O som do teclado é a única coisa constante dentro do meu apartamento. Ele preenche o espaço de um jeito quase artificial, como se estivesse ali não para acompanhar o silêncio, mas para escondê-lo. Porque quando eu paro de digitar, quando meus dedos deixam as teclas e o som cessa, o silêncio não parece vazio — ele parece errado. Denso. Presente demais.
Eu não lembro quando isso começou.
Talvez tenha sido há alguns dias. Ou mais.
Os dias têm passado de um jeito estranho, como se escorressem por entre os meus dedos sem deixar marca.
A luz que entra pela janela não ajuda. Não é clara o suficiente para iluminar, nem escura o suficiente para justificar o cansaço. Fica naquele meio-termo irritante, deixando tudo com uma cor apagada, sem vida. Eu esfrego os olhos, sentindo um leve ardor, e tento ignorar o peso constante no meu corpo, como se eu tivesse feito esforço demais… sem lembrar qual.
“Cansaço”, eu digo pra mim mesma.
É sempre isso.
Minha rotina sempre foi simples. Trabalho de casa, horas em frente ao computador, academia no fim do dia, às vezes encontro alguém, às vezes não. Eu gosto assim. Gosto de previsibilidade. Gosto de saber onde cada coisa está, o que eu fiz, o que eu ainda vou fazer.
Talvez por isso tenha me incomodado tanto.
Decidi limpar o apartamento no terceiro dia de férias. Não foi uma decisão planejada, foi mais uma necessidade — o ar parecia carregado demais, parado, como se algo estivesse ali há tempo demais sem ser tocado.
Abri as janelas e o vento entrou devagar, frio o suficiente para arrepiar minha pele. Não um frio intenso, mas aquele tipo que se infiltra aos poucos, como se procurasse espaço.
Comecei pela mesa, depois as gavetas, movimentos automáticos, quase sem pensar. Até encontrar o papel.
Ele estava dobrado no fundo de uma gaveta que eu não lembrava de ter aberto recentemente. Puxei com cuidado, desdobrei sem muita atenção e li as primeiras linhas por cima.
“Comprar alvejante.”
“Descartar roupas.”
“Cuidar dos arranhões.”
Franzi a testa, soltando um riso curto, sem humor. “Nossa…” murmurei, mais para mim mesma. Aquilo tinha cara de coisa antiga, talvez da adolescência. Eu tive uma fase estranha, dramática, em que escrevia coisas sem sentido como se estivesse vivendo dentro de alguma história.
Fazia sentido.
Mas, ainda assim, eu não dobrei o papel.
Continuei olhando.
“Apagar histórico.”
“Lavar o chão.”
Meus dedos apertaram o papel sem perceber. Havia algo errado, eu só não sabia dizer o quê.
Meus olhos desceram mais um pouco.
“Descobrir quem eu matei.”
O ar pareceu mudar de temperatura. Ficou mais frio, mais pesado. Eu não ri dessa vez. Fiquei parada, olhando para aquela frase como se ela pudesse se explicar sozinha.
— Eu não lembro de ter sido esse tipo de pessoa…
Minha voz saiu baixa, arrastada. E não soou convincente.
Dobrei o papel com cuidado e deixei sobre a mesa. Eu podia ter jogado fora. Devia, talvez.
Mas não joguei.
Nos dias seguintes, comecei a notar coisas pequenas. O alvejante foi a primeira. O cheiro veio antes mesmo de eu abrir o armário — forte, ácido, invadindo o ar. O frasco estava lá, aberto. Eu não lembrava de ter comprado.
Passei a mão pelo braço quase sem pensar e senti o ardor antes mesmo de ver. Arranhões. Finos, paralelos, alguns recentes, outros já cicatrizando. Fiquei tentando lembrar de onde vieram, mas nada fazia sentido.
Voltei para a sala.
A lista ainda estava lá.
“Cuidar dos arranhões.”
Um frio percorreu meu corpo.
Nos dias seguintes vieram mais sinais. Curativos no lixo, manchas em roupas, minhas unhas quebradas. E o cansaço. Sempre o cansaço. Eu acordava como se não tivesse dormido, como se alguma parte de mim tivesse ficado acordada a noite inteira fazendo alguma coisa que eu não conseguia lembrar.
Foi então que comecei a correr.
A pracinha ficava a alguns quarteirões de casa. Nada especial — árvores, um caminho de concreto, postes que nunca iluminavam o suficiente. O céu sempre parecia indeciso, nem claro nem escuro.
Foi lá que eu encontrei ele.
Ele corria ao meu lado como se já estivesse ali há algum tempo. Calça de moletom preta, tênis esportivo, movimentos leves, controlados. Mesmo por baixo da roupa, dava para notar o contorno dos músculos. O rosto… marcante. Olhos escuros, atentos, como se vissem mais do que deveriam. Quando sorria, levemente, os olhos se fechavam um pouco, formando linhas suaves.
— Você lembra de mim? — ele perguntou.
Eu não lembrava. Mas a conversa fluiu fácil demais. Natural demais. E, de algum jeito, eu confiei.
Ele começou a aparecer sempre. Corríamos juntos, conversávamos, e a presença dele… acalmava. Como se organizasse alguma coisa dentro de mim.
Até o dia em que tudo quebrou.
Eu estava correndo, o ar pesado, o corpo estranho. Minha visão falhou por um segundo.
E então… eu não estava mais lá.
O cheiro veio primeiro. Metálico. Quente. Errado.
Olhei para minhas mãos. Sangue. Meu coração disparou, minha respiração saiu do controle. Havia um corpo. Imóvel. Eu não lembrava de nada.
— Eu fiz isso? — sussurrei.
Foi quando ele apareceu.
Calmo. Estável.
— Olha pra mim — disse.
Eu não conseguia. Mas ele continuou, como se aquilo fosse normal.
— A gente resolve isso.
E eu acreditei.
Depois disso, tudo virou fragmento.
Banho quente sem lembrar de entrar. Ele falando comigo do outro lado do vidro. Eu dormindo. Acordando como se nada tivesse acontecido. No dia seguinte, correndo novamente.
— Você passou mal — ele disse. — Só isso.
E eu aceitei.
Até encontrar a segunda lista.
Mais organizada. Mais fria.
“Limpar o chão.”
“Trocar de roupa.”
“Descartar o que sobrou.”
“Verificar as unhas.”
“Continuar.”
Minha cabeça doeu. Vieram flashes. Sangue. Movimento. Um corpo. Mas nenhum rosto.
E ele não estava lá.
Foi então que eu soube.
— Eu matei alguém.
Passei dias tentando descobrir quem. Não havia rastros. Tudo limpo. Perfeito demais.
Até que lembrei.
Uma amiga. Eu conversando. Ele ao meu lado.
Ela não olhou para ele.
Não cumprimentou.
Não reagiu.
Porque ele não estava lá.
As memórias vieram de uma vez.
A terra úmida. O cheiro forte. Minhas mãos cavando. O corpo.
O rosto destruído.
E, ainda assim…
reconhecível.
— Foi você…
Eu sussurrei.
Levantei o olhar.
Ele estava ali.
Mas não como antes.
Parecia… instável. Como uma lembrança tentando se sustentar.
— Você precisava de ajuda — ele disse.
Minha voz falhou.
— Eu te matei…
Tudo fez sentido.
Ele não era proteção.
Era o que restou.
Dentro de mim.
— Você ainda precisa terminar — ele disse.
— O quê?
Ele sorriu, aquele mesmo sorriso.
— Continuar.
Minha visão falhou.
Quando voltou…
eu estava sozinha.
O vento atravessava a pracinha, frio, vazio.
E, pela primeira vez…
não tinha ninguém ao meu lado.
Eu não sei há quanto tempo estou aqui.
Os dias não parecem mais dias, e as lembranças… não parecem mais minhas.
Mas quando olho para minhas mãos,
eu ainda não sei dizer
o que foi que eu já limpei —
e o que ainda falta limpar.