A sacada de ferro batido da mansão dos Silva sempre foi o cenário perfeito para o romance. No vilarejo, todos conheciam o jovem casal: ele, conhecido pelo temperamento forte e porte imponente, apelidado de Cravo; ela, uma jovem de beleza delicada e pele Alva, chamada por todos de Rosa. Mas as aparências, como os espinhos, ferem quem nelas confia.
Naquela noite de tempestade, o que se ouviu debaixo da sacada não foram juras de amor. Uma discussão violenta ecoou entre os trovões. Cravo, consumido por um ciúme doentio, descontou sua fúria na jovem. O confronto foi brutal. No dia seguinte, a notícia correu a cidade: a Rosa havia sido despedaçada. O vilarejo chorou a morte trágica da moça, cujo corpo foi encontrado desfigurado no jardim. Cravo, embora secretamente culpado, saiu da briga apenas com um corte profundo no rosto, uma cicatriz que exibia como uma medalha de sua falsa inocência. Ele achou que tinha saído impune. O Cravo saiu ferido, mas vivo.
A Visita
Semanas se passaram, e o remorso misturado com o medo começou a cobrar seu preço. Trancado na mansão, Cravo adoeceu. Uma febre inexplicável o consumia, e ele jurava ouvir sussurros vindo do jardim. Sua pele empalideceu, as forças sumiram. O Cravo ficou doente.
Em uma noite de lua cheia, enquanto delirava em sua cama de casal, a porta do quarto rangeu. O ar subitamente ficou gélido, impregnado com um aroma sufocante de rosas e terra molhada.
Passos arrastados ecoaram pelo assoalho. Da escuridão do corredor, uma silhueta emergiu. Era ela.
Mas não a Rosa que ele conhecia. Seu vestido branco estava rasgado e manchado de terra e sangue seco. Sua pele estava cinzenta, e partes de seu rosto mostravam a terrível realidade da sepultura. Seus olhos eram duas poças de escuridão absoluta. A Rosa foi visitar.
O Acerto de Contas
Cravo tentou gritar, mas a voz travou na garganta. O terror paralisou seus músculos. A criatura se aproximou lentamente, cada passo deixando um rastro de pétalas murchas e sangue negro no tapete. Ela estendeu as mãos, cujos dedos agora terminavam em espinhos longos e afiados como garras.
Com um sussurro que parecia o vento passando por um cemitério, ela cravou os espinhos diretamente no peito dele, rasgando a pele exatamente onde ele a havia machucado. A dor foi tão lancinante, o choque tão profundo, que a mente de Cravo cedeu. O Cravo teve um desmaio.
O Choro Final
Quando ele acordou, a dor havia sumido, substituída por um vazio congelante. Ele tentou se levantar, mas viu seu próprio corpo estirado na cama, com o peito aberto e coberto de pétalas vermelhas. Ele agora era apenas um espírito, preso ali para sempre.
Ao lado da cama, a aparição de Rosa olhava para o cadáver. De seus olhos vazios, começaram a brotar lágrimas de sangue que escorriam pelo rosto mutilado. Não eram lágrimas de tristeza, mas de uma satisfação macabra. A vingança estava completa.
O eco do seu pranto medonho preencheu o quarto, enquanto ela lentamente se desfazia em uma nuvem de pétalas negras, deixando a alma de Cravo condenada a assistir, pela eternidade, o preço de sua crueldade.
E a Rosa pôs-se a chorar.