O asteroid 2024-7B — aquele que a NASA jurou que passaria "a uma distância segura" — estava agora visível a olho nu, crescendo no céu noturno como uma segunda lua envergonhada.
Faltavam sete dias.
Lia não estava em um abrigo governamental. Não estava com a família. Estava no apartamento 42 do Edifício Solaris, segurando um potinho de iogurte de cereja vencido e observando o homem do apartamento 43 tentar, pela terceira vez, arrombar a porta entre os dois lados do corredor.
— Você sabe que isso é invasão de domicílio, né? — ela disse, sem levantar os olhos do iogurte.
— A polícia está um pouco ocupada — respondeu ele, ainda trabalhando com um cartão de crédito na fechadura. — E eu só quero o seu gerador. O meu pifou.
— Não tenho gerador.
— Todo mundo no 42 tem gerador. É regra não escrita.
— Sou vegana. — Ela deu uma colherada no iogurte. — O gerador fede a diesel. Devolvi.
Ele parou. Olhou para ela pela primeira vez — realmente olhou — e Lia notou que ele tinha uma cicatriz no queixo que parecia um mapa de um lugar que ela nunca visitaria.
— Você está comendo iogurte vencido — ele observou.
— Você está arrombando a porta de uma estranha enquanto um rocha do tamanho do Texas vem nos matar. A gente escolhe nossas prioridades.
Ele riu. Foi uma risada surpreendentemente alta, quase infantil, vindo de alguém com olheiras tão profundas que pareciam escavadas com colher de chá.
— Gabriel — ele disse, estendendo a mão.
— Lia. E a porta está destrancada. Sempre esteve.
---
Ele não foi embora.
Isso era o problema. Lia esperava que ele pegasse o gerador inexistente e desaparecesse — literalmente, já que o mundo acabava em uma semana. Mas Gabriel sentou-se na sua poltrona de veludo verde (herança da avó, única coisa que ela não conseguira vender) e começou a falar sobre constelações.
— Você sabe que estrelas já morreram? — ele perguntou, apontando para a janela. — A luz que a gente vê pode ter viajado milhões de anos. A estrela pode não existir mais, mas a gente ainda vê ela brilhar. É como... um adeus atrasado.
Lia não queria ser o tipo de pessoa que se emocionava com astronomia às três da manhã, mas o iogurte de cereja estava acabando e o asteroid estava lá fora, e de repente tudo parecia ter sido projetado para fazer seu peito apertar.
— Por que você queria o gerador? — ela perguntou.
— Minha irmã. Ela está num hospital em Santos. Precisa de equipamento para respirar. Eu queria... — ele fez uma pausa, massageando as têmporas. — Eu queria tentar chegar lá. Mas meu carro não liga, o trânsito está impossível, e agora... — ele gesticulou para o nada. — Agora eu estou aqui, invadindo apartamentos e filosofando sobre estrelas mortas.
Lia olhou para o potinho vazio. Cereja. Sempre fora seu sabor favorito, mesmo criança, mesmo quando a mãe dizia que parecia remédio. Ela tinha comprado esse iogurte três semanas atrás, planejando comer "na segunda-feira", depois "quando terminasse o projeto", depois "amanhã certeza".
Amanhã não existia mais. Só havia agora, e Gabriel, e a poltrona verde, e a segunda lua crescendo na janela.
— Meu carro funciona — ela ouviu a si mesma dizer. — E eu sei um atalho para Santos. Minha avó tinha uma casa de praia lá. A gente ia todo verão.
Ele a encarou.
— Você não me conhece.
— Você também não me conhece. E ainda assim sentou na minha poltrona.
— Sua poltrona é confortável.
— Eu sei. — Ela se levantou, jogando o potinho no lixo. — Vamos. Se vamos morrer, prefiro morrer tentando do que esperando. E você tem cara de quem dirige mal, então eu dirijo.
---
Eles não chegaram a Santos.
O atalho da avó — uma estrada de terra que cortava plantações de cana — estava bloqueado por carros abandonados, famílias inteiras acampadas como se o fim do mundo pudesse ser adiado com barracas de camping e coolers de cerveja.
Lia e Gabriel voltaram. Para o apartamento 42. Para a poltrona verde.
Faltavam três dias.
— Eu deveria estar com ela — Gabriel disse, na noite do segundo dia, com a cabeça no colo de Lia. Ela não lembrava quando isso acontecera, apenas que seus dedos agora passavam por seu cabelo automaticamente, como se sempre tivessem sabido fazer aquilo. — Eu deveria ter ido antes. Quando ainda dava. Eu fiquei tentando consertar o gerador, tentando ser útil, e agora...
— Você tentou — Lia disse. — Isso conta.
— Não conta. Nada conta. — Ele se sentou, abrupto. — Daqui a trinta e seis horas a gente vai virar poeira cósmica, Lia. Poeira. E eu não sei nem a sua cor favorita.
— Verde.
— Sério?
— Sério. — Ela apontou para a poltrona. — Por isso guardei essa coisa horrorosa. Minha mãe odiava. Dizia que parecia mofo.
Ele riu daquela risada alta de novo, e Lia sentiu algo se deslocar em seu peito, algo que não tinha nome porque nunca havia sido necessário nomeá-lo antes.
— Minha cor favorita é laranja — ele disse. — Tipo o céu agora. Olha.
Ela olhou. O sol se punha, e o céu realmente estava laranja — não o laranja bonito de cartão postal, mas algo mais intenso, quase violento, como se a atmosfera já soubesse o que vinha.
— Gabriel?
— Hum?
— Você já se apaixonou?
Ele ficou em silêncio por tanto tempo que Lia pensou que não responderia.
— Uma vez. Anos atrás. — Ele voltou a deitar a cabeça no colo dela, mais pesado agora. — Não deu certo. Ela disse que eu vivia no futuro, planejando coisas, e esquecia de estar no presente. Ela não estava errada.
— E agora?
— Agora eu estou no presente. — Ele fechou os olhos. — E odeio isso. O presente é horrível. Tem asteroides e iogurte vencido e pessoas que a gente não vai conhecer o suficiente.
Lia sentiu suas lágrimas antes de perceber que estava chorando. Quentes, rápidas, silenciosas. Ela não chorava desde o funeral da avó, três anos atrás. Não por tristeza, mas por raiva — raiva de que alguém pudesse ir embora sem avisar, sem dar tempo de dizer o que precisava ser dito.
— Eu não quero que você seja poeira — ela sussurrou.
— Não temos escolha.
— Eu sei. — Ela limpou o rosto com a manga da camiseta. — Mas se eu pudesse escolher, eu escolheria... isso. Esse momento. Você na minha poltrona horrível, falando de estrelas mortas. Eu escolheria isso em vez de... em vez de ter vivido cem anos sem isso.
Gabriel abriu os olhos. Olhou para ela como se estivesse vendo algo novo — não Lia, a vizinha do 42, mas Lia, a pessoa que guardava poltronas verdes e sabia atalhos e comia iogurte vencido porque procrastinar era sua forma de ter esperança.
— Você é louca — ele disse, mas estava sorrindo.
— Eu sei.
— Eu também escolheria isso.
---
O último dia chegou.
Eles não dormiram. Fizeram panquecas às três da manhã — a última farinha do apartamento, ovos que Gabriel encontrou na geladeira do vizinho (com bilhete de desculpas), e uma jarra de cerejas em calda que Lia esquecera que tinha.
— Cereja — Gabriel disse, provando. — Seu sabor.
— Meu sabor.
Eles comeram na varanda, observando o céu clarear. O asteroid era agora visível de dia — uma mancha escura atravessando o azul, maior que a lua, maior que qualquer coisa que deveria estar caindo do céu.
— Quanto tempo? — Lia perguntou.
— Calculadoras online dizem quatorze horas. Mais ou menos.
— Mais ou menos.
Ela riu. Foi um som estranho, quase histeria, mas genuíno. Gabriel pegou sua mão — outra coisa que acontecera sem que ela notasse, e agora seus dedos estavam entrelaçados, suados, firmes.
— Eu queria ter te conhecido antes — ele disse.
— Eu também.
— Eu queria saber por que você é vegana. Se você tem irmãos. Se você acredita em alguma coisa depois.
— Porque os animais não pediram para nascer em fazendas industriais. Não tenho. E... — ela fez uma pausa, surpresa com a própria resposta. — E eu não acreditava. Até agora. Agora eu quero acreditar que existe alguma coisa onde a gente possa... continuar. Não como poeira. Como nós.
Gabriel a puxou para perto. Não foi um beijo de cinema — foi desajeitado, havia cereja no canto da boca dele, e Lia bateu o cotovelo na mesa — mas foi o primeiro beijo que importava, porque era o último que eles teriam.
---
Quatorze horas depois, quando a luz tomou tudo, Lia ainda segurava a mão dele.
E no último segundo — ou talvez no primeiro segundo do que vinha depois — ela pensou em estrelas. Em como a luz viajava mesmo depois da morte. Em como, em algum lugar, em algum tempo, alguém ainda veria ela e Gabriel sentados naquela varanda, comendo panquecas de cereja, escolhendo o presente mesmo sabendo que não havia futuro.
O iogurte vencido.
A poltrona verde.
O mapa no queixo dele.
A risada alta.
O verde. O laranja. O agora.
O último sabor de cereja.
Fim