Capítulo 1: Reencontro Inesperado
Tóquio era uma cidade que nunca dormia. Luzes de neon, arranha-céus que pareciam tocar as nuvens e o som constante de movimento enchiam o ar. Para Ayra Alves, aquela viagem era um sonho realizado. Aos 18 anos, ainda no ensino médio, ela era a definição de doçura.
Ayra tinha apenas 1,40m de altura, o que fazia com que parecesse ainda mais frágil e delicada. Sua pele parda brilhava sob o sol, e seus cabelos castanhos claros eram o seu maior orgulho — enormes, cacheados e volumosos, como uma nuvem morena ao redor do rosto. Seus olhos eram castanhos escuros, profundos e expressivos, que sempre transmitiam timidez e bondade. Ela amava vestir roupas leves, fluidas e confortáveis, que combinavam com o seu jeito calmo e sonhador.
Apesar de ser a única herdeira da família Alves, uma família com posses, Ayra não tinha nada de arrogante. Era dócil, carinhosa e amava animais mais que tudo. Sonhava com aventuras, mas tinha um segredo que a fazia parecer ainda mais pequena: tinha pavor de altura. E seu maior conforto no mundo? Um pedaço de bolo de chocolate com morangos frescos por cima.
— Ayra-chan, vamos entrar aqui? — sugeriu sua mãe, apontando para uma cafeteria charmosa no bairro de Shibuya.
Ayra sorriu, acenando com a cabeça. Ela estava ansiosa para provar as delícias do lugar. Ao empurrar a porta de vidro, o sininho tocou, mas o som foi quase abafado por um clima tenso que pairava no interior do estabelecimento.
Do outro lado da sala, um clima pesado dominava. Ali estava Alexander Duque. Com seus 1,90m de altura, ele era uma torre de homem. Pele clara, cabelos pretos como a noite e olhos castanhos que, ao invés de transmitirem calor, pareciam dois blocos de gelo. Fechado, marrento e com um temperamento que explodia com facilidade, Alexander era o tipo de pessoa que fazia o ambiente ficar silencioso só de entrar. Único herdeiro da família Duque, estava acostumado a ter tudo o que queria e a não aceitar desaforos. Ele amava bolo de cenoura com cobertura de chocolate, um sabor doce que contrastava com seu jeito sério.
Ao seu lado, estava Clara. Uma garota de beleza fria, que segurava o braço de Alexander com possessividade.
— O que você olhou, seu idiota?! — gritou Alexander, com a voz grossa e raivosa.
Ele tinha acabado de dar um soco leve, mas forte o suficiente para fazer o garçom cambalear. O rapaz tinha apenas olhado na direção deles por um segundo, mas Clara sussurrou algo no ouvido de Alexander, insinuando que o olhar era desrespeitoso e que ele estava "dando em cima dela". O temperamento explosivo de Alexander fez o resto. Ele partiu para a agressão física, batendo no garçom, que recuou assustado.
Ayra, que acabara de entrar e não sabia de nada, ficou paralisada na porta. Seus olhos grandes se arregalaram. Ela era tão sensível que brigas a deixavam apavorada. Querendo se afastar da confusão, ela deu um passo para o lado, mas no mesmo instante Alexander deu um passo brusco para frente, ainda furioso, e esbarrou nela com força total.
— Ah! — Ayra soltou um gritinho baixo, fechando os olhos esperando bater no chão. Ela era tão pequena que o impacto a jogaria longe.
Mas a queda nunca aconteceu.
Um braço forte e quente a envolveu pela cintura, segurando-a firme antes que tocasse o chão. O mundo pareceu desacelerar. Ayra abriu os olhos devagar e se viu presa contra o peito largo de Alexander.
Eles se encararam.
De cima, ele olhava para baixo. Ela olhava para cima, perdida naquela imensidão. A raiva nos olhos dele pareceu diminuir por um segundo, substituída por uma surpresa momentânea ao ver aquela menina de cachos enormes e olhos escuros tão assustados e, ao mesmo tempo, tão doces. Ayra sentiu seu coração bater tão forte que pensou que ele iria ouvir. A proximidade era sufocante e estranha. O cheiro dele era de perfume caro e algo amadeirado.
Ficaram assim, imóveis, olhos nos olhos, o tempo parecendo ter parado naquela cafeteria de Tóquio, como se o destino tivesse escrito aquele momento em algum lugar de um jardim secreto.
— VOCÊ É LOUCA?!
A voz estridente de Clara quebrou o momento como vidro estilhaçado. Ela puxou Alexander bruscamente para longe de Ayra, colocando-se na frente dele como uma guardiã possessiva.
— Quem você pensa que é, sua nojenta? — gritou Clara, com os olhos cheios de ódio. — Veio se jogar em cima dele, é? Achou que porque ele é rico e bonito você ia conseguir alguma coisa? Eu sei o que vocês são, interesseiras de quinta categoria!
Ayra encolheu-se toda, encolhendo os ombros. Sua timidez a dominou completamente. Ela queria explicar que foi um acidente, que não queria nada, mas as palavras morreram em sua garganta. Ela apenas baixou a cabeça, deixando que seus cachos castanhos escondessem seu rosto vermelho de vergonha.
— Sempre aparece uma dessas querendo roubar o que é meu — continuou Clara, aproximando-se mais, intimidando a pequena garota. — Ele é meu, ouviu bem? Meu! Saia da nossa frente antes que eu faça algo pior!
Alexander permaneceu em silêncio, com a expressão fechada, cruzando os braços. Ele não disse nada para defendê-la. Talvez nem se importasse, ou talvez estivesse acostumado com os dramas de Clara. Mas lá no fundo, uma parte dele sentiu um aperto estranho ao ver aquela menina tão pequena sendo atacada daquela forma.
Ayra não aguentou. As lágrimas começaram a se formar em seus olhos castanhos. Sem dizer uma única palavra, sem olhar para trás, ela virou-se e saiu correndo para fora da cafeteria.
Seus pés pequenos bateram rápido no assoalho de madeira e depois no concreto da rua. Ela correu, correu como se o ar estivesse faltando, passando pelas pessoas, ignorando a cidade movimentada, com um único destino: a estação de trem mais próxima.
Ela só queria sumir dali. Só queria esquecer o olhar frio dele e a voz gritando daquela garota. Mas mesmo correndo, a imagem dos olhos castanhos de Alexander e o calor da mão dele em sua cintura ficaram gravados em sua mente, como uma lembrança que ela ainda não sabia que tinha perdido.
E assim, o primeiro encontro deles não foi com flores e sorrisos, mas com gritos, raiva e uma fuga desesperada, dando início ao mistério do Jardim das Memórias Perdidas.