O último ano do ensino médio de Hotaru corria como um rio manso, mas profundo. Os dias eram preenchidos pelo som do giz no quadro-negro, pelas conversas sobre o futuro na universidade e pelos planos de suas amigas. Para quem olhava de fora, Hotaru parecia ter superado aquela melancolia silenciosa que a acompanhava desde o sumiço de Gin.
Ela havia aprendido a guardar a saudade no fundo do coração, aceitando que certas feridas se transformam em cicatrizes com o tempo. Ela acreditava, de verdade, que tinha seguido em frente.
Até que as férias de verão chegaram novamente, trazendo o mesmo calor abafado que a arrastava, inevitavelmente, de volta à floresta do Deus da Montanha.
Caminhando pela trilha conhecida, onde os raios de sol filtravam-se pelas copas das árvores, Hotaru mantinha os olhos fixos nos próprios sapatos. Mas, ao se aproximar da clareira perto do santuário antigo, uma silhueta familiar fez seus passos congelarem.
Lá estava ele. O cabelo prateado, a postura relaxada encostada em um tronco. Não havia máscara de raposa.
O coração de Hotaru deu uma batida violenta. Imediatamente, uma onda de autoproteção a dominou.
*Não olhe.
É apenas um truque da sua mente*, pensou, recuando um passo. Ela fechou os olhos com força, virando o rosto. Doeu aceitar que a saudade ainda conseguia criar peças tão cruéis em sua mente.
- "Você continua virando o rosto quando fica sem jeito, Hotaru", a voz ecoou, vinda da clareira.
Não era um sussurro do vento. Era real, um pouco mais profunda do que na sua memória, mas perfeitamente reconhecível.
- "Por favor...", ela pediu, a voz quase sumindo. "Vá embora. Eu passei o ano todo tentando ficar bem. Eu não quero acreditar nisso para depois me machucar de novo."
- "Isto não é uma ilusão, Hotaru", disse Gin, a voz bem perto dela. "Abra os olhos. Por favor."
Hotaru respirou fundo e abriu os olhos devagar. Ele estava bem ali, estendendo a mão na direção dela, sem hesitar.
- "Gin... como isso é possível?", ela sussurrou, dando um passo para trás.
"Se eu te tocar, você vai desaparecer de verdade."
- "Isto não vai acontecer", os olhos dele brilharam, cheios de uma certeza que ela nunca tinha visto antes.
"O Deus da Montanha me deu uma chance. Eu não sou mais um espírito, Hotaru. Eu sou humano."
-"Humano...?", ela repetiu, a mente girando. "Você está dizendo que... que eu posso?"
-"Sim", ele sorriu de canto. "Você pode."
Antes mesmo que ele terminasse de falar, toda a barreira de medo de Hotaru desmoronou. Sem hesitar por um único segundo, ela correu e tomou impulso, pulando direto nos braços dele, exatamente como sempre quisera fazer desde a infância.
O impacto jogou os dois um pouco para trás, mas Gin a segurou firme pela cintura. Hotaru entrelaçou os braços ao redor do pescoço dele, apertando-o com todas as suas forças, enterrando o rosto em seu ombro.
Ela chorou — não de tristeza, mas com o alívio sufocante de finalmente sentir o calor, a solidez e os braços dele correspondendo ao abraço, apertando-a contra o peito como se também temesse que ela sumisse.
- "Eu finalmente posso te abraçar", ela soluçou, apertando o tecido da camisa dele.
- "Eu também, Hotaru. Eu também", Gin sussurrou perto do ouvido dela, acariciando suas costas com as mãos firmes, aproveitando cada segundo daquele peso real em seus braços.
Nos dias que se seguiram, a cabana de Gin nos limites da floresta tornou-se o refúgio deles. A transição para a vida humana trazia pequenas trapalhadas que quebravam o gelo da timidez.
...
- "Gin, você está usando força demais de novo", Hotaru riu em uma tarde, vendo-o encarar um copo de vidro que quase trincou em sua mão.
- "Ainda sinto meu corpo pesado", ele confessou, deixando o copo de lado e olhando para ela.
"Mas estou melhorando. Olha só."
Ele se aproximou e segurou a mão dela, controlando os próprios movimentos para ser o mais delicado possível. O toque da pele com pele, livre de qualquer medo, fazia o coração de ambos acelerar.
A timidez ainda estava lá, mas o desejo de estarem perto falava muito mais alto.
Em uma noite especialmente quente, sob o céu estrelado do bosque, eles se sentaram nos degraus de pedra do santuário. O ambiente estava silencioso, carregado com uma atmosfera mais íntima e intensa.
Gin virou-se para ela, fixando os olhos nos lábios de Hotaru antes de subir para focar no olhar dela.
Ele aproximou o rosto, eliminando qualquer espaço entre os dois. Suas mãos subiram para o pescoço e a nuca de Hotaru, mas, ao sentir a intensidade do movimento, ela recuou instintivamente um centímetro, quebrando o contato inicial.
Gin parou imediatamente, com as mãos ainda próximas ao rosto dela. Ele a olhou nos olhos, a expressão suavizando com uma pitada de preocupação.
- "Você está com medo, Hotaru?", ele perguntou, a voz saindo em um sussurro cuidadoso.
- "Não...", ela respondeu, desviando o olhar por um segundo antes de focar nele novamente. As bochechas estavam coradas. "Não é medo. É só... tudo isso ainda é muito estranho. Nós passamos tanto tempo sem nem poder nos encostar."
Gin sorriu de canto, compreendendo perfeitamente. Ele diminuiu o ritmo, tornando-se o mais delicado possível. Com toda a paciência do mundo, ele inclinou a cabeça e roçou os lábios nos dela em um selinho demorado, dando tempo para que ela se acostumasse com a sensação física do toque. Hotaru relaxou, soltando o ar que prendia e deixando as mãos descansarem no peito dele.
O beijo calmo e cuidadoso deu a eles a segurança que precisavam. Sentindo que ela estava totalmente entregue e confortável, a confiança de Gin cresceu. Quando o primeiro contato terminou, ele não se afastou; em vez disso, ele voltou a beijá-la, mas dessa vez com uma atitude muito mais firme e profunda, puxando-a para mais perto pela cintura e demonstrando toda a intensidade do que sentia. Hotaru correspondeu no mesmo ritmo, segurando os ombros dele, deixando-se levar por aquela nova energia entre os dois.
Quando finalmente se separaram, ambos estavam ofegantes, os rostos colados e os olhos brilhando com uma nova certeza.
- "Nós realmente temos todo o tempo do mundo agora, não é?", Hotaru sussurrou, apoiando a cabeça no ombro dele e sentindo os batimentos cardíacos dele se acalmarem aos poucos.
- "Sim", Gin respondeu, beijando o topo da cabeça dela e apertando o abraço. "Todo o tempo do mundo."
O verão estava chegando ao fim, mas, desta vez, não trazia o medo ou a dor da despedida. Sentados na colina que vigiava a vila, observando as luzes distantes começarem a se acender lá embaixo, eles sabiam que o outono traria novas responsabilidades, a volta às aulas e os desafios normais de uma vida humana. No entanto, a promessa de permanecerem juntos, lado a lado, era o alicerce estável de tudo o que viria. Eles haviam encontrado o seu fim definido, que na verdade, era apenas o começo de uma longa jornada real.
FIM😊