São uma da manhã… parece loucura , mas preciso adiantar isso…
Morar sozinha tem suas vantagens: sem relatório diário de onde fui, com quem fui.
Mas …
Meu gato não lava louça ,o pastor alemão que treinei para minha proteção não leva roupa na lavanderia…
Na última vez que fui, reparei no atendente: jeito de nerd simpático.
E com bom gosto para livros…
Ainda lembro do “ carinho” com o equipamento…
— máquina masoquista. - eu disse.
E ele respondeu sem rodeios…
Gostos parecidos… não tem idéia jovem…
Não tem idéia.
Vou lá brincar com ele.
Ver o que esconde atrás daquela armação…
Já me iludi com cascas bonitas,
Belas violas ocas…
Não valem o esforço.
Arrumo minhas bagagens,
Minhas “ peças delicadas “ já estão
Separadas…
Inocente
Acha que não vi ele vendo…
A cor mudando…
Isso que dá trabalhar à noite.
Sem sol pequeno vampiro…
Seu corpo te entregou.
Hilário.
Eu coroa ainda mexo com a imaginação de um jovem…
Interessante.
Fiquei tantos anos acompanhada,
E sinceramente mal acompanhada,
Que tinha esquecido que charme
Vai além do físico…
Nesse mundo virtual,
Onde corpos são oferecidos em vitrines.
Ainda existem poucos, poucos que gostam da sútil arte da conexão sem telas .
A lavanderia é perto, meu cão me segue.
Killer… cara de que comeu gente.
Quase. Mas não comeu.
Fica do lado de fora, como uma estátua negra.
Estou com o moletom da outra vez.
Ele me olha , dessa vez não esconde o livro.
Ficou confortável.
— máquina 5 está ok jovem ?
— sim. Saltita ainda…— e me olha com um olhar meio malandro.
Dou um leve sorriso e vou até ela.
Arrumo o coberdrom, e na outra de peças delicadas.
Dou uma olhada de canto, ele está lendo.
Começo a por as peças ,
Trouxe uma mais quente
Uma camisola,renda . Tule.
Abri ela para ver e olho de canto,
Vejo ele saindo para outra área.
Eu deveria ter vergonha.
Mas …
Era divertido.
Saber que ele achava que não via.
Mas como um felino brincava com sua caça, repetia com ele…
Arrumei tudo e me joguei no puff velho
Lembrei de Killer.
Me levanto e vou até o jovem.
— Querido. Não vi avisos na loja, mas meu segurança está lá fora. Ele é educado… pode entrar ?— digo.
Ele olha para a porta e vê o gigante negro.
— Desde que não me morda. — diz
Vou a porta e ele entra em silêncio, vai até perto do puff e se deita.
— ele é educado. Só faz o que mandam.
Morder só se pedirem… — digo indo para o puff, com um tom de voz que o mordeu.
Vejo ele engolir seco, e pegar o livro.
Um dedo dele estava trêmulo.
Senhor…
Virei o lobo
E ele o cordeiro…
Quem sabe?
Será que não tem um lobo
Por baixo daquela pele?