O quarto ainda cheirava a você.
Não era um cheiro forte — era quase uma lembrança. Como se o ar insistisse em guardar aquilo que você levou embora.
Eu fiquei sentada na beira da cama, olhando para o nada, tentando entender em que momento tudo começou a quebrar.
Porque não foi de repente.
Nunca é.
Você prometeu que ficaria.
Disse isso numa noite qualquer, quando o mundo parecia menos assustador só porque sua mão estava na minha. Eu acreditei.
Acreditei de um jeito perigoso — daquele tipo que faz a gente se entregar sem pensar no que acontece depois.
E o depois… sempre chega.
As mensagens começaram a demorar.
As ligações ficaram curtas.
O “eu te amo” virou silêncio.
E eu?
Eu comecei a me perguntar o que tinha feito de errado.
Será que eu falei demais?
Será que eu não fui suficiente?
Será que você encontrou alguém melhor?
Essas perguntas viraram um eco dentro de mim.
No dia em que você foi embora, não teve grito.
Isso que doeu mais.
Você só disse, com uma calma que parecia cruel:
— “Eu acho que a gente não está mais na mesma página.”
Mesma página…
Eu estava escrevendo um futuro inteiro, e você já tinha fechado o livro.
Depois que você saiu, o mundo ficou estranho.
As coisas continuaram acontecendo — pessoas rindo, carros passando, dias amanhecendo —
mas dentro de mim… tudo ficou parado.
Como se o tempo tivesse desistido de mim também.
Eu tentei te odiar.
Juro que tentei.
Mas como odiar alguém que foi casa, quando tudo dentro de mim ainda se sente perdido?
Então, um dia, eu percebi algo.
Você não levou tudo.
Você levou promessas, memórias, pedaços de mim…
mas não levou minha capacidade de recomeçar.
Mesmo que eu ainda não saiba como.
E foi aí que entendi:
Você me abandonou…
mas eu ainda estou aqui.
E talvez… só talvez…
isso seja o começo de algo que não dependa de você.