e vejo Sofia. Meu coração acelera.
Talvez seja isso. Talvez seja essa a sensação de se apaixonar.
Permissão para dirigir
Meu coração parece uma escola de samba.
Sofia está em frente à escola, sentada em uma moto elétrica. Há um capacete extra pendurado em seu braço.
Quando me viu, abriu um sorriso tão largo, impossível de ser ignorado. Sorri de volta, acenando.
À medida que fui me aproximando, o sorriso dela murchava, e por um instante cogitei que ele não fosse para mim. Olhei para baixo e ajeitei o cabelo, meio sem graça.
— Hum, decidiu fazer uma gentileza pra sua irmãzinha? Que fofa! — Jéssica surgiu, enérgica como sempre, tentando pegar o capacete.
Sofia desviou o braço, revirando os olhos. Agora entendo o sorriso murcho.
— Quem disse que vou te dar carona? A gente mora aqui do lado, vai andando, preguicinha! — respondeu, um pouco irritada.
Jéssica riu e sussurrou alguma coisa em seu ouvido que a fez corar. Depois olhou para mim com seriedade e disse:
— Não me decepcione!
E saiu, indo de encontro a Carolina, que parecia observar de longe, com uma expressão indecifrável.
Sofia estendeu o capacete para mim, e a primeira coisa que pensei foi o quanto eu estava desarrumada. Quis, por um segundo, ter pelo menos penteado o cabelo.
— Eu tinha um trabalho de Química em grupo, mas mudamos a data. Então pensei que pudéssemos dar uma volta, sei lá. Vamos? — disse em um tom de voz inseguro.
— Preciso trocar essa roupa e, hum... tomar um banho — respondi, aceitando o capacete.
Minha casa fica a algumas ruas daqui, então combinamos de fazer uma parada.
Sentei na moto um pouco constrangida com a nossa proximidade, em dúvida sobre onde apoiar as mãos. Chegamos em pouco tempo — tempo suficiente para eu decidir não segurar em Sofia.
Minha mãe nos olhou com curiosidade, alternando o olhar entre a moto e Sofia.
— Você já tem idade pra andar numa dessas? — perguntou, apontando para o veículo. — Quantos anos você tem?
— Mãe, é só uma moto elétrica! — respondi antes que ela pudesse repreender, mas Sofia a tranquilizou em seguida:
— Tenho quinze anos, mas não precisa se preocupar. Na verdade, não é bem uma moto — a velocidade máxima é de trinta e dois quilômetros — e eu só uso em ciclovias.
Quinze.
Por um instante, achei que tivesse ouvido errado. Eu tinha certeza de que Sofia era mais velha — uns dois anos, pelo menos. Afinal, ela está no último ano... como isso é possível?
Bem, talvez ela seja um gênio ou algo assim.
Isso pareceu tranquilizar minha mãe, que logo sugeriu que Sofia ficasse para o jantar. Eu recusei educadamente, dizendo que precisava fazer as fotos da atividade que Renata havia solicitado. Era verdade.
A semana estava quase acabando e eu havia feito apenas duas fotografias. Quem sabe hoje eu encontre mais uma inspiração perfeita para transformar boas memórias em imagens. Olhei para Sofia conversando com minha mãe e percebi que realmente encontrei.
Minha mãe estava estendendo uma caneca, e Sofia sorria. Peguei minha câmera antes de entrar no quarto e registrei o momento. Estava finalmente começando a dar vida à minha atividade.
Tomei um banho rápido, troquei de roupa sem pensar muito e voltei para a cozinha, onde as duas estavam. Sofia ria de algo engraçado com minha mãe, e fiquei feliz com essa interação.
Minha mãe costuma ser amável com meus amigos, mas dessa vez me pareceu diferente. Talvez ela tenha percebido nosso... romance.
É, acho que é isso.
Chamei Sofia e nos despedimos de minha mãe. O céu começava a escurecer, e uma estrela ou outra já mostrava seu brilho majestoso. Seguimos por uma rua arborizada. A ciclovia estava enfeitada com pétalas amarelas espalhadas pelo chão; a brisa suave tocava meu rosto, e pude ouvir o som do mar a alguns metros de distância.
Ao longe, avistei um ciclista — apressado demais. De repente, ele parecia perto demais. Tive a impressão de que iríamos colidir.
Sofia desviou rapidamente e, com o susto, segurei sua cintura com força.
— Está tudo bem? Pensei que ele não fosse desviar da gente. Desculpe. — Ela parecia assustada.
Parece que o constrangimento levou minha voz, e apenas assenti com a cabeça, ainda segurando sua cintura. Ela apoiou a mão sobre a minha e deu um leve tapinha.
— Ok, tudo bem. Estamos perto da praia, vamos parar um pouco — disse, seguindo adiante.
Minhas mãos permaneceram em sua cintura, as dúvidas que eu tinha antes foram embora, e percebi que assim era mais seguro. Sofia parecia mais calma e confiante, conduzindo-nos até o destino. O vento trazia o cheiro do mar, fresco e suave; conforme nos aproximávamos, ouvia com mais clareza o som das ondas se quebrando, e meus pensamentos voavam.
Beijos de açaí e pé na areia
“Escondo-me de mim mesma
Quando te vejo distribuindo sorisos
Que não são para mim,
E não quero que sejam.
Não posso querer.”
— Carolina.
Sentada no calçadão, em frente à praia, leio a última publicação de Carolina.
Desde os doze anos ouço ela dizer que quer ser veterinária, mas, no fundo, acredito que nasceu para escrever.
Tudo o que posta parece vir do fundo do coração — embora insista que são apenas frases que surgem em sua mente.
Como alguém consegue escrever tão bem sobre o que, supostamente, não sente?
Essa sensibilidade é para poucos.
Estendi meu celular para Sofia, mostrando a publicação.
— Está faltando uma letra na palavra “sorrisos”. — Ela corrigiu, olhando para a tela do meu celular.
— É mesmo, acho que a Carol não viu. Vou mandar uma mensagem para ela. — Respondi, observando o trecho.
— Vem! Vamos comer alguma coisa. — Sofia me puxou pela mão, cortando o assunto de repente.
Havia pelo menos cinco quiosques diferentes pelo calçadão da praia, e demoramos um pouco para decidir onde iríamos comer — eram muitas opções. Olhei ao redor; algumas pessoas faziam caminhada, outras passeavam com cachorro.
Escolhi o quiosque mais vazio. Era um ambiente pequeno, com mesas apenas do lado de fora. Pedi um copo de açaí com morango e granola; Sofia escolheu um copo apenas com açaí — uma escolha que achei de muito mau gosto. Olhei para o atendente e depois para ela; acho que minha expressão foi bem clara.
— Que foi? Eu gosto demais de açaí, não vou ficar enchendo de doces. — Disse ela, olhando para o atendente, como se tivesse sentido algum tipo de julgamento.
— Mas eu nem falei nada! — Respondi, tentando permanecer séria. — Assim, é esquisito? É. Mas cada um com seu gosto particular, né?
Sofia não respondeu. Apenas deu de ombros com um sorriso invertido no rosto. O atendente sorriu e nos entregou a nota, pedindo que aguardássemos.
Sentamos em uma das mesas. O silêncio logo começou a me incomodar. Procurei qualquer coisa que eu pudesse comentar para quebrar o clima quieto e, conforme percebia que nada surgia em minha mente, pensei que talvez Sofia e eu não tivéssemos nada em comum.
Era diferente com Carolina e Jéssica — sempre tagarelando sobre qualquer coisa. Eu estava acostumada com essa facilidade que nós tínhamos. Agora, com alguém diferente e que eu mal conheço, tenho a impressão de que preciso inventar conversas o tempo todo.
Olho para Sofia; ela está me encarando. Seu rosto expressa dúvida.
— Você não tinha uma tarefa pra fazer? Tipo… umas fotos? — Ela perguntou em um tom de voz empolgado.
— Tenho, e tá bem difícil, na verdade. Até agora só consegui três fotos. Acho que não tô muito criativa essa semana. — Respondi desanimada.
Seu rosto se iluminou, como se tivesse tido a ideia mais incrível do mundo:
— Eu te ajudo! Estamos no lugar mais bonito que essa cidade tem. É quase impossível ser… descriativo aqui.
— Descriativo? — questionei, rindo. — Isso existe?
O atendente interrompeu a conversa anunciando que o pedido estava pronto. Sofia levantou-se para buscar. Pude ouvi-la brincando com o atendente sobre a agilidade no preparo. Quando voltou, encarou o meu copo.
— O seu tá mais bonito. Vamos trocar? — Perguntou séria.
— De jeito nenhum! Fique com o seu, xôxo e sem graça. — Falei, pegando meu copo rapidamente.
Ela fez um biquinho, segurou a colher no ar em direção ao meu copo, lentamente, fingindo que iria “roubar” do meu. Eu desviei e saí andando apressada, rindo.
Quando percebi, estávamos correndo pela areia da praia, parei de correr e estiquei o braço, fingindo balançar uma bandeira pedindo trégua. Paramos, dividindo risadas e olhares, seria o momento perfeito para finalizar a noite com um belíssimo beijo. Sofia aproximou-se, e quando achei que isso de fato aconteceria, ela finalmente conseguiu pegar uma colherada do meu açaí, com morango e tudo. Sua expressão era triunfante. Eu a puxei para perto, ignorando o gesto e a beijei.
Era como se estivéssemos no final de uma comédia romântica, ela afastou-se devagar, suas bochechas estavam coradas de um jeito fofo, a presilha que ela usava nos cabelos estava caindo e eu sorri endireitando.
Eu continuei agindo naturalmente, como se já fosse experiente nessa área de beijos, até que Sofia finalmente disse:
— Esse foi o melhor primeiro beijo que eu já tive, quer dizer, muito melhor que a laranja e o espelho do meu quarto quando eu tinha 12 anos.
Não aguentei e dei uma gargalhada.
— Eu nunca tinha beijado nem espelhos, ou laranjas, estava muito ocupada esperando a pessoa certa. — Falei, quase que confessando.
Sofia suspirou e segurou minha mão. Caminhamos de volta para o quiosque, não havia mais mesas disponíveis, então sentamos no calçadão.
A inspiração veio e peguei a câmera; fotografei Sofia enquanto tomava seu açaí; algumas pessoas aleatórias de longe, um cachorro que fugia do seu tutor e parecia estar sorrindo, todas ela representando o cotidiano de uma vida tranquila, simples, feliz. Foi um total de cinco belas fotos de tudo o que parecia perfeito naquela praia.
O celular de Sofia tocou, era sua mãe dizendo que estava ficando tarde e deveria voltar para casa.
Jogamos nossos copos vazios no lixo e fomos embora.
O cheiro de terra molhada, acompanhado da brisa gelada que toca meu rosto, anuncia que logo começa a chover. No céu, as nuvens já cobrem o azul, tornando-o quase inteiramente cinza.
Pego na minha bolsa uma blusa de mangas longas, que carrego sempre comigo, pois o fim de tarde nessa cidade é sempre mais gelado. Entrego-a a Sofia. Ela está usando uma camiseta regata; sua pele está arrepiada pelo frio. Ela contrai o rosto, quase recusando, mas aceita quando retiro outra blusa da bolsa.
— Quem é você? A Hermione Granger?
Brinca, fazendo menção à personagem de Harry Potter.
Enfio a mão na bolsa, olhando para ela misteriosamente, fingindo vasculhar. Ela aguarda ansiosa; quando retiro um guarda-chuva, Sofia ri, surpresa.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ou ensaiar alguma gracinha, as gotas de uma chuva fina começaram a cair em meu rosto e, em questão de segundos, ficou mais forte.
Corremos de volta para o quiosque e nos abrigamos. As ondas do mar se formavam cada vez maiores e quebravam em um som que reverberava. O quiosque deveria ser fechado em breve, mas, o jovem funcionário
o manteve aberto até que fosse seguro sair de lá.