Meu nome é Ingrid. Tenho 14 anos, mas às vezes sinto como se tivesse vivido muito mais do que isso. Tem dias em que eu olho para outras pessoas da minha idade e penso que elas não fazem ideia do peso que algumas crianças carregam desde cedo.
Meus pais se separaram quando eu tinha apenas um ano de idade. Eu praticamente cresci sem saber o que era ter minha família unida. Meu pai mora longe. Minha mãe mora comigo. Também moro com meus irmãos e meu padrasto. Queria poder dizer que minha casa sempre foi um lugar de paz, mas não foi. Meu padrasto e eu nunca tivemos um bom relacionamento. Já tivemos muitas brigas, discussões e momentos que me machucaram profundamente. Grande parte da ansiedade e da depressão que vivi começou por causa de tudo isso. Minha relação com a minha mãe também nunca foi perfeita. A gente tem nossos conflitos, mas, mesmo assim, é melhor do que a relação que tenho com ele.
Quando eu tinha apenas oito anos, minha vida mudou completamente. Foi nessa idade que conheci a ansiedade e a depressão. Eu era só uma criança, mas já sentia um peso enorme dentro de mim. Enquanto outras crianças brincavam sem preocupações, eu lutava contra pensamentos que nem sabia explicar. Graças a Deus, consegui vencer a depressão aproximadamente um ano depois. Foi uma vitória enorme. Mas a ansiedade permaneceu. Hoje ela já não é tão forte quanto era naquela época, mas ainda faz parte da minha vida. Às vezes ela aparece do nada. Às vezes ela me faz pensar demais, sentir demais, sofrer por coisas que talvez nunca aconteçam.
Existem dias em que minha própria mente parece ser meu maior inimigo. Eu penso demais em tudo. Eu me preocupo demais. Eu imagino mil cenários. Eu sinto medo do futuro. Eu sinto medo de decepcionar as pessoas. E, principalmente, sinto medo de nunca conseguir ser suficiente.
Tenho muitas inseguranças. Não gosto do meu cabelo. Não gosto do meu corpo. Muitas vezes me olho no espelho e só consigo enxergar defeitos. Vejo meninas bonitas na internet, nas ruas e na escola, e acabo me comparando. Eu queria me vestir do jeito que gosto. Queria usar roupas que me fizessem sentir bonita e confiante. Mas a realidade é diferente. Não tenho dinheiro para comprar o que quero. Não trabalho. Dependo dos outros. Isso faz eu me sentir limitada.
Na escola também não sou exatamente a aluna que gostaria de ser. Minhas notas não estão péssimas, mas também não estão boas como eu sonho. Tenho notas acima de sete, mas também tenho duas notas cinco. Sei que posso fazer melhor. Só que, às vezes, a minha cabeça está tão cheia que estudar parece muito mais difícil do que deveria ser.
Apesar de tudo isso, existe uma parte muito importante da minha vida: Deus.
Quando eu tinha doze anos, tomei uma das decisões mais bonitas da minha vida. Me batizei nas águas na igreja evangélica. Naquela época eu estava completamente entregue. Eu sentia Deus de uma forma que nunca tinha sentido antes. Eu orava, eu buscava, eu me sentia viva espiritualmente.
Mas, com o tempo, tudo mudou.
Por influência de pessoas da minha família e também de alguns amigos, comecei a frequentar bailes, festas e fui me afastando aos poucos da presença de Deus. Quando percebi, eu já estava completamente desviada. Não era mais a menina que sonhava em agradar a Deus em tudo. Passei muito tempo sem conseguir sentir aquela presença que um dia senti. Isso me machucou muito, porque, no fundo, eu nunca deixei de acreditar em Deus. Eu apenas me perdi no caminho.
Hoje estou tentando voltar. Ainda não estou totalmente firme. Ainda erro. Ainda tenho dúvidas. Ainda caio. Mas continuo acreditando que Deus não desistiu de mim, mesmo quando eu achei que tinha ido longe demais.
Eu sinto muita falta da minha avó. Acho que poucas pessoas conseguem entender o tamanho dessa saudade. Ela mora em outro estado, e eu não posso vê-la quando quero. Também sinto muita falta dos meus primos. Existem dias em que essa distância dói tanto que parece faltar um pedaço de mim.
Minha avó sempre foi uma das pessoas que mais amo na vida. Só queria poder abraçá-la mais vezes.
Durante alguns momentos da minha vida, a dor ficou tão grande que pensei em desistir de tudo. Pensei em fugir. Pensei que talvez fosse melhor não existir. Hoje, olhando para trás, percebo o quanto eu estava machucada. Ainda existem dias difíceis, mas continuo aqui. E, no fundo, existe uma pequena esperança dizendo para mim que talvez um dia tudo fique bem.
A verdade é que ninguém conhece completamente a minha cabeça. As pessoas veem apenas a menina que sorri às vezes, conversa, posta fotos ou faz brincadeiras. Mas poucas conhecem as guerras que acontecem dentro de mim.
Mesmo assim, eu continuo sonhando.
Meu sonho é estudar muito. Quero me formar. Quero ser uma mulher inteligente e independente. Quero trabalhar como perita criminalista, investigar casos, ajudar pessoas e construir uma carreira da qual eu tenha orgulho.
Também sonho em casar com alguém que realmente me ame. Quero construir uma família diferente da que vivi. Quero dar aos meus filhos um lar cheio de amor, respeito, diálogo e segurança. Quero que eles nunca precisem sentir algumas dores que eu senti.
Sonho em ter minha casa própria. Sonho em ter estabilidade financeira. Quero poder olhar para trás e perceber que tudo o que vivi valeu a pena.
Também sonho em morar fora do Brasil. Londres sempre chamou minha atenção. Gosto da ideia de viver em outro país, conhecer novas culturas, talvez morar nos Estados Unidos, na Flórida, no Canadá ou em outro lugar onde eu possa recomeçar uma nova história.
Outro sonho que guardo no coração, mesmo parecendo distante, é atuar. Adoro imaginar como seria participar de filmes ou séries românticas. Sei que parece impossível para muita gente, mas sonhar nunca foi proibido.
Às vezes penso que sou cheia de defeitos.
Mas, quando paro para pensar com calma, percebo que também tenho qualidades.
Sou uma pessoa que ama intensamente. Quando gosto de alguém, gosto de verdade. Sou sensível. Me importo com os sentimentos das pessoas. Quero ajudar quem sofre. Tenho fé, mesmo quando ela parece pequena. Continuo acreditando que minha história não termina na dor.
Ainda estou tentando descobrir quem eu realmente sou.
Talvez eu ainda chore muito.
Talvez eu ainda tenha dias ruins.
Talvez minha ansiedade continue caminhando ao meu lado por um tempo.
Talvez eu ainda me sinta insegura olhando para o espelho.
Mas também acredito que Deus ainda está escrevendo a minha história.
Eu não sou apenas a menina da ansiedade.
Não sou apenas a menina que sofreu com depressão.
Não sou apenas a menina das inseguranças.
Não sou apenas a menina das saudades.
Sou uma menina que sobreviveu.
Uma menina que continua tentando.
Uma menina que caiu, levantou, caiu de novo e ainda assim continua caminhando.
Ainda tenho muito para viver.
Ainda quero conhecer lugares que nunca vi.
Ainda quero abraçar minha avó muitas vezes.
Ainda quero fazer minha mãe sentir orgulho de mim.
Ainda quero descobrir o amor verdadeiro.
Ainda quero conquistar minha profissão.
Ainda quero voltar a sentir a presença de Deus da forma que um dia senti.
Ainda quero olhar para a Ingrid de 14 anos e dizer:
"Você conseguiu. Você venceu tudo aquilo que um dia achou que iria te destruir."
E talvez esse seja o maior sonho de todos.
Ser feliz.
Não uma felicidade perfeita, porque ela não existe.
Mas uma felicidade verdadeira.
Daquelas que finalmente fazem a gente sentir que encontrou o próprio lugar no mundo.